Jacob
A fumaça do braseiro no centro da tenda do conselho subia em espirais lentas, misturando-se ao cheiro de tabaco, madeira queimada e suor de guerreiros. Ao meu redor, os anciãos murmuravam em tom grave, discutindo fronteiras, caçadas e as leis que mantinham nossa aldeia isolada do restante do mundo. Todos ali me respeitavam, alguns por ser filho do alfa, outros pela lâmina da minha faca e pelo sangue que derrubei para defender nossas terras. Para as moças da tribo, eu era o pretendente cobiçado, o guerreiro forte que muitas queriam ao lado. Mas nenhuma delas entendia o vazio que me corroía por dentro. Minhas mãos estavam calejadas, os cabelos compridos meio presos na nuca, e o peito ardia com aquela urgência animalesca que não me dava paz há dois anos. O imprinting. A força invisível que havia acorrentado minha alma a alguém que eu mal conhecia, alguém de fora, cujo rastro sumira no tempo.
— A paciência é uma virtude que os jovens guerreiros insistem em desprezar, Jacob — a voz grossa de Billy ecoou na ponta da mesa, cortando os cochichos. Meu pai me encarava com os olhos escuros carregados de um aviso mudo. Ele sabia exatamente o que estava queimando na minha cabeça. Sabia que eu não aguentava mais esperar.
— Minha paciência esgotou, pai — falei, a voz grave ecoando pelas paredes de toras de madeira. Inclinei-me sobre a mesa, apoiando os punhos pesados na superfície — Eu preciso ir. Preciso buscar o alvo do meu elo. Ela está lá fora, e o meu lugar é ao lado dela.
Um silêncio tenso caiu sobre o conselho. Alguns anciãos abaixaram os olhos; outros murmuraram em desaprovação.
— Você sabe que as regras da aldeia são claras — retrucou um dos conselheiros mais velhos. — Os forasteiros não são bem-vindos aqui, e cruzar a fronteira para reivindicar alguém de fora exige mais do que a sua vontade.
— Eu não pedi permissão ao conselho. Vim avisar — rosnei, sentindo o calor subir pelo meu pescoço, o lobo sob a minha pele arranhando para sair.
— Você não vai dar um passo sequer sem a autorização de Charlie Swan — interveio meu pai, firme, colocando um ponto final na discussão com a autoridade que lhe era devida.
Fechei os olhos com força, trancando os dentes até a mandíbula estalar. Charlie Swan. O mesmo homem que expulsara Bella da aldeia no passado, criando a cicatriz que ainda dividia a sua própria família.
Saí da tenda do conselho pisando fundo, os punhos cerrados ao lado do corpo enquanto a fúria queimava sob a minha pele. O ar frio da noite atingiu meu rosto, mas não fez nada para esfriar o sangue que fervia em minhas veias.
As conversas dos anciãos e a cautela de meu pai pareciam amarras invisíveis tentando me prender a um destino de espera pacífica, algo que o meu lobo se recusava a aceitar. Acelerei os passos em direção à linha escura das árvores, onde o odor de terra, pinheiro e mato seco costumava me acalmar.
Eu precisava da floresta. Precisava do vento no meu pelo, de esticar as patas e correr até que o cansaço silenciasse a inquietação que esmagava o meu peito.
Estava prestes a rasgar o ar da noite e me transformar quando vultos rápidos e silenciosos se projetaram entre as sombras dos troncos antigos. Parei no ato, o corpo tenso e em alerta, até reconhecer as silhuetas famintas que emergiam da penumbra.
Eram os meus companheiros de bando, os guerreiros que eu havia encarregado de vigiar os passos da família de Bella e Edward além das nossas fronteiras.
— Jacob — chamou Quil, a voz entrecortada pela respiração funda de quem havia corrido léguas sem descanso.
— Você precisa ouvir isso antes de surtar e sair correndo.
— O que aconteceu? — rosnei minha voz grave e impaciente. — Aconteceu algo com ela?
Embry deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma mistura de ansiedade e excitação contida.
— Eles se moveram, Jacob. Toda a família. Edward, Bella, as garotas... todos eles saíram da casa principal.
Meu coração deu um baque violento contra as costelas.
— Para onde?
— Para a casa de campo, na borda da floresta fronteiriça — explicou Embry, indicando a direção norte com a cabeça.
— Eles chegaram lá ao entardecer. Por algum motivo que não entendemos, resolveram trazer a família inteira para a propriedade mais próxima das nossas terras.
Ela está mais perto de você do que jamais esteve. Um silêncio pesado caiu entre nós por um segundo, quebrado apenas pelo som do vento uivando na copa das árvores.
O destino parecia zombar da prudência de Charlie Swan e do conselho.
Enquanto eles me mandavam esperar e pedir permissão, a única pessoa a quem minha alma pertencia havia sido trazida quase para a porta da minha casa.
A distância que nos separava por anos agora podia ser percorrida em questão de minutos através da mata. Um sorriso sombrio e faminto cortou meu rosto na penumbra.
— Fiquem atentos — ordenei, sentindo o calor da transformação finalmente rasgar o controle do meu corpo. — É hora de ver com meus próprios olhos se ela já está pronta pra se juntar a mim.

