O celular tocou pela segunda vez naquele dia. Ele evitava atender ligações enquanto dirigia, mesmo convencido da sua vasta experiência na estrada. Sua esposa estava na outra linha, empenhada em lembrá-lo que existia para ele uma vida além do trabalho, tudo o que podia fazer diante daquele lembrete era consentir e pensar em tudo que implicaria deixar a estrada, afinal suas dívidas não seriam pagas sozinhas, detestaria deixar unicamente nas costas de sua esposa a responsabilidade de cuidar da casa e das despesas da filha, que ainda menina conhece a preocupação de nunca mais poder rever seu pai. A estrada estava surpreendente livre para sua caminhonete passear sem muitas complicações, apesar disso, não retirou por um minuto seu olhar do trânsito, distribuindo partes da atenção com a voz de sua esposa.
– Clarice e eu temos sorte de você ser uma ótima mãe, esposa e psicóloga – brincou, para desanuviar as preocupações da sua mulher.
– Seria mais fácil se você realmente facilitasse, Rodrigo, não dá pra competir com seu carro – ela respondeu com seu humor característico que sempre arranca de Rodrigo um sorriso de canto -, o sono dela está meio prejudicado. Não quero lhe preocupar, mas hoje de tarde ela não quis tirar cochilo pra não ter pesadelos com você de novo.
– Pelo menos você nunca vai ter dúvida de que ela é realmente filha minha, dorme tão mal quanto eu.
– É sério, Rodrigo – assumiu um tom solene de uma mãe preocupada, Rodrigo sabia o que estava por vir e respirou fundo –, da última vez ela sonhou que estava colhendo flores com você e você sumia, acordou chorando e não dormiu mais.
– Amor, eu sei o que a saudade pode fazer e sei o que você está fazendo também, é o lance da psicóloga de novo, prometo que vou chegar aí mais cedo do que espera, – igualou o tom de seriedade com toques de empolgação – sabe que estamos apertados, esse trabalho foi uma mão na roda, estão pagando em um serviço tudo que eu ganho trabalhando em um mês!
– Isso não é estranho? Por que uma empresa que tem o próprio serviço de entrega contrataria um serviço terceirizado? – seu tom curioso tomou conta da conversa.
– Deus escreve certo por linhas tortas, ele deve ter visto o tanto que botei a mão na cabeça esse mês. – Tornou a descontrair – só que eu concordo, tem doido pra tudo, mas aí Deus também usa os loucos pra confundir os sábios.
– Abestalhado – ela sorriu, e tornou a reiterar –, é bom que nenhum louco tenha te confundido e que você esteja comendo e dormindo direito. Falando nisso, você esqueceu o dipirona de novo, então veja de pelo menos parar pra cochilar quando puder.
– Prometo que eu vou – consentiu com serenidade, sabia que sua esposa estava sentindo sua falta, sabia também que ela faria questão de lhe dizer.
– Sinto sua falta.
Rodrigo sorriu com os olhos para responder com a mesma afeição genuína que recebeu.
– Também te amo, Cíntia.
A ligação foi encerrada, Cíntia se deu por satisfeita e Rodrigo guardou o celular no porta trecos do carro, que antes de anoitecer, já alcançou a estrada de barro conforme o trajeto informado com antecedência pelo seu contratante, não demorou muito para que o pagamento se justificasse, Rodrigo constatou assim que se deparou com o balanço dos pneus subindo e descendo dos relevos irregulares. Tudo o que havia ao redor era uma crescente vegetação que se multiplicava conforme o carro seguia o caminho. Pelo retrovisor interno da cabine, bisbilhotou de canto a encomenda na carroceria da caminhonete, um caixão fechado que ele mesmo tratou de amarrar em cordas para não escapulir para fora, de um jeito que a tampa não se abrisse. Olhando aquilo, fez um sinal da cruz, se valendo da sua fé e do terço pendurado no retrovisor.

