Império das Cinzas: A Alvorada de Sangue
Império das Cinzas: A Alvorada de Sangue
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Capítulo 1 - Prólogo

O som seco, pesado e cristalino de uma batida ressuscitada ecoou pelas entranhas da caixa torácica do homem estendido no chão, cortando o silêncio fúnebre como o estalar de um trovão no abismo. A estática da morte, que até um segundo atrás congelava o ar, estilhaçou-se de golpe.

O ar entrou rasgando pelos pulmões de Sasuke em uma golfada desesperada, ruidosa e agonizante de vida — um sopro violento, banhado em sangue e fogo —, como se a própria alma dele estivesse sendo arrancada das sombras e ancorada de volta à carne por garras de ferro em brasa. Seu pulmão deu um solavanco brutal sob a minha palma. Os olhos negros do Uchiha abriram-se de golpe — dilatados pela dor, desorientados pela travessia e queimando em um febreiro cego —, buscando o foco até se cravarem nos meus no meio da tempestade de poeira e escombros que continuavam a despencar do teto em ruínas.

Aquele bater firme, ritmo a ritmo, ecoando contra as minhas mãos trêmulas e ensanguentadas, era a prova física e inquestionável de que o abismo fora forçado a curvar-se ao poder da relíquia que pesava em meu pulso. O coração dele voltara a bater. A vida irrompia de volta no peito do Imperador do Norte.

O som daquela batida ressoou na minha alma como o primeiro raio de sol rasgando o breu de uma tempestade devastadora. Ele estava vivo. O homem que eu quase vira submergir no abismo sem volta — aquele por quem a perda fez meu peito queimar em uma fúria densa e assustadora que eu jamais ousara nomear ou admitir para mim mesma —, estava ali. Tão perto, tão real. Sentir o ar entrando de volta em seus pulmões e o pulsar ritmado de sua carne morna sob as minhas palmas varreu o desespero que dilacerava minhas entranhas, dando lugar a um oceano de puro alívio. Era um calor tão intenso e avassalador que sufocou todo o medo, fazendo meus olhos transbordarem em lágrimas quentes e silenciosas de alívio.

Mas a vida não veio de graça; a morte exigiu um tributo cobrado em carne viva e existência.

Enquanto o peito de Sasuke subia em espasmos dolorosos ao tragar o ar, a maldição do Selo de Jade irrompeu na minha própria pele com a ferocidade de uma fera acorrentada rompendo suas grilhões. Trepadeiras de veias roxas e profundamente negras, atravessadas por espirais reluzentes de um verde-esmeralda doentio, brotaram com violência das cicatrizes do meu antebraço direito. Elas rastejavam sob a minha epiderme como raízes venenosas e vivas, corroendo o tecido saudável à medida que avançavam. Elas devoraram o meu cotovelo num sobressalto incandescente, escalaram o ombro, alastraram-se em ramificações soturnas pela base do meu pescoço, envolvendo a minha garganta numa queimação gélida, sufocante e implacável.

O preço por resgatá-lo foi infinitamente mais devastador e cruel do que a dor do primeiro pulso no Vale dos Cristais. Se naquele vale o Selo apenas sugara minha força física, agora a relíquia devorava a própria essência da minha vida, espremendo minha alma até a última gota.

O oxigênio fugiu instantaneamente da minha garganta num gargarejo seco e sufocado; o impacto da energia não desabou como uma avalanche comum, mas como a ruína de um império inteiro colapsando sobre meus ossos. Era o peso insuportável de ter o fio do próprio destino cortado pela metade num único segundo. Uma pontada incandescente e paralisante atravessou meu peito, e a sensação horrenda de ter a vida escorrendo e se esvaziando num abismo sem fundo fez meu corpo tombar, sem forças, contra a rocha.

Uma pontada incandescente e paralisante atravessou meu peito, arrancando-me uma tosse fraca e violenta. Um gosto metálico espesso inundou minha boca, e uma golfada de sangue escuro manchou meus lábios e os meus próprios dedos trêmulos. O meu relógio biológico não apenas desacelerara: ele fora dilapidado, zerado no limite do suportável, gravando a fogo e sangue a minha sentença final. Não havia mais margem para erros ou dúvidas — restava apenas um único e derradeiro pulso antes da minha morte definitiva.

Mas eu não me importava. Nem por uma fração de segundo. Ter a certeza daquele coração batendo sob minhas mãos e ver a chama da vida reacender no fundo daquelas orbes ônix valia cada gota de sangue, cada fração de existência que me fora arrancada.

Sasuke piscou devagar, o foco retornando aos poucos enquanto a névoa do torpor da morte se desfazia. Ele buscou o ar em uma respiração pausada, tentando compreender onde estava. Mas, no instante em que o olhar dele desceu da abóbada destruída para pousar na minha figura e encontrou a carne do meu peito e do meu pescoço tomada por aquelas raízes negras e sufocantes, o mundo dele ruiu por completo.

A apatia e o entorpecimento da morte evaporaram em uma fração de segundo, substituídos por um pavor cru, avassalador e visceral — um pânico humano e desarmado que o orgulho inabalável do Imperador do Norte jamais permitira que alma alguma testemunhasse. A mente analítica do Uchiha conectou cada peça com uma velocidade brutal e implacável. Ele entendeu no mesmo milissegundo. O peso das minhas palavras na estalagem voltou a ecoar na sua memória com o impacto de uma lâmina: a revelação de que a relíquia exigia a força vital, a regra irredutível dos três usos e a contagem regressiva cravada na carne. Aquela visão da minha pele tomada por raízes escuras e reluzentes trazia a certeza trágica de que aquele era o segundo pulso. O penúltimo.

— Não... — a palavra escapou num rasgo arranhado e sufocado, a voz dele falhando por completo enquanto a garganta travava em um nó cego de puro desespero e agonia.

Ignorando a dor lancinante do peito recém-costurado e a fraqueza avassaladora de quem acabara de ser arrancado das garras da morte, Sasuke projetou-se para a frente em um movimento brusco e desesperado. Toda a sua prudência e postura impecável ruíram. Suas mãos — trêmulas, desprovidas da costumeira precisão cirúrgica de um guerreiro e marcadas por um tremor incontrolável — ampararam meus ombros com firmeza uma fração de segundo antes que meu corpo colapsasse contra a rocha gélida.

Ele me puxou contra o seu peitoral com um ímpeto quase doloroso, uma possessividade cega, desesperada e raivosa, abraçando-me com tanta intensidade como se tentasse, pela força bruta da sua própria alma, empurrar o calor da vida de volta para dentro da minha carne.

— O que você fez?! — a voz dele sibilou rente à minha orelha, um rugido abafado, rouco e quebrado, que rasgava a sua própria garganta num misto de fúria impotente, culpa avassaladora e pura agonia. — Eu disse para você viver! Eu ordenei que você não usasse essa maldição por mim!

Os dedos frios e trêmulos dele subiram devagar pela curva do meu ombro até alcançarem a base do meu pescoço, roçando a textura áspera e incandescente daquelas veias negras com uma delicadeza aterrorizada, como se temesse que o menor toque pudesse me partir ao meio. O maxilar de Sasuke travou com tanta violência que as linhas do seu rosto pareceram esculpidas em pedra, enquanto os músculos do seu pescoço saltavam sob a pele pálida pelo esforço desumano de conter a tempestade que o devastava por dentro.

Pela primeira vez desde que nossos caminhos se cruzaram, vi a armadura inabalável daquele homem ruir por completo: a autoridade de imperador e a frieza do guerreiro derreteram, dando lugar a um olhar tomado por um pavor absoluto, nu e visceral. As orbes ônix, antes tão profundas e impenetráveis, transbordavam de uma dor insustentável e sufocante — a agonia atroz de compreender que a sua própria existência fora resgatada do abismo ao custo da vida, do sangue e do tempo contado da mulher que ele jurara proteger.

Nenhum som saiu de sua garganta, mas a quebra de seu orgulho selou-se ali. Uma lágrima solitária, quente e pesada escapou dos seus cílios escuros, traçando um rastro silencioso por seu rosto pálido até cair sobre a minha bochecha ensanguentada, queimando a minha pele com o peso do seu sofrimento.

Apesar do frio congelante da maldição devorando meu pescoço, um sorriso fraco, genuíno e cheio de uma felicidade serena curvou meus lábios. Apoiei a mão trêmula contra a bochecha pálida dele, com manchas do líquido rubro, sentindo a pele morna, a textura viva do seu rosto. Ele estava ali. Estava salvo.

— Você está vivo... — a constatação escapou num murmúrio rouco, quase inaudível, rasgado no fundo de uma garganta seca pela poeira e pelo sangue. Mas, por trás de toda a fraqueza do meu corpo devastado, aquela voz transbordava um alívio tão absurdo, puro e absoluto que eclipsava qualquer dor física, fazendo a queimação gélida no meu pescoço parecer irrelevante.

Sustentei o olhar dele, cravando meus olhos no fundo daqueles abismos ônix que tanto balançavam a minha alma e desarmavam minhas certezas, oferecendo-lhe um traço sutil e sereno de sorriso no canto dos meus lábios manchados. — Não seja tão... irritante.

O peito de Sasuke deu um solavanco mudo e violento, um espasmo contido de quem lutava inutilmente para não desabar por completo. As pálpebras dele se fecharam com força, esmagando as lágrimas que ameaçavam vir à tona, enquanto ele sepultava o próprio rosto na curva do meu pescoço. Seus braços — quentes, trêmulos e desesperados — envolveram minha cintura e minhas costas com uma força cega e sufocante, colando nossos corpos num abraço visceral sem que restasse um único milímetro de espaço entre nós, como se temesse que, ao afrouxar o aperto por uma fração de segundo, eu me desdissesse em poeira e evaporasse para sempre nos seus braços.

A névoa esmeralda e o pilar de luz monumental que haviam rasgado o teto do santuário finalmente começavam a ceder, escorrendo pelos céus do deserto como fumaça sagrada. Mas a minha visão já não respondia direito. As bordas do meu campo de visão turvavam-se em um degradê escuro, e o mundo ao redor começou a desacelerar, perdendo a nitidez dos contornos sob o peso esmagador do meu próprio colapso.

Através do véu borrado das minhas pálpebras pesadas, vi o luar rasgar as frestas do teto colapsado. No topo da grande duna destruída, sombras vacilantes e passos apressados cortaram a claridade pálida. Os sons chegavam aos meus ouvidos abafados, como se estivessem submersos em uma água profunda e densa.

— Ali! Encontrei eles! — o eco do grito de Ino ressoou distante, destorcido pelo zumbido contínuo que travava minhas sêmporas.

Pisquei devagar, uma luta moribunda contra o torpor inevitável. Consegui vislumbrar apenas vultos desfocados: Kankuro, Sai e os mantos vermelhos da Guarda das Areias contornando a crista da rocha. Logo atrás, descendo em um movimento fluido, a silhueta de Gaara aterrissava sobre uma plataforma de areia suspensa. Os olhos de jade do Lorde do Deserto surgiram como dois pontos fixos de espanto, arregalados diante do cataclismo e da poeira cristalina que ainda flutuava no ar.

E, do lado oposto do teto destruído, atraído pelo pilar de luz e fumaça que rasgara o deserto — seguindo o rastro desde a arena do submundo —, um rastro de chamas rubras irrompeu na penumbra do céu noturno em um clarão abrasador. O impacto da aterrissagem de Naruto fez a borda da rocha estalar, levantando uma cortina de fagulhas douradas.

Através do véu turvo e pesado das minhas pálpebras, vi o Primeiro Príncipe do Sul erguer o rosto lentamente. Seus olhos azuis — agora desprovidos de qualquer traço daquele sarcasmo brincalhão ou das provocações da arena — varreram a cena com uma gravidade aterradora: a fenda aberta na rocha por onde Orochimaru havia acabado de escapar nas sombras, o sangue manchando a pedra e a figura de Sasuke ferido, apertando meu corpo desacordado contra o peito.

A compreensão de ter sido friamente manipulado como uma peça no tabuleiro do Imperador do Sul acendeu uma fúria sombria e definitiva no olhar de Naruto. Os nós de seus dedos estalaram quando ele fechou os punhos com violência, a aura de fogo abrasador ao seu redor expandindo-se num silvo quente que fez o ar tremeluzir.

— Chega de ser o joguete de um monstro... — a voz de Naruto ressoou fria, grave e carregada de uma autoridade perigosa, ecoando pelas paredes da cratera enquanto ele dava as costas definitivamente ao Sul, posicionando-se como uma barreira inexpugnável diante dos batedores remanescentes. — O jogo do Orochimaru acabou aqui.

Mas para Sasuke, nada disso importava. Ele não ergueu os olhos para os aliados que chegavam, para as frentes do exército ou para a rendição do Príncipe do Sul. O mundo ao nosso redor havia sido completamente reduzido a ruínas e silêncio — nada mais existia além do calor do meu corpo desfalecendo em seus braços.

— Não ouse fechar os olhos, Sakura... — a voz dele veio baixa, num sibilado rouco e desesperado contra a minha pele, uma ordem quebrada pelo pânico enquanto ele sentia a sustentação das minhas pernas ceder por completo e o calor da minha carne esvair-se sob seus dedos.

Mesmo com os sentidos se desfazendo em névoa, recostei a cabeça contra o seu peito. Afundei na cadência perfeita e ritmada daquele coração — a prova viva de que o Selo, os Harunos e a promessa daquele mundo eram reais. O som de uma batida cujo impacto e ausência eu jamais imaginara sentir tão fundo.

A minha visão apagou por completo e a escuridão final puxou a minha consciência para o fundo de um oceano sem fim. Desmoronei inteiramente desacordada nos braços do Uchiha, envolvida por uma paz serena e por uma felicidade silenciosa, enquanto o bater firme, forte e ressuscitado do coração de Sasuke nos embalava no centro das ruínas do mundo.

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