Entre o Dever e o Desejo
Entre o Dever e o Desejo
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O que não estava nos planos

O que não estava nos planos

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Às 6h da manhã, Clarke Griffin já havia tomado dois cafés, discutido com um residente que confundira a artéria hepática com a veia porta e salvado a vida de um homem de cinquenta e três anos que chegara ao pronto-socorro com uma hemorragia abdominal devastadora. Era uma terça-feira comum.

Ou, pelo menos, teria sido, se alguém não tivesse decidido convocar uma reunião extraordinária com todos os chefes de departamento às sete da manhã. Clarke descobrira a notícia quando ainda estava com as mãos dentro da cavidade abdominal do paciente.

— Uma reunião? — repetira, olhando para o anestesista por cima da máscara. — Às sete?

— Ordem da diretoria.

— A diretoria pode operar esse homem no meu lugar?

— Acho que não.

— Então diga à diretoria que estou ocupada.

O anestesista riu e Clarke voltou a se concentrar na cirurgia.

Aos trints anos, ela era a chefe de cirurgia geral do Hospital Polis Medical Center, a unidade mais prestigiada da rede Heda Health. Tinha conquistado o cargo após anos de trabalho, incontáveis plantões, uma residência que quase a destruíra e uma reputação que fazia médicos experientes ficarem em silêncio quando ela entrava na sala. Era brilhante. Era exigente. Era conhecida por nunca abandonar um paciente.

E tinha uma paciência absolutamente inexistente para executivos que acreditavam que hospitais funcionavam como planilhas. O problema era que, naquela manhã, o executivo em questão não era apenas mais um diretor.

Era a dona de tudo.

Após horas a fio em pé, Clarke finalmente saiu do centro cirúrgico. Estava cansada, com uma marca vermelha atravessando a testa por causa da touca e uma pequena mancha de sangue no punho do pijama cirúrgico. Entregou o prontuário à enfermeira responsável e recebeu a notícia de que a reunião ainda estava acontecendo.

— Que ótimo — murmurou. — Talvez eu consiga chegar a tempo da reunião das sete de amanhã.

Ela atravessou o corredor, pegou um copo de café na copa médica e entrou na sala de reuniões sem bater. Havia doze pessoas sentadas ao redor de uma mesa de vidro. Diretores financeiros, coordenadores administrativos, o diretor clínico, a responsável pelos recursos humanos, e na cadeira principal, uma mulher que Clarke nunca tinha visto pessoalmente.

Cabelos castanhos escuros presos em um coque elegante, terno preto perfeitamente ajustado. relógio discreto. Uma postura tão tranquila que parecia impossível imaginar aquela mulher levantando a voz. Ela folheava um relatório enquanto todos os outros esperavam. Clarke entrou, puxou uma cadeira vazia e se sentou.

— Desculpem o atraso. Estava tentando manter um paciente vivo.

O silêncio foi imediato e a mulher de preto ergueu os olhos.

Verdes.

Clarke percebeu duas coisas naquele instante:

A primeira: a desconhecida era extraordinariamente bonita.

A segunda: tinha o tipo de olhar que provavelmente fazia pessoas assinarem contratos sem ler as letras miúdas.

— Doutora Griffin? — perguntou ela.

A voz era baixa, firme e levemente rouca.

— Depende. Se isso for sobre a reunião, sim. Se for sobre os relatórios de produtividade, eu gostaria de consultar meu advogado.

Alguém tossiu para esconder uma risada.

A mulher fechou a pasta.

— Lexa Woods. Presidente executiva da Heda Health.

Clarke parou com o copo a meio caminho da boca.

Ah.

Ah, não.

Aquela era Lexa Woods.

A mulher que havia herdado a participação majoritária da rede hospitalar da família aos vinte e seis anos e transformado uma empresa regional em um dos maiores grupos de saúde do país. A mulher que aparecia em revistas de negócios, recusava entrevistas pessoais e tinha fama de demitir diretores durante reuniões de quinze minutos.

A mulher que, aparentemente, tinha decidido que o melhor uso de uma manhã de terça-feira era interromper uma cirurgiã no meio de um plantão.

Clarke engoliu o café.

— Certo. Parabéns por sua ascensão à liderança. Creio que não teremos reuniões nesse horário diarimente, certo?

O diretor clínico fechou os olhos, como se estivesse rezando por ela. Lexa, entretanto, não pareceu ofendida, pelo contrário. O canto de sua boca se ergueu.

— Obrigada, doutora Griffin. Está confortável aqui?

Clarke olhou para a cadeira. Depois para Lexa.

— Na cadeira? Sim. Na reunião? Ainda estou avaliando.

Dessa vez, alguém realmente riu. Lexa apoiou os antebraços sobre a mesa.

— Gosto de pessoas sinceras.

— Ótimo. Então vai gostar de saber que esta reunião está prejudicando o funcionamento do meu departamento.

— Seu departamento?

— Cirurgia geral. Aquele lugar onde realizamos cirurgias. Geralmente com pacientes envolvidos.

Os olhos de Lexa brilharam. Clarke deveria ter parado por ali. Deveria ter percebido que desafiar a presidente executiva de uma companhia hospitalar na frente de toda a diretoria talvez não fosse a decisão profissional mais inteligente de sua carreira. Mas Clarke estava cansada e Lexa estava sendo irritantemente bonita.

Uma combinação perigosa.

— Muito bem — disse Lexa, surpreendendo a todos. — Vamos falar de cirurgia geral.

Ela deslizou uma folha pela mesa.

— Os dados do último trimestre indicam um aumento no tempo médio de internação, uma redução no número de procedimentos eletivos e custos acima do orçamento previsto.

Clarke nem sequer olhou para o documento.

— Contratamos três residentes a menos do que o necessário, estamos trabalhando com dois equipamentos de laparoscopia que deveriam ter sido substituídos há seis meses e nossa escala de enfermagem está incompleta. Quer que eu reduza o tempo de internação ou quer que eu opere os pacientes com poderes sobrenaturais?

O diretor financeiro ficou vermelho.

Lexa permaneceu imóvel.

— Você está dizendo que o problema é falta de recursos?

— Estou dizendo que o problema é fingir que a medicina funciona como uma linha de montagem.

— E se eu lhe der os recursos que está pedindo?

A pergunta fez Clarke finalmente olhar para o relatório. Havia três páginas de solicitações pendentes anexadas a ele, as suas solicitações. Todas rejeitadas nos últimos quatro meses.

Ela ergueu os olhos devagar.

— Eu diria obrigada.

— Só isso?

— Eu também recomendaria que a senhora contratasse alguém para explicar seus próprios relatórios antes de usá-los para constranger médicos em público.

O diretor clínico murmurou:

— Meu Deus.

Lexa, no entanto, sorriu. Não foi um sorriso grande, não foi sequer um sorriso particularmente amigável. Foi apenas uma mudança quase imperceptível na expressão, como se Clarke tivesse acabado de fazer algo que ninguém naquela sala fazia havia muito tempo.

Tê-la surpreendido.

— Solicitações aprovadas — disse Lexa, virando-se para a diretora administrativa. — Quero um plano de contratação até sexta-feira e a substituição dos equipamentos prioritários iniciada ainda este mês.

Clarke piscou.

— Sério?

— Você parece confusa.

— Estou tentando descobrir se bati a cabeça durante a cirurgia.

— Se tivesse batido, espero que tivesse procurado atendimento.

Clarke soltou uma risada antes de conseguir se impedir. Foi uma risada breve. verdadeira. E Lexa olhou para ela por um segundo a mais do que deveria.

A reunião prosseguiu, mas algo havia mudado. Lexa fez perguntas, Clarke respondeu. Discordaram sobre orçamento, contratação e a expansão de um novo centro cirúrgico. Nenhuma das duas recuou facilmente e quando a reunião terminou, Lexa já sabia três coisas sobre Clarke Griffin:

Ela era brilhante.

Não tinha medo dela.

E tinha uma pequena covinha na bochecha esquerda quando ria.

A terceira informação parecia absolutamente inútil. Lexa a guardou mesmo assim.

— Doutora Griffin.

Clarke estava quase chegando ao elevador quando ouviu a voz atrás de si.

Lexa caminhava em sua direção com a pasta de couro presa sob o braço. De perto, parecia ainda mais alta. Ou talvez fosse apenas a maneira como ocupava o espaço sem precisar fazer esforço.

— Senhora Woods.

— Lexa, por favor.

Clarke arqueou uma sobrancelha.

— Isso é um teste?

— Um teste?

— Para ver se eu digo alguma coisa inadequada antes das nove da manhã.

— E você acha que precisa de incentivo para isso?

Clarke sorriu. Lexa precisou fazer um esforço bastante específico para não olhar para a boca dela.

Não conseguiu evitar por completo.

— Queria agradecer pela sua franqueza — disse a executiva. — Nem sempre recebo informações tão diretas sobre o que acontece dentro dos hospitais.

— Talvez porque as pessoas tenham medo de perder o emprego.

A expressão de Lexa se tornou mais séria.

— Não quero que meus funcionários tenham medo de me dizer a verdade.

— Então talvez devesse começar ouvindo quando dizem que precisam de mais profissionais.

— Justo.

Clarke pareceu desconfiada.

— Você concorda comigo com frequência ou isso também é um teste?

— Estou começando a suspeitar que você faz perguntas demais.

— É um dos requisitos da minha profissão.

O elevador chegou.

As portas se abriram, mas nenhuma das duas entrou imediatamente. Por um momento, o corredor pareceu quieto demais. Lexa olhou para a identificação presa ao bolso de Clarke.

Dra. Clarke Griffin — Chefe de Cirurgia Geral.

— Você sempre fala assim com as pessoas que controlam seu orçamento?

— Só com as que aparecem sem avisar e marcam reuniões durante minhas cirurgias.

— Vou tentar me lembrar disso.

— Agradeço.

Clarke entrou no elevador.

Antes que as portas se fechassem, olhou novamente para Lexa.

— E, Lexa?

A executiva ergueu o rosto, era a primeira vez que Clarke pronunciava seu nome. Ela não deveria ter sentido nada de especial.

Sentiu.

— Obrigada por aprovar os equipamentos.

O sorriso de Lexa foi pequeno, mas dessa vez chegou aos olhos.

— Cuide bem dos seus pacientes, doutora Griffin.

— É o plano.

As portas se fecharam.

Lexa ficou sozinha no corredor por alguns segundos. Então olhou para a diretora administrativa, que havia parado ao lado dela com uma expressão curiosa.

— Algum problema? — perguntou Lexa.

— Nenhum, senhora.

— Ótimo.

A diretora hesitou.

— A doutora Griffin é sempre assim.

Lexa ajeitou o punho do blazer.

— Assim como?

— A senhora sabe.

Lexa voltou a caminhar.

— Não. Acho que gostaria de ouvir.

A diretora a acompanhou, mas não respondeu imediatamente. E Lexa percebeu, com uma sensação que não sentia havia anos, que estava ansiosa para descobrir mais sobre.

Naquela noite, Clarke chegou ao apartamento, tirou os sapatos na entrada, jogou a bolsa sobre o sofá e se deixou cair ao lado dela.

Raven Reyes, sua melhor amiga e engenheira biomédica do hospital, estava sentada no balcão da cozinha comendo cereal diretamente da caixa.

— Você está com cara de quem matou alguém.

— Ainda não.

— Ah, Então o dia foi bom.

Clarke pegou uma almofada e a apertou contra o rosto.

— A presidente da Heda Health apareceu na reunião dos chefes de departamento.

Raven parou de mastigar.

— Lexa Woods?

Clarke retirou a almofada lentamente.

— Você conhece outra presidente bilionária chamada Lexa Woods?

— Eu conheço uma Lexa Woods que está na capa da revista Forbes e outra que apareceu numa matéria sobre as empresárias mais bonitas do mundo. Qual das duas você conheceu?

— Raven.

— O quê?

— Ela é minha chefe.

— Tecnicamente, ela é chefe da sua chefe, que é chefe do seu chefe...

— Eu vou jogar você pela janela.

Raven sorriu.

— Então ela é bonita pessoalmente?

Clarke ficou em silêncio.

Um segundo.

Dois.

Raven abriu a boca.

— NÃO ACREDITO.

— Não começa.

— Você está com uma queda pela sua chefe!

— Eu a conheci há doze horas!

— E já sabe que ela é bonita e ficando vermelha só de mencionar que a conheceu. Estamos progredindo.

— Isso não significa nada.

Raven colocou a caixa de cereal sobre o balcão e a encarou com uma seriedade teatral.

— Clarke, querida, você passou os últimos três anos dizendo que não tem tempo para relacionamentos, recusou um anestesista porque ele usou a palavra sinergia num encontro e você terminou com uma mulher porque ela perguntou se você poderia trocar seu plantão para ir a um brunch.

— Ela queria que eu faltasse ao trabalho por causa de ovos Benedict.

— Exatamente. E agora você está falando da Lexa Woods como se estivesse descrevendo uma experiência religiosa.

Clarke jogou a almofada nela.

— Só estou dizendo que quero conhecer essa mulher.

— Você não vai conhecê-la.

— Posso me candidatar a uma vaga na diretoria.

— Você é engenheira biomédica.

— Tenho habilidades transferíveis.

Clarke tentou manter a expressão séria e falhou. As duas riram até Clarke precisar se curvar para recuperar o fôlego.

Porém mais tarde quando foi para a cama e o apartamento finalmente ficou silencioso, ela se lembrou dos olhos verdes de Lexa. Da maneira como a ouvira sem tentar interrompê-la. Do sorriso discreto. E da voz dizendo: Cuide bem dos seus pacientes.

Clarke virou para o outro lado.

— Absolutamente não, não pense nisso — murmurou para o travesseiro.

Não estava interessada na presidente da companhia, não estava interessada na mulher mais bonita que havia conhecido nos últimos anos e a primeira a despertar um interesse tão rápido e genuíno assim.

E definitivamente não estava interessada em descobrir se aquele sorriso surgia com frequência ou se ela tinha sido a única pessoa a recebê-lo naquela manhã.

O celular vibrou na mesa de cabeceira. Uma notificação do sistema interno do hospital.

De: Escritório da Presidência Executiva

Prezada Dra. Griffin, a Sra. Woods solicita sua presença em uma reunião individual amanhã, às 8h30, para discutir os planos de expansão do centro cirúrgico.

Clarke encarou a tela.

Depois deixou o celular cair sobre o colchão.

— Eu vou pedir demissão.

Pegou o telefone novamente. Leu a mensagem uma segunda vez.

E, contra todo o bom senso que havia guiado sua carreira até aquele momento, sorriu.