Haunted
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Chapter 17 min read

Oneshot

Em um repente, o choque substituiu o meio sorriso amoroso em seu rosto. Quando percebera que os dois se cruzariam no corredor pela primeira vez desde sua "conversa", deixou que a alegria o tomasse antes mesmo de ver o desfecho da cena. César ainda não enxergava bem, mas provou distinguir vultos e luzes, contribuindo para o horror do cenário.
Um par de semanas se passara desde o dia em que se mudaram de vez para a casa de praia, foram meses de pesquisa atrás de uma escola para as crianças, de tentativas inúteis de persuadir Niko de que Fabrício ainda lhe parecia pequeno demais para uma creche, e de busca por um ponto adequado para o novo restaurante. A ideia sempre fora levar César, que mais que nunca precisava de cuidados, para um lugar mais calmo. A praia, além de viável, seria um ambiente ótimo não só para seu pai, como também para o resto de sua família. A calmaria, entretanto, nunca viera.
O barulho das ondas batendo parecia constantemente abafado pelos insultos diários que recebia. E raramente conseguia ouvir os pássaros cantar uma vez que pensamentos formavam um só ruído, profundo e aterrorizante.
Ainda mais duro era, mesmo sabendo o quanto significaria para Niko, ter de interceptar todos os convites para que seu César se sentasse à mesa de jantar. "A comida cai por todos os lados, ele ainda sente vergonha" Félix jogava uma meia-verdade, sentindo a culpa obstruir sua garganta. Sim, a comida realmente caía, mas isso não era resultado do tremor das mãos de César — ele ainda dependia do filho para levar o garfo a boca, e sim das suas próprias, que balançavam a cada xingamento. Por mais cortantes que fossem aquelas palavras, preferia suportá-las sozinho. Tinha noção de que por mais incapacitado que estivesse, César não perderia a chance de importunar seu companheiro. Era seu papel protegê-lo de tal exposição.
Enquanto o chão sumia debaixo de seus pés, a compreensão de que seus esforços para proteger Niko foram em vão era captada. Com os olhos baixos, ele fechou a porta do quarto de César e, limpando o rosto, passou por Félix com um pedido de licença sussurrado e um leve empurrão para o lado. De tão incrédulo, Félix não conseguiu reagir por uma fração de segundo, e quando buscou o braço de Niko, ele já não estava mais lá.
Parou um instante antes de alcançar a maçaneta do quarto do pai. De que adiantaria? Ao entrar, só o veria rir e ladrar, nunca conseguiria estabelecer um conversa. Por esse motivo, decidiu lidar com as feridas antes de buscar cura para a causa. Girou em seus calcanhares e foi até o quarto que dividia com Niko, onde ouvira uma porta bater.
Levou os nós dos dedos a porta do banheiro da suíte, e ouviu as batidas ressonarem pelo quarto. O silêncio era preenchido por um soluçar leve vindo de do outro lado da madeira. Ele chamou uma, duas vezes, até que ouviu a porta destrancar e Niko atravessou o quarto como um raio.
Ficaram ali, em silêncio, simplesmente porque não havia o que dizer. A culpa, novamente, o tomava, mas dessa vez vinha de mãos dadas com outro sentimento que ele não conseguiria descrever. Uma mistura de mágoa, pena e identificação que poderia jurar ter se materializado e o empurrado atrás do companheiro, fazendo com que lançasse seus braços ao redor dele.
"Niko, eu... Eu sinto muito, eu..." ele o abraçou com mais força e entrerrou o rosto em seu ombro.
Em meio a palavras que, fosse pelo seu estado ou pela incapacidade de processar qualquer coisa de Félix, soavam desconexas, Niko se virou e se deixou ser aninhado em seu abraço.
Os minutos seguintes pareceram horas até que ambos finalmente se acalmaram e, o que antes eram tremores e soluços, se transformou em um balanço suave como uma cantiga de ninar.
"Como você conseguiu?" sua voz chegou abafada aos ouvidos de Félix "Quer dizer, sobreviver a isso sem... surtar?"
"Sem surtar? SEM surtar?" soltou uma gargalhada, balançando a cabeça diante de tal absurdo.
Ao afastar-se um pouco, tomou o rosto de Niko entre suas palmas. Em seus olhos, quase podia ver se formar a cena anterior. O jeito que César o encarara com desprezo e que cuspira em seu rosto, tudo dentro daquelas duas janelinhas que retratavam mesmo sem querer o quanto aquilo o machucara.
"Ai, Félix..." Niko escorregou as mãos até o seu peito, sentindo os seus batimentos através da camisa "Quantas vezes você esteve aqui, desse lado da história?"
E foi então que Félix percebeu que não era consigo que Niko se preocupava. Na verdade, era com ele. Quantas vezes, ele perguntara. E num flash vieram à cabeça todas aquelas de que ele conseguia se lembrar. O deboche, as insinuações, e mesmo as agressões foram pintadas na parte de trás de sua cabeça. Com um suspiro, ele tentou sufocar as lembranças. A bondade de Niko o irritava. Não. O que o irritava era sua capacidade de trazer a tona o seu lado mais sensível, aquele que tentava esconder a qualquer custo.
Deixou, então, de segurar Niko. Passou a mão pelo próprio rosto, talvez com um pouco mais de força do que deveria, deixando a pele irritada, numa tentativa inconsciente de fazer seus olhos parecerem menos vermelhos. Podia ver seus sonhos desmoronando a sua frente, sua família se desconstruindo, seu tempo escorrendo por entre os dedos. Sempre insuficiente. Por quanto tempo Niko ainda aguentaria esse suplício? Aquele fora o primeiro desacato mas não o último.
"Ei, ei! Para com isso" o tom carinhoso fez com que ele abrisse os olhos "Para!"
"Parar com o que, Niko?" desvencilhando seus punhos que haviam sido agarrados e tirados de seu rosto, deu alguns passos para trás "Você quer que eu pare? Que eu aplauda enquanto você passa pelas mesmas coisas que eu passei? Quanto tempo você vai aguentar? Quanto tempo? Me diz, Niko, até quando você va-"
Ele se calou assim que sentiu os lábios dele contra os seus, os braços ao redor do seu pescoço. Não, não, não, foco. Foco,sua cabeça repetia enquanto tentava se soltar. Por uma questão muito mais de força de vontade do que de força física, acabou desistindo.
"Você é mesmo muito bobo" Niko riu sua expressão confusa, tomando suas mãos entre as suas "Acha mesmo que eu te largaria por causa do seu pai?"
"Não. Não, Carneirinho, eu... É só que eu já me senti dessa forma. Rejeitado" Félix levantou o rosto como se quisesse fazer as lágrimas voltarem para o lugar de que tinham vindo "E eu teria feito, eu fiz, qualquer coisa para sair daí."
"Félix, quando eu decidi ficar com você" Niko abaixou seu rosto, fazendo com que seus olhos se encontrassem "Eu decidi ficar com os seus problemas também."
Aquilo o fez querer gritar. Devia tê-lo defendido, ter ao menos falado coisa que fosse a César, mas não era capaz. Ainda se sentia um menino, um menino com medo do pai.
"Shhhh" Félix já notara que Niko parecia ler sua mente, ele sabia que seus momentos de introspecção, o olhar perdido, a inércia, estavam ligados aos fantasmas que ainda o rondavam "E com os seus defeitos. Eu amo os seus defeitos."
Acordado de um transe, virou-se de volta para ele. Porém, ao fitá-lo dessa vez, não via em suas íris verdes algo tenebroso. O reflexo que enxergava era o de uma família, a família deles, de reconstruindo.

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