I Never Told You
I Never Told You
Chapitre 115 min de lecture

Capítulo Único

Amy engoliu mais uma dose de whisky. Era a terceira naquela noite. Ainda não tinha sido o suficiente para esquecer todos os seus problemas como ela gostaria, mas ela ao menos já estava se sentindo mais... alegre, como dizem. Olhou em volta e viu várias pessoas na mesma situação que ela. Entravam no bar com as expressões faciais tristes, pediam bebidas fortes e saíam dali rindo à toa. Ela olhou novamente para o copo em sua frente, agora vazio.

Pediu a quarta dose de whisky e o barman a olhou com desdém.

–Tem certeza que você é maior de idade? – ele a perguntou, sabendo que a verdadeira resposta era negativa.

–É o que diz na minha identidade – ela respondeu secamente e apontou o copo para que ele colocasse mais bebida e assim ele fez, logo saindo dali e indo atender uma mesa.

Era mentira. Ela não era maior de idade, tinha 16 anos. Mas ah, quem nunca tomou um porre antes da maioridade?

Ela.

Era a primeira vez de Amy na bebida. Tinha provado algumas vezes, mas sempre foram doses leves, no máximo um gole da taça de champagne de sua mãe ou de seu padrasto. Nunca fora daquela maneira, em excesso. Mas era uma situação necessária.

–Ora, ora. Quem diria que eu encontraria Amy Raudenfeld, a menina mais certinha do McKinley, tomando whisky num bar desses? – uma voz de veludo falou por detrás dela, que virou-se para ver quem a reconhecera.

Era Karma Ashcroft. A menina mais popular do colégio e por quem Amy mantinha uma crush secreta.

Vendo que Amy não a estava respondendo, Karma sentou-se em silêncio ao lado dela. Pediu alguma bebida para o barman, a qual Amy não se deu o trabalho de ouvir qual era, já que estava muito ocupada se deixando hipnotizar pelos olhos verdes da ruiva ao seu lado.

–Não vai me dizer o que te trouxe aqui? – Karma perguntou, dando um gole na sua bebida, que só então Amy percebeu que era cerveja.

–Por que você não me conta primeiro? – ela devolveu a pergunta – Também estou curiosa para saber o que Karma Ashcroft faz bebendo suas mágoas num bar de quinta categoria...

–Problemas em casa – Karma respondeu, enquanto pegava a garrava de cerveja que o barman tinha abandonado na frente delas e servia seu copo, que já estava vazio — Meu pai viaja toda semana dizendo que é pelo trabalho e quando ele volta, discute com a minha mãe. Ela acha que ele tem uma amante...

–É complicado – Amy comentou, enquanto bebia.

–É – Karma sorriu tristemente – O pior problema é que eu sempre acabo no meio dessas brigas. Sabe, o fato de meu pai ter engravidado minha mãe cedo demais, sempre acaba pesando. Meu pai joga na cara dela que ela não se preveniu... Como se ela fosse a única culpada – bufou – Mas eu acabo me sentindo mal. Como se eu tivesse culpa de todas essas brigas e...

–Você não tem culpa – Amy falou e num ímpeto de coragem, colocou a mão nas costas dela, consolando-a – Meus pais também me tiveram cedo demais. Eu entendo como é sentir essa culpa, mas não tem nada a ver.

–É – Karma sorriu – Ok, agora é a sua vez. Por que você está se embebedando?

–Parece bem pior quando você fala a palavra “embebedando” – ela sorriu levemente – Ah, é complicado.

–Tudo bem, eu entendo – ela respondeu e continuou a encarando, esperando que ela se explicasse.

–N-Não é um assunto muito fácil de ser comentado e...

–É sexo? – Karma a interrompeu.

–Ahn? – os olhos de Amy se arregalaram.

–É sobre sexo? – Karma repetiu, dando um sorrisinho ao vê-la corando.

–Como você sabe? – ela admitiu.

–Somei dois mais dois. Notei você corando ao começar a falar. Foi o primeiro assunto constrangedor que passou pela minha cabeça.

–Ah... – ela respondeu, tentando não corar mais ainda – Enfim, é sobre isso sim.

–Você... Tá com algum problema? Algum namorado babaca te pressionando?

–Não, não – ela olhou envergonhada para o copo a sua frente, sem coragem de encarar Karma – Eu não tenho namorado. Homens meio que... não fazem meu tipo.

–Ah... – Karma falou, tentando não demonstrar a felicidade que sentiu ao constatar aquilo – Mas o que aconteceu então?

–Ah, sei lá, é coisa boba... Eu estava em casa com os meus amigos, o Shane e a Lauren. A gente começou a brincar daquele jogo da verdade e elas acabaram falando que já transaram. Eu não sabia, elas nunca falaram disso comigo...

–Então você está chateada por que seus amigos transaram... E você não? – Karma perguntou, tentando entender o que estava passando pela cabeça da loira.

–Não é isso – ela discordou – Eu não me importo em esperar a pessoa certa. Eu só acho que já deveria ter encontrado... E elas já terem feito só fez eu me sentir mais atrasada.

–Olha Amy... Eu falo por experiência própria: valorize a sua primeira vez. Ela vai ficar pra sempre na sua memória e por isso tem que ser especial.

–Experiência própria? – Rachel arqueou uma sobrancelha.

–É... A minha primeira vez não foi com uma pessoa muito legal.

–Foi com o Liam Booker, né?

–Que? – foi a vez de Karma arregalar os olhos – Como você sabe?

–Somei dois mais dois – ela falou usando o mesmo tom que Karma usara antes, fazendo-a rir — Foi o único cara que eu vi com você no colégio até hoje. E eu não gosto dele, por isso entendi a parte do “garoto não muito legal”.

–Ah – ele riu – Então você deve saber alguma coisa da história que ele espalhou depois...

–Não sei – ela a olhou.

–Ela espalhou pra todo mundo que eu era virgem. Obviamente ninguém sabia e foi meio humilhante na época, mas hoje vejo que eu não tinha nada pra me envergonhar... Só do fato de ter ficado com alguém como ele. Eu não pensei antes, só fiz tudo acreditando que eu ia esquecer logo... Mas eu não esqueci.

–É, esse foi realmente um bom conselho – Amy falou, pegando um gole da cerveja de Karma, que riu com o gesto da loira – Mas sei lá, no seu caso... Acho que se você transar com outra pessoa, talvez alguma pessoa que você goste... Você possa substituir a imagem da sua primeira vez com o Liam para a sua primeira vez com essa pessoa.

–É, acho que você tem razão – Karma sorriu e Amy começou a gargalhar do nada – Ué, o que aconteceu?

–É que é engraçado – Amy falou sorrindo para Karma – Nós. Nos vemos todos os dias na escola, nunca nos falamos e agora... estamos falando sobre sexo?

–E o que que tem? — Karma perguntou, apesar de estar sorrindo. Era muito bom ouvir a risada dela.

–Eu não falaria disso com qualquer pessoa – Amy falou e deu outro gole em sua bebida.

–Hmm, então eu sou especial? — Karma sorriu e ela se derreteu por dentro.

–Não se ache. Eu nem conheço você – a loira a empurrou de lado.

–Tudo bem então. Sou Karma – ela falou e a estendeu a mão.

–Amy – ela sorriu e a deu a mão, ao que Karma depositou um beijo na mesma, enquanto mantinha seus penetrantes olhos verdes em Amy.

–Quer mais uma dose? — Karma perguntou, sorrindo por tê-la feito corar.

–Acho melhor não. Já bebi demais por... uma vida.

–Só uma não vai fazer mal, vai? — Karma sorriu torto para ela – Na verdade, você nem precisa beber. Só fique mais um pouquinho aqui comigo, huh?

–Já que você implora – Amy falou com ar de superioridade fazendo Karma gargalhar.

____________________

Já passava de meia noite e tanto os pais de Amy como de Karma deviam estar loucos a procura delas. Mas elas não estavam se importando. Pelo contrário, depois de passarem duas horas conversando sobre tudo, onde Amy descobriu que Karma adorava jogar xadrez e só não entrava no clube da escola por medo de rejeição; e Karma descobriu que Amy amava cantar, mas tinha vergonha de entrar no Clube do Coral; Karma estava em cima do palco improvisado daquele bar, escolhendo músicas no karaoke.

–Vamos lá Ashcroft, escolha uma música logo! Quero ver se você canta bem ou se você estava só tentando me cantar! — Amy gritou da cadeira onde estava, totalmente alterada pelo efeito da bebida. Karma gargalhou, também totalmente bêbada, e escolheu a música. Olhou para Amy e começou a cantar:

“Straight out of the plane to a new hotel

Just touched down, you could never tell

Big house party with a crowded kitchen

People talk shit, but we don't listen”

Amy se surpreendeu com a voz potente de Karma. Ela nunca tinha ouvido uma voz assim e isso fez com que ela se remexesse na cadeira. Já era difícil gostar da Karma-Popular-Ashcroft. Mas conhecer a Karma por trás disso e gostar dela ainda mais estava sendo incrivelmente complicado. E estava cada vez mais difícil se controlar, principalmente por ela estar cantando e olhando diretamente pra Amy. Sem contar o sorrisinho idiota na cara dela. Ela com certeza sabia dos sentimentos que estava provocando em Amy. Mas uma coisa ainda a incomodava... se Karma tinha dormido com Liam, então ela era hétero? Mas por que ficava provocando Amy e cantando pra ela?

“Midnight memories, oh oh oh

Baby, you and me

Stumbling in the street

Singing, singing, singing, singing

Midnight memories, oh oh oh

Honey, where we go?

Never say no

Just do it, do it, do it, do it”

Karma finalizou a música e recebeu os aplausos das cinco pessoas ainda presentes no bar.

Amy pouco aplaudiu, estava ocupada encarando a ruiva. Ela não era de flertar assim com ninguém mas, bem, ela estava alterada com a bebida. Mais confiante, talvez. Porém, ficou nervosa no momento que viu que Karma estava voltando para perto dela, com aquele sorrisinho estampado na cara. Algumas coisas nem a bebida consegue alterar, então.

–E aí? — Karma virou a cadeira onde ela estava sentada e ficou parada na frente dela, deixando seus rostos a apenas a alguns centímetros de distância.

–Você é boa mesmo, não era uma cantada – Amy falou tímida, olhando para o copo que segurava.

–E quem disse que não era? — Karma falou, recebendo a atenção dela. Amy a encarou e viu que ela estava com os olhos fixos em seus lábios. Largou seu copo na mesa do bar no mesmo momento, o que foi entendido por Karma como um sinal de que Amy estava esperando que ela se aproximasse mais. A ruiva não pensou duas vezes e a puxou pela cintura, selando seus lábios.

Alguém subiu no palco para cantar no karaoke mas elas não faziam ideia de quem era. O celular de uma das duas insistia em vibrar no bolso delas, mas elas não tinham a mínima vontade de ver quem ligava. A única coisa que elas queriam era se perder mais ainda uma na outra. Elas tinham acabado de se conhecer, mas tinham uma sintonia tão grande que parecia que estavam juntas há anos.

Amy inclusive começou a se perguntar se Karma não seria a pessoa especial por quem ela estava esperando...

_____________________

Elas se separaram para recuperar o fôlego, mas Karma não deu nenhum sinal de que iria soltar da mão de Amy tão cedo.

–Eu estou de carro. Você quer ir pra casa? Está meio tarde – Karma perguntou, desesperadamente querendo que ela negasse.

–Não. Mas podemos dar uma volta de carro. Se você quiser, claro – Amy respondeu, sorrindo – Sabe o que eu adoro fazer?

–O que?

–Andar de carro pelas ruas nessa época do ano. Eu amo o Natal. Amo sair e ficar olhando a decoração nas ruas...

–Seu desejo é uma ordem, Raudenfeld – Karma sorriu, beijando Amy novamente. E, incrivelmente, foi até melhor do que a primeira vez.

Elas pagaram a conta no bar, que não foi barata, e saíram do lugar. O frio daquela época do ano logo tomou conta dos seus corpos.

–Aqui, pegue meu casaco – Amy falou, depositando a jaqueta de couro que usava nos ombros de Karma, enquanto andavam até onde o carro estava estacionado.

–Eu não acredito que vim com esse vestido – Karma falou – É muito curto e está frio.

–É curto mesmo, mas eu é que não vou reclamar – Amy falou com um sorriso travesso e Karma gargalhou, a empurrando logo em seguida. Elas chegaram no carro e Karma foi abrir a porta para Amy. Se surpreendeu ao que Amy virou-se e a beijou, antes que ela pudesse abrir a porta. Karma a encostou no carro, não parando o beijo nem por um segundo.

E assim, o frio do corpo delas foi totalmente embora. E elas estavam até com um pouco de calor...

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–Olha aquela casa! Colocaram até renas e o trenó do Papai Noel na decoração, é tão fofo — Amy gritou fazendo Karma gargalhar com a euforia da garota, que ainda estava sob o efeito da bebida.

–É linda mesmo – Karma respondeu – O que acha de irmos ver a árvore decorada no centro da cidade?

–Mas não vai demorar?

–Não muito. Eu conheço uns atalhos. Além disso tá tarde, mal tem carro na rua – Karma falou, concentrado na estrada – Você que sabe. Ou já quer se livrar de mim?

Karma não obteve resposta e olhou para Amy para ver o que tinha acontecido. Viu que ela estava concentrada, digitando no seu celular.

–O que está fazendo aí? – a ruiva perguntou, tentando esconder o ciúme. Ela tinha dito que não tinha namorado, mas e se tivesse uma namorada ou algo do tipo?

–Respondendo minha mãe. Por culpa sua, eu deixei ela no vácuo – Amy respondeu, enquanto colocava o celular no bolso novamente – Falei pra ela que eu estava com uma amiga e que não voltaria tão cedo.

Karma estacionou o carro e se aproximou de Amy, fazendo o coração dela bater mais forte novamente.

–Amiga, é? – a ruiva sussurrou no ouvido da loira, sorrindo ao ver que ela tinha se arrepiado.

–Estou errada? — Amy perguntou no mesmo tom, sorrindo também ao ver que tinha causado a mesma reação em Karma – Essa é a rua que dá pro centro, né? Vamos a pé?

Dizendo isso, ela abriu a porta do carro e saiu, ato que Karma executou no segundo seguinte.

–Por que você parou o seu carro tão longe? — Amy perguntou para Karma, enquanto elas andavam.

–Porque eles não permitem que pare o carro muito perto da árvore. No dia do Natal isso aqui fica cheio de gente, daí os guardas mandam estacionar lá longe.

Elas continuaram a andar até que chegaram na gigante árvore de Natal. Eram exatas 3h da manhã e o lugar, que sempre estava tão cheio de gente, estava completamente vazio. Karma e Amy até puderam sentar-se em um dos bancos do lugar.

–Eu estou um pouco preocupada – Amy falou, depois de uns minutos de silêncio.

–Com o que?

–Eu nunca bebi tanto na vida! — ela gritou de um jeito engraçado e Karma gargalhou – Como eu vou acordar amanhã?

–Provavelmente morrendo de dor de cabeça – Karma falou – E um pouco tonta. Mas com uma lembrança de uma noite legal, né?

–Uma noite maravilhosa – Amy respondeu, a encarando e logo elas já estavam se beijando novamente, mas com muita mais vontade do que antes. Karma a deitou no banco da praça e elas continuaram se beijando e aproveitando o momento. Ambas só conseguiam pensar que, em circunstâncias normais, não estariam fazendo aquilo. Estariam morrendo de vergonha. Porém, não eram circunstâncias normais.

–Karma? — Amy falou, enquanto elas voltavam para o carro.

–Sim? — Karma perguntou, abrindo a porta para Amy, que sorriu com o gesto.

–Você me leva pra...

–Pra sua casa? – a ruiva a interrompeu – Claro que sim, Amy.

–Tudo bem – ela sorriu fraco, claramente sem coragem de falar o que ia dizer e entrou no carro logo em seguida, ficando calada o resto do trajeto.

________________

–Chegamos – Karma sorriu para Amy e Amy sorriu de volta para ela, mas a ruiva podia dizer pela expressão da loira que ela não estava bem – Aconteceu alguma coisa?

–Hã? — Amy tentou disfarçar.

–Você estava bem e do nada ficou com uma cara estranha, me respondendo por monossílabos e...

–É que estou com medo de você me achar uma vadia – a loira falou encarando o chão do carro.

–Vadia? — Karma arqueou uma sobrancelha – Amy, eu jamais acharia isso de você. Por que você pensou isso?

–Porque eu quero te convidar pra entrar, Karma – Amy a encarou.

–Oh... – a ruiva de repente ficou tão nervosa, que não encontrava palavras para dizer – Oh! Você quer que eu... Que eu durma com você?

–Eu queria. Mas acho que foi uma bobeira minha... Você é hétero e eu sei que só ficou comigo por diversão ou por efeito da bebida. E eu entendo que você só vai querer ser minha amiga e...

–Eu não quero ser uma amiga. Eu quero ser mais.

–Sério? — ela olhou em seus olhos, com um sorriso querendo brotar em seus lábios – Mas você não é hétero?

–Eu tinha minhas dúvidas. Achei que era bissexual. Mas hoje, com você, tive certeza de que sou lésbica – Karma sorriu e beijou Amy apaixonadamente – Mas você tem certeza que quer que eu entre, amor? Eu posso esperar, sério. Eu espero por você.

–Eu quero, amor – Amy sorriu ao pronunciar a palavra “amor” – Eu tenho certeza.

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–Foi tão especial quanto você queria? — Karma sussurrou, enquanto Amy estava deitada do seu lado, acariciando suas costas.

–Bem mais do que eu esperava – Amy sussurrou – Eu já ouvi tantas histórias de primeiras vezes que foram horríveis, desastradas e...

–Já entendi – Karma a interrompeu – E por isso você ficou achando que seria ruim com a gente.

–Em momento algum achei que fosse ser ruim. Só não achei que seria tão bom – Amy a encarou sob a luz da lua que vinha da janela aberta na frente deles. Ela era tão linda... — Eu te amo, Karma.

–Eu também te amo, Amy.

E as duas adormeceram abraçadas, felizes por saber que o vazio que preenchia a vida de ambas tinha sido preenchido.

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