14 – Saudade
“Let me hold you
For the last time
It's the last chance to feel again
But you broke me
Now I can't feel anything “
A chuva caia intensa, pesada, naquele final de tarde de Londres. Um olho muito azul encarava o vidro da janela, sem prestar muita atenção na chuva que caia lá fora.
A mente da Hellsing que deveria estar concentrada em alguns casos da organização não parecia disposta a trabalhar. Respirou fundo, evitando assim suspirar. Ela era Integra Hellsing afinal de contas, e a dama-de-aço jamais suspirava!
Sim... A dama-de-aço jamais suspirava ou mostrava quaisquer sinais de vulnerabilidade, mas Integra naquele momento não via nada daquele título em si, e muito menos se orgulhava dele.
Aliás... Agora que parava para pensar, irritava-se um pouco com aquele orgulho maldito. Foi por causa de seu orgulho que quase perdera Vlad uma vez, machucara a ele e a si mesma mais de uma vez, e, mesmo que ela não tivesse de fato perdido Vlad, mas agora ele estava na Romênia... E, bom, ela sentia a falta dele.
E não só dele. A solidão que se abatera sobre a Hellsing depois que o rapaz deixou a casa surpreendeu Integra quando ela se pegou pensando nas coisas das quais sentia falta.
E não eram poucas.
Sentia falta do pai, que morrera tão cedo, do mordomo velho, chato, e intrometido, e ainda assim muito querido por ela, por ser o mais próximo de um pai que ela teve desde que o seu morrera. E sentia falta de Alucard, claro, afinal, querendo ou não, o vampiro fora uma companhia constante em sua vida. Sentia falta de suas aparições silenciosas, da voz grave, do riso sem humor que ecoava nas paredes da mansão, do sorriso sarcástico e das piadas despudoradas que acabavam por fazer que ela descarregasse ao menos um cartucho inteiro de balas nele. E sentia a falta de Vlad.
Porque o rapaz não se esforçava para estar perto dela, falar com ela, ou exercer qualquer outra ação que fosse. A presença dele ali foi, sem que ela pudesse notar, se tornando normal, começou a fazer parte da mansão e dela mesma. Era só agora que percebia como a presença do rapaz se tornara natural ali.
Assustou-se ao se pegar quase perguntando para a policial se o rapaz voltaria ou não. Durante aquele ano e meio entre a guerra e a aparição de Vlad, não havia um único dia em que não fizesse essa pergunta para Celas, se Alucard voltaria ou não, mas esse hábito cessara quando Vlad chegou ali.
Não precisava perguntar com Vlad ali, sua presença tornava aquilo desnecessário, quase sem sentido. Ela sabia que ele não era Alucard, ou era, em uma época diferente, com uma personalidade diferente, mas não fazia exatamente questão de entender, como sabia que Vlad também não fazia.
A questão era que sentia mais a falta do rapaz do que imaginava. Naquele quase um ano em que estava lá, a mansão não era mais tão vazia, as paredes não eram tão frias, e os muros que a dama de gelo construíra ao seu redor pareciam ruir, aos poucos, assim como o coração, que praticamente todos ao seu redor pareciam julgar ser feito de pedra ou gelo parecia aquecer-se novamente, adquirir uma nova vida.
O problema é que além de tudo, ela por várias vezes quase não se reconhecia, como por exemplo pegava-se sorrindo ao pensar no rapaz, ou ao rir com ele e Celas. E o pior é que ela via isso tudo e admitia, meio que contra sua vontade, que gostava daquelas pequenas mudanças em si. Mas ela tinha medo, estava confusa. Amava Vlad, e sentia isso, mas também amava Alucard, senão não sentiria tanto a falta do vampiro moreno. O pior, além de amar os dois de formas diferentes, era que amava o mesmo homem. Certo, em épocas diferentes, mas ainda assim eram o mesmo.
E agora se perguntava se amava e sentia falta do pouco de Alucard que reconhecia em Vlad, ou do pouco de Vlad que agora percebia em Alucard. Sabia que se continuasse assim, no final acabaria por perder os dois, mas ela ainda não tinha certeza de nada e rezava para que o fim ainda estivesse distante.
Queria Vlad ali, e sabia que era ele mesmo de quem precisava, por ser ele quem tinha aquele calor capaz de aquecê-la, o calor que fizera seu coração voltar a bater e capaz de ruir seus muros. Mas Vlad ainda estava viajando, e deixara aquela carta que ainda a atormentava com a dúvida sobre ler ou não. Sentia que seria covarde se não lesse, mas temia o que poderia encontrar escrito ali. Acabou por deixar a carta no mesmo lugar depois de segurá-la pela enésima vez e passar a ponta dos dedos sobre o lacre. Algumas vezes antes dessa, acabara por ler aquele estúpido histórico médico, cujas brasas ainda ardiam na lareira.
Não sabia se aquilo machucara mais por ferir aquele seu maldito orgulho ou por fazê-la se sentir tão culpada. Todas aquelas dúvidas estavam matando a Hellsing por dentro, justamente por ela sempre ter sido tão certa do que tinha que fazer.
Voltou mais uma vez o olho azul para a carta, e mais uma vez andou até ela. Mais uma vez observou sua mão estremecer ao tocar o papel, mais uma vez sentiu o coração disparar como se tivesse recebido uma descarga elétrica ao ler seu nome escrito na letra impecável do rapaz.
Fechou os olhos. Era agora que tomaria sua decisão.
“Oh the truth hurts
A lie's worse
How can I give anymore?
When I love you a little less than before
You can't play on broken strings
You can't feel anything
That your heart don't want to feel”
