I do not think so...
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Chapitre 14 min de lecture

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\"\"Saí às pressas do trem e dirigi-me ao vagão mais próximo. Dava pra ver o sol se por perfeitamente da minha visão, mas eu tive de recusar isso. Olhei as placas dos trens e entrei no que mais me parecia descente. “Central-Sul” (nome fictício). Enfiei a mão nos bolsos e consegui três notas de dez. Bom, dava pra sobreviver. Entreguei para o homem que segurava uma alavanca e agradeci após receber o troco.

Sentei-me em uma das primeiras cadeiras e pus o violão entre as pernas. Observei uma de suas pestanas e a percebi estragada. Era o preço da minha jornada. Acabar aos poucos com meu violão. Mas, nada é para sempre. Eu só peço que dure mais um pouco. Talvez, durar o mesmo tanto que eu.

Acariciei suas cordas com os dedos e sussurrei um elogio como sempre faço quando estamos viajando e a apertei com força entre minhas pernas. Senti o chão tremer, o trem estava se locomovendo, óbvio.

Levei meus olhos para a janela e observei os detalhes. De metrô não se vê nada. De trem, eu me sinto mais a vontade. Eu sinto que não estou nem abaixo nem a cima de ninguém. E é assim que eu gosto de ficar. Eu gosto de ficar de boa, sabe? De boa!

Estiquei as pernas e as apoiei no banco à minha frente.

A viagem não foi curta. Muito pelo contrário. Quando saí do trem já era noite. Fui a última a descer e me dirigi direto à saída da estação. Mais uns quatros quarteirões e pronto.

Cheguei à praça central e admirei-a por uns instantes. Já era um dos meus lugares favoritos. Pessoas de bem, vendedores, trabalhadores, pássaros voando, nada de silêncio. Do jeito que eu gosto.

Sentei-me na ponta da fonte e tirei o chapéu da cabeça pondo-o no chão entre minhas pernas. Pus Mom sobre minhas pernas e chequei a afinação. Como sempre, perfeita.

Tirei umas quatro notas e toquei a primeira música que veio em minha cabeça. Minha própria adaptação de “Garota de Ipanema”. As pessoas adoram.

Como eu sempre digo, de grão em grão a galinha enche o papo. Tirei trinta reais hoje. Mas também, trabalhei o dia todo. Como eu disse, adoro esse lugar. E com Mom... É a combinação perfeita.

Comprei um cappuccino no coffe’s buttle e segui caminho para a estação sul. Chocolate sempre fora o meu sabor preferido, então tive que aproveitar e comer vagarosamente. Porque um desses só de ano em ano, senão a gente morre, né?

Adentrei O Half’s com a cabeça baixa e subi as escadas. Sempre apertando Mom contra mim. Abri a porta do quarto com dificuldade, porque a porta do quarto estava travada. Normal, coisa de gente pobre.

Acendi a luz e a esperei piscar duas vezes antes de tirar os sapatos. O quarto era pequeno, mas eu já estava acostumada. Tinha uma porta rangida com o trinco quebrado que me dava acesso à um chuveiro e um vaso sanitário. Sempre demais pra mim.

A cama não era nenhum luxo. Com uma das madeiras quebradas nunca me deu uma boa noite de sono. Pra falar a verdade, eu nem sei o que isso quer dizer. É o que eu preciso. Dormir, tomar banho, necessidades fisiológicas e só. A refeição do dia é só no final da noite.

É, eu tenho fome sim, mas é só pro que dar. E já é muito. Eu só tenho o que agradecer.

Apaguei a luz de joguei-me na cama. Como sempre ouvindo um rugido seu. Deixei um beijo em Mom e abracei-me.

– Boa noite!

Próximos capítulos:

" — É uma chance única!

– Uma chance que eu terei de dispensar.

– Você pode não encontrar outro lugar. Não é o seu sonho?

– É sim. E por isso eu não vou estragar ele!"

" — Você toca com a alma... É como se conversasse com o seu violão diretamente. Gosto disso!

– É o que eu sou!

– Então acho que gosto de você!"

" — É pegar ou largar!

– Eu pego!

– Tem certeza de que quer arcar com as responsábilidades?

– Certeza absoluta!

– Então nos vemos lá!"

" — Já pensou no que teria acontecido?

– Não...

– Eu penso todas as noites!"


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