Kala encontrava-se num dilema. Encarou-se no espelho e procurou por aquele homem de olhos azuis e cabelos loiros, de expressão normalmente séria que havia se desfeito num sorriso sincero e cheio de alegria quando, de alguma forma, cantaram aquela música juntos. Ela sabia que era impossível, mas o vira ali, assim como se viu diante de uma audiência levemente alterada de álcool que cantava enrolada o refrão da música.
E também havia o sorriso. O sorriso que sua irmã disse que viu em seus lábios, aquele que ela jamais tinha visto. Teria sido o mesmo sorriso que ela pensou ter visto nele? Se é que ele realmente existia. Sempre se sentiu um tanto deslocada, sem lugar no mundo por mais que tentasse. E aquele momento, com aquela música ecoando ao seu redor, fora a primeira vez que o sentimento de pertencer a algo, a algum lugar, batera à sua porta.
Mesmo que não significasse muito, ela queria vê-lo. Mesmo sabendo que não poderia tocá-lo, que jamais poderia tê-lo...
Ergueu os olhos para o espelho e, ao invés de sua cabeleira castanha e olhos grandes, viu o rosto pálido e úmido de olhos estreitos e azuis. O rapaz a encarou e ela soube que ele também a via.
Tocou o espelho e ele fez o mesmo. Riram um para o outro da maneira mais sincera e espontânea que já tinham feito porque era simplesmente forte demais e impossível de etsar acontecendo.
Mas acontecia.
Talvez só com eles, ou com mais pessoas.
Kala viu a si mesma nos olhos de Wolfgang, e o russo por sua vez, viu a si mesmo nos olhos amarronzados da moça bonita de pele morena.
Tão diferentes, mas ao mesmo tempo, tão iguais. Perdidos entre os versos de uma música comum num momento extraordinário.

