
- Antes mesmo de compreender quem eu era, já observava as estrelas... — a voz do Alquimista era tranquila, como a de alguém recitando uma memória muito antiga. Seus olhos permaneciam erguidos para o céu.
- Nasci em uma era simples. Meu pai e minha mãe viviam da terra. Não conhecíamos máquinas, grandes cidades ou os segredos do mundo. Conhecíamos apenas o trabalho e as estações.
Um leve sorriso surgiu em seu rosto.
- Minha mãe tinha o hábito de me contar histórias antes de dormir. Dizia que cada estrela possuía uma origem. Que toda luz carregava uma história. Na época eu acreditava que ela estava me ensinando sobre o céu.
Ele soltou uma breve risada.
- Hoje penso que ela estava me ensinando sobre as pessoas.
O silêncio pairou por alguns instantes.
- Quando cresci, me dediquei aos estudos. Ervas, números, astros... qualquer coisa que pudesse responder às perguntas que surgiam em minha mente. Eu acreditava que todo mistério possuía uma resposta, desde que alguém estivesse disposto a procurá-la.
Seus olhos perderam o foco por um momento.
- Foi também nessa época que conheci Elora.
Pela primeira vez, sua voz tornou-se mais suave.
- Ela era extraordinária. Não pela beleza, embora fosse bela. Nem pela inteligência, embora fosse brilhante. Era extraordinária porque conseguia encontrar felicidade nas coisas simples. Um dom que eu jamais possuí.
Ele suspirou.
- Casamo-nos em Quetarium. Uma cidade de estudiosos, filósofos e astrônomos. Acreditávamos que teríamos uma vida longa e filhos correndo pelos corredores de nossa casa.
Sua expressão endureceu.
- Mas algumas sementes jamais florescem.
O Alquimista permaneceu observando o horizonte.
- Durante anos acreditamos que era apenas uma questão de tempo. Depois pensei que o problema estivesse nela. E, para minha vergonha, procurei outras mulheres.
Ele fechou os olhos.
- Foi então que descobri uma verdade que passei décadas tentando negar.
Levou uma mão ao peito.
- A esterilidade não era dela. Era minha.
O vento soprou entre suas vestes.
- Há uma ironia cruel nisso. Passei a juventude estudando como a vida surgia. Conhecia os ciclos das plantas, dos animais e dos homens. Compreendia os mecanismos que permitiam ao mundo continuar existindo.
Seu sorriso tornou-se amargo.
- E, ainda assim, era incapaz de gerar uma única vida.
O silêncio voltou a se instalar.
- A maioria dos homens aceita seus limites. Eu os transformei em inimigos.
- Abandonei minha esposa. Abandonei meu lar. Convenci a mim mesmo de que precisava apenas de mais conhecimento. Um livro. Uma descoberta. Mais alguns anos — sempre acreditando que a resposta estava um pouco além do que eu já sabia.
Ele ergueu os olhos para as estrelas.
- Os anos tornaram-se décadas. As décadas tornaram-se séculos. E um dia percebi algo terrível: eu estava envelhecendo mais depressa do que minhas respostas surgiam.
Um leve sorriso sem alegria apareceu em seus lábios.
- Então aprendi a interromper meu próprio tempo. Aprendi a impedir que a morte me alcançasse. Aprendi, enfim, a sobreviver.
Seus olhos ficaram sombrios.
- O que eu não compreendi naquela época é que existem destinos dos quais não estamos fugindo. Estamos apenas nos afastando de nós mesmos.
Ele permaneceu em silêncio por um longo momento. Então concluiu:
- Passei milênios acreditando que buscava uma forma de criar uma criança. Hoje sei que estava apenas procurando uma forma de preencher um vazio que nem mesmo eu entendia.
Seu olhar subiu ao brilho da lua, enquanto o soar do vento balançava as flores do jardim.
- E ainda assim... compreender o vazio não é o mesmo que aceitar viver com ele.
Ele se levantou, bateu as mãos em seu manto, vendo pequenos gravetos e folhas secas caírem.
Um suspiro longo saiu de seu interior e, num piscar de olhos, sumiu, deixando para trás apenas uma fagulha brilhante na escuridão do jardim.
