Mais um dia cansativo, ter que observar aqueles dois juntos, felizes. Mal eles sabiam toda a dor que me faziam passar, todo o dia, sempre... Eu o amava tanto, tanto. Com certeza, mais do que ela. A única pessoa que não conseguia reparar nisso era ele... Seu sorriso, tão belo, era uma pena que me faltava coragem para o observar de perto... Tudo o que eu mais queria era me aproximar dele novamente, mas o modo que agia comigo me fazia pensar que isso jamais aconteceria. A única coisa valiosa de verdade para ele era aquela garota... Eu a odiava tanto, tanto...
Caminhei para longe, o mais rápido que podia. Queria me livrar daqueles pensamentos, daqueles rostos felizes apenas por estarem juntos. "Será que ele ainda lembra que eu existo?!", essa era a única coisa que eu conseguia pensar. Senti minhas lágrimas escorrendo, já quase chegando no lugar onde eu queria estar desde o início do dia, a casa da pessoa que mais confio, minha melhor amiga e a pessoa com quem divido meu sofrimento.
– Oi, Ayumi... — abri a porta com a chave que ela havia me dado a alguns dias atrás. Sentei-me ao seu lado, segurando um pouco o choro. Ela, aparentemente, não andava muito bem, igual a mim — Está melhor?
– Se com "melhor" você quer dizer que sou considerada apenas uma amiga da pessoa que amo e que isso não vai mudar... É, eu to bem, sim. E você?
– Awnr... — a abracei apertado, o máximo que conseguia — Se ao menos ele me quisesse como amiga, eu agradeceria... Mas... Você chegou tão perto...
– E você conseguiu, mas não durou muito tempo, tudo por causa daquela... — serrou os punhos e mordeu o próprio lábio, tentando não xingar aquela garota... Ah, sim, eu preferia a chamar apenas de "aquela garota", porque se usasse outro nome, diria todos os palavrões que conheço.
Foi a um bom tempo atrás que isso tudo aconteceu, digo, que a minha dor começou, isso também está por trás de uma longa história, que só contei para Ayumi... Ela passou por coisas muito parecidas, mas de um jeito diferente e que chega a ser até mais doloroso... Apesar de sofrer dessa maneira por dentro, jamais me cortei ou fiz coisas assim. Tive vontade, mas não coragem. Me acho fraca, uma covarde que não aguenta ficar um dia inteiro sem cair no choro por causa de um garoto que nunca vai se importar com ela novamente... Meu nome é Sakura Hashimoto, tenho 14 anos. 1,67 de altura, cabelos castanhos e curtos, olhos que parecem carvão de tão escuros e pele bem clara. Não tenho muitos amigos, os que tenho, considero como irmãos. Moro com meus pais, mas vivo num inferno desde que minha avó morreu.
– Ei... O que posso fazer pra por um sorriso em seu rosto, Sakura? — Ayumi olhou em meus olhos, acariciando meus cabelos carinhosamente — Quer assistir algum filme que dizem fazer todos chorar, mas que te faz rir? Ei... Quer que eu ligue para seus pais? Assim você dorme aqui em casa hoje...
– Me dá sorvete. — Fiz beicinho e ela riu. Meu jeito palhaço existe, não importa com que humor eu esteja, sempre farei o possível para a animar.
– Bom, tudo bem. — Levantou-se e caminhou até a cozinha. Suspirei, olhando para o chão, voltando ao meu mundo de pensamentos.
Ayumi tem 14 anos, é inteligente, bonita, meiga, gentil, engraçada... Tudo o que um garoto poderia querer! 1,75 de altura, cabelos compridos e castanhos, olhos da mesma cor, pele clara e algumas sardas no rosto, mas isso a deixava ainda mais linda! Logo faria 15, tudo o que desejava era passar o dia com as pessoas que amava, mas... Digamos que não tínhamos mais tanta certeza se aquele desejo iria se realizar... O garoto que ela gosta andou fazendo algumas besteiras com seu coração ultimamente, por isso, está tão mal quanto eu.
"Se até mesmo uma garota tão incrível como a Ayumi está nessa situação, eu não tenho chance alguma de ser feliz tão cedo..."Aquele era meu único pensamento no momento"Ela não merece sofrer desse jeito..."fechei meus olhos e tentei lembrar do que me alegrava toda a manhã. Eu e Ayumi não estudamos na mesma sala. Ou seja, eu deveria ficar sozinha na classe, sem ninguém para conversar... Porém, existe uma pessoa, a razão para eu ainda tentar me animar todo santo dia... Eu o considero um irmão, ou até mais do que isso... Seu nome é Aru, e sinto que é uma das pessoas que mais posso confiar, mas ainda não tomei coragem para explicar tudo o que aconteceu entre eu e "Aquela pessoa".
– Você gosta de sorvete de Napolitano, né? — Ayumi retornou ao quarto, com duas vasilhas na mão, ambas continham o sorvete que tanto queria.
– Oh, sim! — Rapidamente, peguei uma das vasilhas e uma colher, colocando um pouco de sorvete nela e levando-a até minha boca, apreciando o sabor demoradamente — Eu já te contei a razão para esse ser meu sorvete preferido?
– Provavelmente, não... Qual é a razão?
– Eu sempre amei sorvete de creme quando era pequena, apenas isso... Um dia, conheci um garoto loirinho que vivia dando umas cantadas nas garotas... Teve uma vez que ele tentou me cantar também, e adivinhe o que fez! Me deu sorvete de morango e chocolate enquanto eu estava tomando um de creme.
– Meu Deus... — ela riu um pouco e voltou a me encarar — Mas... Isso ainda não é um motivo.
– Deixa eu terminaaaar! — Fiquei emburrada, mas acabei rindo — Bom... Eu disse que só tomava sorvete de creme, então ele me disse que eu deveria experimentar outros sabores para ser uma garota mais "experiente na vida" — Ayumi tossiu, provavelmente, engasgou com o sorvete em meio a risada — Sim, eu ri demais daquilo, mas acabei tomando o sorvete de morango e chocolate! Depois disso, eu falei pra ele que queria ser ainda mais "experiente", então, enchi a colher com os três tipos de sabores e tomei tudo junto, então... Me apaixonei por sorvete de Napolitano!
– Você é uma idiota mesmo, hein? — Ela já não aguentava mais o riso, então se soltou, caindo na cama.
Depois de tomarmos o sorvete, vi a hora rapidamente, já era quase 23:00!
– Ei, Ayumi... Temos que acordar cedo amanhã! Não acha melhor já ir dormir? — a encarei, ainda rindo um pouco.
– Bom, tudo bem... — bocejou e se levantou, provavelmente, estava com sono, mas não queria dormir — Vou tomar banho, depois durmo, acho melhor fazer o mesmo, ok?
– Ok! — dei um sorriso, um tanto forçado.
Ayumi morava apenas com a mãe, mas ela vivia viajando, por isso, me pedia para a visitar todo dia. Eu praticamente morava na casa dela! Só não dormia lá quando ela estava doente ou iria sair, de resto, estávamos sempre juntas!
Suspirei demoradamente e segurei meu celular, o encarando fixamente... A foto de fundo, aquele rosto que jamais sairia de minha mente..."Haruka... Por que teve que ser desse jeito...?".Senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, estava calor quando tomamos sorvete, mas de repente, veio o frio. Virei meu rosto, até que de repente, ouço meu celular tocar... Aquela música, aquela que marcou nossos momentos juntos e que me representa atualmente na vida de alguém que me importo muito... Sim, só podia ser, ele estava me ligando.
Após 20 segundos ouvindo aquela melodia agitada, com aquela letra que decorei a tanto tempo... "Deixe-me lhe contar algo que venho pensando a muito tempo... Se pudéssemos voltar a ser amigos, eu não vou pedir mais nada". Ao final daquela estrofe, cliquei rapidamente em "atender", colocando meu telefone no ouvido, me segurando para não voltar a chorar.
– Sakura!

