-mist- Kurisumasu To Ganjitsu no Yume
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Chapitre 118 min de lecture

The day before Christmas

24 de Dezembro, uma e cinqüenta da tarde


-Oook, vou passar em casa primeiro e depois eu vou aí pode ser? –Dizia ao amigo pelo celular. Achava estranho Machi ter ligado, quase nunca conversavam desde que ambos decidiram tomar rumos diferentes em suas vidas. Ele mesmo estava querendo montar uma banda, fazia tempo (mais especificamente dois anos) desde que sua antiga banda terminara tragicamente com a morte de seu vocalista, e até hoje ele e os ex-integrantes da banda, Machi sendo o baterista, queriam saber o porquê de sua morte tão repentina e misteriosa. Mais estranho ainda era ele ter ligado justamente para reunir a banda mais uma vez e fazer um pequeno tributo ao vocalista falecido, talvez até gravar um cd em seu nome e para presentear os fãs que há muito ansiavam por algo novo do Lareine. Esperou a resposta do amigo e logo retornou a dizer: — Hai, lá pelas quatro eu to aí, qualquer coisa me liga tá?

Desligou o celular e continuou andando pela rua, distraidamente. Por algum motivo ficava feliz em pensar na idéia de reencontrar os antigos companheiros de banda, eram dias muito alegres e quase sempre bem aproveitados quando se reuniam, claro que como toda “família” tinham suas brigas, mas isso era o de menos quando se reuniam para tocar. Alegre, porém triste ao mesmo tempo, pois sabia que ao adentrar o apartamento de Machi e buscar Emiru em casa a lembrança de seu falecido vocalista viria em mente, e isso, como Machi mesmo dissera no telefone, era realmente doloroso. Não podia negar que sentia saudades, pois a namorada do rapaz ainda mantinha laços de amizade com a banda, acostumou-se tanto ao vê-la com o amigo que sempre que a via era como se visse a sombra do rapaz com ela, ao seu lado, e convenhamos, isso o assustava algumas vezes.

Por falar em namoro, olhou o relógio de pulso e, de olhos arregalados, correu alvoroçado pela calçada, atravessando a rua com tanta pressa que achou que fosse tropeçar nos pés, o longo rabo de cavalo castanho preso na nuca e roupas escuras típicasdestacavam os flocos de neve que caíam do ombro e topo da cabeça.

Correu o mais rápido que pôde, seguindo a rua até chegar em frente a um estabelecimento de belo porte, tirou um pouco da neve em si, abriu a porta devagar e adentrou o lugar, aquecido por uma lareira ao fundo e ar-condicionado. Vasculhou as mesas e seus acentos, vendo um homem de baixa estatura aparecer em sua frente com roupas sociais.

-Pois não senhor? – Dirigiu-se o homem cordialmente, olhando-o nos olhos com educação e notável classe.

-Por acaso uma mulher chamada Kazumi apareceu aqui? –Perguntou com igual educação e classe, embora tentasse esconder a falta de ar. –É que eu marquei com ela hoje...

-Kazumi? – O garçom foi até uma bancada alta daquelas de lista de convidados e procurou no caderno pelo nome. –Está no nome de quem senhor?

-Onodera Kouji. –Disse prontamente, aproximando-se da bancada mas sem tirar os olhos das mesas e da porta de entrada.

-Hmm, não, ela ainda não chegou, não que eu saiba senhor. – O homem olhou dele para o livro de visitas. –Se preferir eu tenho uma mesa reservada em seu nome. Deseja sentar-se?

-Hai, onegaishimasu. –Agradeceu, seguindo o homem até o canto do estabelecimento e sentando-se ao tirar o casaco marrom e apoiá-lo na cadeira ao lado.

Esperou alguns minutos antes de decidir acender um cigarro, e sabendo que ali era uma área restrita a fumantes, recostou o queixo na mão e deixou a outra perto da cabeça, sentindo o cheiro do tabaco mesclar-se ao seu perfume. Cinco minutos, Dez minutos e nada, olhava hipnótico para a porta, e quando desviava olhar o sino o chamava, deixando-o cada vez mais frustrado quando um desconhecido entrava. Acendeu outro cigarro e olhou as horas, faziam quinze minutos desde que chegara. “– Pff, pra quem estava atrasado eu bem que tô adiantado hein?” – Pensou, soltando uma nuvem de fumaça no ar perto da janela. Quase que como um sinal, sentiu o celular apitar no bolso da calça, vendo o número da namorada no visor.

-Mochi mochi? –atendeu sem muita vontade.

-Mayu-chan, eu to com problemas aqui e acho que vou chegar tarde ou nem chegue a aparecer, tem como você marcar pra outro dia? – Kazumi disse, um tanto rápido mas bem explicado, sem perder o tom infantil e manhoso em sua voz.

Sim ele sabia que era mentira, ela não queria aparecer, essa era a verdade. Faziam duas semanas que ela não andava mais com ele e até o presente momento ele queria saber motivos, mas sempre que tocava no assunto ela mudava de ponto ou saia de perto, desconversava. Claro, ele sabia que ela era uma moça direita, daquelas que não hesita em dizer o que pensa, tanto que levou um grande susto quando foi apresentar o resto da banda a ela e descaradamente ela disse que o vocalista era kawaii. Levando na brincadeira e com certo tempo de conhecimento de sua personalidade, descobriu que no final ela só era sincera, fosse para o bem ou para o mal. Diga-se de passagem, ele gostava disso, de sua sinceridade. Mas estava se cansando dessa brincadeira de “te amo mas não quero sair com você pois...”, realmente cansado disso.

-Sakie, faz uma semana que combinamos isso, porquê desistir agora? –Perguntou quase derrotado e nervoso.

-Gomen Mayu-chan, é que realmente to com problemas aqui, então marca pra outro dia ta? –Sem esperar uma resposta que ele prontamente diria, ela desligou. Mais nervoso que nunca, Mayu fechou o flip com força e passou a mão pelo cabelo, acendendo outro cigarro e indo embora após se desculpar com o garçom que o atendera.

Andou bastante distraído, supondo o porquê de, do nada, Sakie ter decidido não sair mais com ele. Duas semanas haviam se passado e nada de ela aceitar sair com ele, sempre inventando histórias ou dizendo que estava ocupada. Bem, para quem trabalha em uma mercearia de família até que dá pra ficar pelo menos um dia inteiro fora certo? Então porquê raios ela recusava ou adiava os compromissos que faziam juntos? Sua mente o levou a supor até mesmo uma possível traição. Deus era isso! Só podia ser isso, ela estava com outro e não queria falar! “-Ah se eu descobrisse quem é o infeliz ele vai desejar nunca ter nascido!” pensou, a fúria o consumindo. Tal distração o impediu de ver o carro que se aproximava, por sorte talvez sentiu um braço o puxar com força de volta para a calçada.

-Oi, toma cuidado quando for atravessar a rua tá bem? – Virou-se, vendo um homem pouco mais baixo que si mesmo, cabelos loiros compridos e assustadoramente familiar. Seria por isso que tremeu um pouco?

-Ah, obrigado, – Desculpou-se com uma reverência por sua falta de atenção. –Ando muito tenso esses dias...

-Tenso? Em plena época de natal? – O homem loiro disse sorrindo, um sorriso lindo de dentes brancos.

-É que... Bem, estou com certos problemas. – Explicou, sabendo muito bem que não deveria ser do interesse do estranho saber de seus problemas.

-Vejamos, — O loiro parou, pensativo e de braços cruzados, voltando a falar alegremente segundos depois. – A não ser que seja tabu para você aceitar conversar com um estranho, porque não vamos comer algo? Assim, acho que poderia ajudar.

-Não que seja um tabu, é que não acho que esteja interessado em ouvir problemas de uma pessoa que acabou de conhecer. – Respondeu Mayu, perdendo-se nos olhos claros do homem.

-Imagine, estou acostumado a ouvir desabafos por assim dizer, — O sorriso do homem se intensificou, começou a andar mencionando para Mayu o seguir. –Na verdade, gosto de ajudar quando é possível.

-Se insiste... –Mayu o seguiu até o outro lado do quarteirão, adentrando os portões de um parque ali perto. Andavam calmamente por ele, poucas pessoas estavam ali e fazia o tempo mais bonito com a calmaria do lugar, somente com o cantar dos pássaros.

Observando o homem, começou a se perguntar o porquê dele parecer tão familiar para si, fosse os cabelos ou o sorriso, algo nele o fazia lembrar de seu falecido amigo, até o jeito de falar era parecido. Soltou uma leve risada, abafando-a com a mão, demorou para perceber que o estranho o olhava em igual sorriso, os braços atrás das costas.

-Que houve? –Adiantou-se o loiro, curvando-se um pouco para frente.

-Nada, é que você me lembrou um amigo. –Explicou, ainda abafando a risada. –Ele costumava ser gentil assim e fisicamente ele parecia você.

-Sei, ele deve ser um homem bom... Então, – O homem refletiu por um momento, endireitando-se. – Quer conversar?

-... –Mayu demorou-se para iniciar a conversa, não queria deixar um estranho saber de sua vida amorosa e tampouco encher sua cabeça, mas como por educação o homem se ofereceu para conversar e contornara seus problemas, ele por igual respeito responderia certo? – Estou com problemas com minha namorada, ela é uma boa moça mas ultimamente anda recusando sair comigo, devo estar falando asneiras mas não posso deixar de pensar em traição.

-Traição? Nunca meu amigo. – O homem riu baixo, cruzando os braços e afastando os cabelos do rosto. –Acredito que deva dar um tempo, ela deve estar confusa por algum motivo e precisa de apoio. Talvez essa foi a maneira dela se resolver com ela mesma, entende?

Mayu arregalou os olhos, o homem falava com um conhecimento digno de psicólogos, coisa que nunca vira alguém fazer, ou já em seu falecido amigo, e essa semelhança estava ficando cada vez mais assustadora. Mais uma vez o homem se virou, vendo Mayu absorto em pensamentos e com olhar fixo nele.

-Disse algo de errado? –Perguntou com receio.

-N não, é que... –Ele tinha que perguntar, era um tanto impossível conhecer alguém com extrema semelhança de alguém que já falecera. –Você por acaso conheceu um rapaz chamado Yuuji?

-Yuu-ji? – Repetiu, pensativo. – Não me recordo. Por quê?

-Esquece, é que eu to pensando demais. – Voltou a olhar o parque, das árvores ao tempo que aos poucos fechava mais, a neblina cada vez mais densa. –Sei lá, é que esse meu amigo faz falta sabe? E ver alguém que parece tanto com ele chega a dar medo.

-Meus pêsames. – Disse o loiro, cabisbaixo. –Deve estar sendo ruim para você e os conhecidos dele não?

-Sim, hoje faz um ano que ele faleceu. –Continuou Mayu. – Ele era o nosso irmão mais velho, por assim dizer. – Consultou o relógio, agora marcavam três horas. –Vou me encontrar com uns amigos agora. Agradeço a companhia senhor, foi de muita ajuda seu conselho.

-Antes de ir, quero lhe mostrar algo, pode ser? – O homem parou, olhando Mayu nos olhos e esboçando uma certa seriedade no rosto.

-Bem, pode ser, só não posso me atrasar. –Mayu completou.

-Não vai, serei breve.

Seguiram pelo menos o parque inteiro, atravessando uma pequena ponte que havia sido construída ali á pouco tempo, não percebera direito aonde estavam indo até atingirem uma certa parte onde uma pequena praça circular que dava de frente para um muro comprido e alto se destacava. Mayu teve a leve impressão de que sabia aonde o homem o levaria, e não se surpreendeu quando, ao saírem do outro lado do parque, eles deram de frente para um cemitério. Só se perguntava o porquê dele querer entrar e mostrar algo que possivelmente não seria de seu agrado ou o deixaria um tanto encabulado, afinal não tinha nada em um cemitério a não ser gente morta e lápides.

Sem nenhuma palavra, o estranho o levou por um dos muitos corredores do lugar, passando por várias lápides e estátuas de santos. Mayu demorou-se admirando as belas figuras ali postas, algumas eram realmente belas para ficar em um lugar tão desconfortável como aquele, escolheria um museu ou uma loja de artes para exibi-las. Andaram por pelo menos quatro corredores, a neblina agora descera por completo, escondendo muitas das lápides e estátuas, podia ver somente as mais próximas e a luz de algumas velas que ainda permaneciam acesas.

-Aqui, sente-se se desejar. – O homem chamou, sentando-se sobre uma lápide de tom mediano, nem claro nem escuro, uma estátua igualmente bela postada no topo do jazigo com as mãos em prece. Hesitante, Mayu se aproximou, não ousando sentar, apenas observou o homem cruzar as pernas e pousar os braços no colo cabisbaixo. Um breve momento de silêncio invadiu o lugar, até que ele voltasse a falar com um sorriso tímido e triste no rosto, olhando algo ali na lápide.

-Ele ainda se lembra de você e de todos que fizeram companhia para ele durante sua curta vida. – Começou, sem olhar para Mayu. – Ele agradece o que farão hoje e estará lá para vê-los tocar, e deseja do fundo da alma que você e Sakie-chan sejam felizes. – Levantou-se, passando a mão nos olhos como querendo esconder que chorara, riu-se baixo ao ver a cara de espanto de Mayu.

-Espera, como você sabe de tudo isso? – Perguntou assustado, sentindo cada parte de seu corpo tremer, não de frio, mas de medo. Estava em um cemitério e o desconhecido estava falando de sua namorada e amigos como se os conhecesse, era assombroso.

-Converse com Sakie, ela está confusa sobre vocês dois por intervenção dos pais. – O loiro aproximou-se, abraçando de leve Mayu e escondendo a lágrima que rolara ao se afastar. – Diga a Machi e Emiru que sinto saudades, e diga a Audrey que a amo. – Devagar, começou a andar pelo corredor pelo lado oposto ao que seguiram, o longo sobretudo preto que usava balançando com seu andar.

-Espera, quem é você afinal? – Mayu quis saber, pegando o homem pelo pulso. Ao olhar mais atentamente para seu rosto, levou um susto tão grande que teria desmaiado não fosse o frio na espinha subir e impedi-lo de sequer se mexer. Agora tudo fazia sentido: o motivo de achar que eles se pareciam tanto, o jeito anormalmente igual de falarem, sua gentileza e sorriso, os cabelos loiros e olhar penetrante. – K... Ka... Kamijo?

-Dê a eles essa mensagem sim? – Repetiu, secando com o indicador as lágrimas que brotavam dos olhos de Mayu, abraçando-o quando ele caiu de joelhos. E subitamente como apareceu, ele se levantou, andando pelo nevoeiro e desaparecendo no meio dele, como um fantasma que volta somente para ajudar a quem ama.

31 de Dezembro, cinco para a meia-noite

-Anda logo Machi, vamos lá fora! – Emiru chamava empolgado, seguido de perto de Mayu, Sakie e alguns amigos e familiares de Machi. Decidiram se reunir na casa do ruivo para passar o fim de ano, já que ele não iria fazer nada, mas depois que Emiru tivera a idéia, ele fez questão de chamar alguns amigos e familiares mais chegados.

-Tá certo ta certo, calma criança! – Ria Machi, saindo da casa com uma garrafa de champanhe na mão.

Mayu e Sakie nunca estiveram tão bem, saíram abraçados da casa e trocavam longos beijos a cada olhar, estavam apaixonados. E essa aproximação nunca fora tão boa quanto o dia que se conheceram, e na virada do ano fariam cinco meses de namoro, e depois de conversar a sós com a garota, descobrira por fim o motivo de sua insegurança, ela estava com alguns problemas na família e não queria envolvê-lo para preocupar o namorado, o que deixou Mayu imensamente feliz pela consideração que ela tinha por ele, e na virada do ano ele faria uma grande surpresa para ela.

Assim que o relógio batera meia-noite e as taças se encontraram num brinde uníssono, Mayu fez questão de chamar a atenção de todos e puxou a namorada para perto no intuito de fazer um pequeno discurso sob os olhares risonhos de Machi e Emiru que sabiam o que estava por vir.

-Bem, primeiramente quero agradecer ao Machida por ter nos deixado organizar essa festa e a todos que vieram, — Disse, seguido pelos aplausos dos presentes. – Agora, eu gostaria de fazer algo que fazia tempo que estava planejando mas não sabia como deixar essa data marcada. –Olhou de relance para Sakie com um sorriso, devagar ele se ajoelhou tomando a mão da garota entre a sua e pousando a taça de champanhe na mesa. –Kazumi Sakie, quer ser minha noiva? – Sob as muitas exclamações Mayu tirou uma pequena caixa do bolso da calça, abrindo-o e mostrando uma aliança a namorada.

- Aceito Onodera Kouji, aceito! – Chorando de felicidade, Sakie abraçou o agora noivo com força, beijando-o demoradamente.

Muitos votos de “Feliz ano novo” foram trocados, abraços e apertos de mão divididos, e ali, na esquina mais próxima, Mayu viu um homem vestido de branco, os cabelos loiros compridos até o ombro e olhar chocolate sorrindo para ele.

- Essa é para você Kamijo-kun. – Disse, sorvendo um gole de champanhe num sorriso.

-Disse alguma coisa Mayu-chan? –Emiru se aproximou, seguido de Machi que olhava contente para ambos.

-Não, só quis fazer um brinde para nosso amigo falecido. – Disse, vendo o homem na esquina se afastar.

-É mesmo, feliz ano novo Kamijo-chan! – Machi se aproximou, as três taças brindando no ar enquanto Mayu via a silhueta do amigo sumir na esquina em meio a neve. De uma coisa ele estava certo, nunca esqueceria aquele fim de ano e muito menos que Kamijo, seu falecido amigo, o ajudou a ter o melhor fim de ano que já tivera.

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