First date
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Chapitre 16 min de lecture

Capítulo 1

Para seus pais ela estava no shopping, assistindo Eclipse com suas amigas.

Na verdade, ela não se sentia muito culpada.

\"Ora essa, que tipo de pai não conhece a própia filha?\" dizia pro seu reflexo, logo em seguida guardando o espelho dentro da bolsinha que carregava.

Qualquer outro saberia, Kelly odiava vampiros — de Drácula à Edward, incluindo o do sotão dos Weasley.

Esperava por Julio.

Julio era um rapaz de... quantos anos ele disse ter? Não se lembrava, mas era algo em torno de 20 anos. Kelly o havia conhecido pela internet. Se falavam a pouco mais de dois meses, mas foi o suficiente para a menina — no inicio de puberdade, com seus quase-completos 10 anos — se sentir atraída o bastante para um encontro.

Não haviam se passado nem quinze minutos, e ela voltou a retirar o espelho da bolsinha, arrumar a franja negra, lambuzar os lábios de gloss, e voltar a guardar tudo, deixando a bolsa em seu colo. Não costumava ser assim tão vaidosa, na verdade, era uma jovem um tanto quanto desleixada.

Ela olhou ansiosa para os lados. \"Será que ele vai me reconhecer? A praça de alimentação daqui é muito cheia, eu deveria ter escolhido um lugar menos...\"

— Kelly?

Saltou na cadeira e virou-se rapidamente, encarando o dono da voz. Ele era muito mais velho do que ela imaginara — e não era tão bonito quanto, o que não significa que era feio.

Havia ali um homem magro, porém baixinho, quase nos seus 30 anos, de cabelos curtos e castanhos, com olhos em um tom mais claro da mesma cor. Ele deu a volta a mesa e sentou-se em frente à criança de cabelos lisos.

Kelly deu um pequeno sorriso, meio nervoso. Ficaram os dois em silêncio por alguns segundos, então o homem riu.

— O que é? Você não é tão tímida assim no msn.

Ela abriu a boca para responder algo, mas não sabia o que dizer. Então, voltou a encarar a mesa.

— Tudo bem, na internet é outra coisa, não é? Então vamos fingir que nunca nos falamos. Olá, menininha, me chamo Julio.

— Hm.. oi... eu me chamo Kelly.

Ele deu mais uma risada.

— Ótimo, ótimo mesmo. Vamos ver, você quer comer algo?

— Ah, sim, pode ser!

— O que? McDonalds?

Kelly voltou a abrir a boca e quase, quase, respondeu \"sim\". Por sorte, ela conseguiu raciocinar antes de fazer algum som.

McDonald?

Ora, é claro que não. Almoçar hamburguer e se animar com a surpresinha que vinha no McLanche feliz, isso era algo muito além da idade dela. Que coisa mais infantil.

— Não.

— Não? Certo, e o que você quer comer?

Ela percorreu a praça com o olhar, parou um segundo nos brinquedinhos dos Kits Infantis, e voltou a procurar por algo mais adulto. Nem mesmo notou quando Julio se levantou e pediu sanduiches para os dois — ela olhou encabulada para o pônei rosa dentro do plástico, jogado ao lado das batatas fritas na bandeja, quando ele chegou.

— Você tinha me contado que fazia coleção.

— Ah! Eu.. tinha...? — ela sentiu suas bochechas corarem. Porque havia contado algo tão bobo para ele? Ele devia estar achando-a tão besta e infantil, agora!

— Era o rosa que faltava?

— É...

Ele sorriu.

— Eu nunca consegui fazer coleção alguma. Nem mesmo álbum de figurinhas eu conseguia completar. — comentou em tom risonho.

— Eu tenho vários álbuns completos!

— É mesmo? Então é uma colecionadora de coisas?

— Eh.. eu acho coleções divertidas...

— Sim, sim, elas são.

Eles continuaram a conversar. Nem viram a hora passando.

Comeram, foram ao cinema, Playland, deram uma volta pelo shopping. Ela estava muito feliz por ter enganado seus pais. Nunca se divertira tanto na vida. Já conversavam sobre todo o assunto, como faziam no msn.

Julio até comprou uma pelúcia de ursinho para ela!

Se perguntassem, ela diria que estava completamente apaixonada. E daí que ele era quase 20 anos mais velho?

— Ah, Papai, não posso ficar mais um pouco? — choramingou a criança no telefone. -- okay.. okay... às sete e meia? Mas já são sete e 20! ...Tááá, papai.

Desligou, um pouco irritada. \"Como são chatos!\"

— Então já vai embora?

— Não, eu tenho mais dez minutos!

Ele riu.

— Dez minutos? Bem, e o que você quer fazer em dez minutos?

Kelly não precisou pensar muito.

Não dá para fazer nada em dez minutos.

— Então, eu vou agora. Suponho que não quer que eles me vejam.

— É... na verdade não...

Ele afagou os cabelos dela e saiu andando, com um aceno.

Como se ela fosse uma criança.

Ia ser só isso? Esse era o fim do seu primeiro encontro?

Julio se despedindo dela, como se fosse uma irmãzinha?

Não.

— Ei! Ei! Espera! — Kelly correu e puxou as costas do casaco de Julio — Espera...

Ele a olhou.

— Sim?

— Hum.. eu... se abaixe!

O homem ficou de joelhos, seus olhos na altura do nariz dela.

— E... e feche os olhos! — pediu Kelly em um tom mandão, agora vermelha.

Mais uma vez ele a obedeceu.

Completamente tímida, inocente e sem jeito, ela segurou o rosto dele e o beijou, e ele correspondeu. Seu primeiro beijo. Ela apenas o largou quando o celular em sua bolsa começou a vibrar.

— Julio... hum... tchau... — estava tão corada que até os cabelos pareciam ter ganhado um tom avermelhado. — É, tchau.

— Até mais, Kelly — ele se pos de pé. — Até a próxima.

\"Até a próxima...\"

Isso significa que teriam outros encontros.

Ela pareceu radiante com essas palavras, e saiu correndo em direção a garagem.

E de costas, não pode ver o sorriso maldoso do mais velho.

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