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A Party, A Tragedy

tormentor

A Party, A Tragedy
Chapitre 16 min de lecture

O inferno que se tornou minha vida

Abri meus olhos com dificuldade, e mesmo de olhos abertos não enxergava nada, cada parte do meu corpo doía imensamente, eu sentia o sangue escorrendo de um corte na minha cabeça

e eu estava... de cabeça pra baixo...

Eu não lembro como tudo aconteceu, o que aconteceu antes daquilo, eu sei, por que as pessoas me contaram.

Eu estava com a cabeça achatada contra o teto do carro, e tentei me localizar, olhar pra fora pra ver aonde estávamos, mas essa impossível, naquele momento eu não enxergava nada além de um palmo a minha frente,

Notei que eu não sentia meu braço esquerdo, tentei ficar o pescoço que doía muito para olhá-lo, e vi que estava quebrado, ele só doeu muito depois, eu não tinha tempo para sentir dor.

MEUS PAIS!

Meus pais estavam lá, deviam estar desacordados, por que nenhum dos dois disse nada, éramos nós três dentro do carro.

Noto um volume descomunal de sangue saindo de onde meu pai deveria estar, eu não conseguia enxergá-lo, ao banco do motorista, mas deduzi que ele estava desacordado, com algum corte profundo no braço, ou na perna, chamei por ele, o mais alto que pude, que não foi muito, não obtive resposta então dei por verdadeira minha dedução.

Ouvi a voz da minha mãe chamando por mim naquela confusão de poeira, sangue e sujeira do asfalto, eu respondi com dificuldades.

- J... Júlia...

- Mãe... Eu estou bem... e a senhora?

- Não consigo me mexer, nem meu pescoço, acho que quebrou.

- Mãe, não durma, mantenha-se acordada mãe, mantendo contado comigo.

- Por que teu pai não diz nada??

- Não sei mãe, não consigo enxergar.

Tento olhar pelo pára-brisa, forçando a visão, vidro esse que já não existia mais, e vi por que meu pai não respondia e vi também por que aquele sangue todo, mesmo de cabeça pra baixo eu reconheci, que ainda com uma expressão de desespero, a cabeça do meu pai jazia no asfalto frio.

Eu congelei, e não acreditava no que eu estava vendo. Só consegui gritar:

-PAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAI!

Foi aí que minha mãe também viu, mas não disse nada, somente deixou uma lágrima escapar.

E o movimento começou a aumentar, uma sirene estupidamente alta parou ao lado de onde estávamos, eu chorava descontroladamente, tentei soltar meu cinto, e ir pega a cabeça do meu pai antes que algum carro maldito passasse por cima, eu não queria acreditar naquilo, foi a pior visão da minha vida, ele, calvo, com os olhos ainda abertos...

Eu apaguei, mas não totalmente, ouvia os gritos incessantes da minha mãe, e sentia braços me puxando, primeiro o cinto sendo cortado, depois a janela arrancada, nessa hora eu já não ouvia mais nada, a não ser um zunido baixo, quase que um xiasso de telefone, vi o vulto da minha sendo mobilizado e colocado em uma maca, vi um corpo, sem cabeça, dentro de um saco preto, vi uma multidão ao redor, multidão essa que eu nem vi chegar, vi sangue, muito sangue no chão, vi uma carreta enorme parada, batida contra um grande morro na beira da estrada.

Acordei no hospital, com uma enorme faixa envolta da minha cabeça, um grande buquê de flores ao lado da cama e um homem todo de branco ao meu lado.

- Júlia Mendonça? — Perguntou ele, porém já sabia a resposta.

- Sim... Cadê minha mãe? — Levantei de um salto.

- Está na UTI, teve o pulmão perfurado por uma ponta de ferro, ela passa bem. — Depois eu soube que ela não estava nada bem. — Vai sobreviver. — Júlia, há um policial do lado de fora que quer conversar com você, posso mandá-lo entrar?

- Sim...

O Poliical entrou no quarto, e com um olhar de pena começou a falar.

- Meu nome é Marcos, eu estava no local do acidente, auxiliando as equipes de resgate. De acordo com testemunhas, seu pai estava dirigindo acima da velocidade permitida, e visivelmente embriagado, parentes disseram que vocês vinham de uma festa.

- É, eu me lembro, era festa de aniversário do meu tio.

- Então, seu pai... Bom... Ele está morto.

- Eu vi a cabeça dele no chão — Nesse momento eu desabei a chorar de novo.

- Sua mãe está na UTI, como o médico deve ter lhe dito, mas continuando, o carro de vocês estava na conta mão, e uma carreta enorme vinha no sentido oposto, seu pai, com os reflexos alterados, tentou desviar, a carreta bateu no lado do carro, que capotou inúmeras vezes até parar perto do acostamento. Foi uma sorte que você e sua mãe continuem vivas.

- Eu preferia estar morta essa hora.

- Bom, Júlia, eu sinto muito por tudo que aconteceu. Mas eu preciso ir, qualquer coisa, você pode me chamar — enquanto falava, o oficial deixava seu cartão no criado-mudo. — Espero que isso vire lição para você, que bebida e direção nunca combinaram e nunca vão combinar.

- Obrigado, eu não vou precisar. — Eu já secava minhas lágrimas.

Ao sair do quarto, o policial deu lugar ao médico que voltou.

- Júlia, analisando seus exames....

- O QUE FOI AGORA?!?!?!

- Você... Ficará paraplégica, mas é reversível, com fisioterapia árdua durante um tempo, é só ter dedicação.

- Meu Deus!!!! O que mais precisa acontecer comigo?!?!?!?!?!?! Perdi meu pai, quase perco minha mãe, e agora nem andar eu vou poder. QUE INFERNO DE VIDA!!!!

- Eu sinto muito... eu preciso sair Júlia, qualquer coisa, aperte o botão no alto de sua cabeceira.

Dito isso o médico saiu, me deixando com minha solidão, e com minhas pernas agora inúteis, eu não sei o que seria da minha vida sem meu pai, sem minha mobilidade. Eu só sei que é agora é assim que ela é.

Eu passei por um inferno... Aquelas imagens ficarão comigo pra sempre, e esse inferno, se estenderá até o dia da minha morte, que eu espero, por Deus, que venha logo.

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