Não vou mentir, eu achava estranho. Porque é que, de uma hora para outra, você mudou tanto?
Bem, nem tanto assim, afinal você sempre foi uma pessoa que me fazia rir com qualquer bobagem, fala, gesto ou careta, mas ultimamente ficou ainda pior. Você começou a me puxar pela mão, me esperar na saída, me levar a lugares. Tirava fotos, tomava sorvete, corria pelas ruas e não ligava mais para os olhares de repreensão dos mais velhos. De onde saíra toda aquela empolgação?
"Hoje eu realmente não posso, preciso muito estudar."
"Estude mais tarde, a vida é agora, vamos láááá..."
E alguma vez eu fui capaz de te negar, de resistir ao seu sorriso ingênuo? Simplesmente revirava os olhos e suspirava, me rendendo a mais uma saída, mais um passeio. Mais uma foto para o meu mural na parede, mais uma recordação feliz pra minha mente.
Somente agora eu entendo o que você estava fazendo. Você estava coletando lembranças.
Claro que eu sabia que você iria embora, todos nós sabíamos disso. Mas é claro que alguém como eu jamais teria os mesmos pensamentos e ideias que você. Eu jamais pensaria em, desesperadamente, transformar cada momento, cada segundo e cada cena em algo eterno. Eu jamais pensaria em imortalizar cada segundo ao seu lado, quando todos nós ainda estávamos juntos. E você não sabe o quão feliz eu fiquei por ser você a fazê-lo.
E o quanto eu também te odeio por isso.
Esses últimos tempos me ensinaram uma valiosa lição: pessoas mudam diante de uma separação, especialmente se for uma separação com alguém que elas realmente amam. Elas agem beirando o limite do suportável, mostrando ao mesmo tempo a sua pior face e o lado mais sensível de seu coração. É como se eles quisessem esticar o seu sentimento ao máximo, levá-lo ao extremo, desesperados para saberem se eles serão capazes de suportar a saudade ou se irão arrebentar no meio do caminho.
Testar limites é aquilo que a maioria de nós conhece como "criar memórias".
Nossas lembranças sempre estiveram lá, não precisávamos de novas. Ou assim eu pensava, mas usar o tempo que nos restava apenas para nós me provou o quão errada eu estava. Eu quero mais memórias, eu quero fortalecer nosso laço, nosso sentimento, quero te amarrar com tanta força que você jamais consiga viver sem mim novamente.
É justo, não é? Visto que eu não sou mais capaz de viver sem você.
Vamos a mais uma saída com todos eles; o tempo se esgota depressa! Aquela música que nos fez sonhar e aquela cena engraçada no cinema (que nada tinha a ver com a comédia do filme propriamente dito) estão cada vez mais se transformando em espinhos dolorosos, se afiando a ponto de me espetarem antes do tempo. Sangra, dói e lateja; mesmo com você ainda ao meu lado, mesmo que algo tenha acontecido há poucos minutos, já machucava. Esse é o lado ruim de se criar memórias: o fato de se saber que elas são extremamente necessárias justamente pelo fato de nossos momentos juntos serem finitos, cada passo contado.
Mas eu sorri. Eu precisava sorrir, por nós.
O laço está esticado ao máximo, vibrando, tenso. Mas ele não irá se arrebentar, eu não permitirei. Você pertence a mim.
Não importam as fotos, vídeos, gravações, ou mensagens. Minto, eles importam sim, mas tem coisas mais importantes. O seu cheiro, seu calor, sua gentileza e seu modo rude. O modo como seu cabelo flutua solto, o modo como ri com algo de que gosta, ou quando chora daquele jeito que só eu vejo. É isso que eu vou guardar pra mim , são essas as memórias especiais que me farão te sentir comigo quando você se for.
Sinto saudades de quem está bem ao meu lado; boba, não?
E então, aonde vamos hoje? Não importa, por favor, só me puxe pela mão e vamos embora daqui. Somente nós, antes que seja tarde demais...

