Uma mulher escocesa
Uma mulher escocesa
Capítulo 26 min de lectura

I

Os primeiros raios pálidos de sol filtravam-se timidamente pelas frestas da madeira envelhecida e maltratada da cabana onde Bonnie morava. A luz invadia o espaço simples, despertando-a com um incômodo súbito nos olhos ainda sonolentos. Lentamente, com a agilidade de um felino, ela se esgueirou para fora dos cobertores peludos que envolviam o corpo pequeno e quente do menino que dormia tranquilamente, alheio ao frio da manhã. O rosto angelical de Logan, iluminado pelos primeiros raios do dia, fez Bonnie suspirar com uma mistura de amor e preocupação — mais um dia de luta começava.

Além das dificuldades implacáveis causadas por sua condição financeira e pelo estigma de ser mãe solteira, havia o peso das vozes maldosas e julgamentos implacáveis. Bonnie sentia na pele o olhar desconfiado e as cochichas da vila, que a condenavam como mulher desonrada por carregar um bastardo nos braços. Seu trabalho como curandeira e vendedora de emplastros, que deveria ser fonte de orgulho, era manchado por acusações sussurradas de bruxaria e prostituição. Cada passo que dava parecia um desafio para ser aceita.

Bonnie se lembrava com carinho da velha Yvaine, a curandeira do clã, uma senhora corcunda de cabelos prateados presos numa tiara feita de galhos secos e flores amarelas. Foi ela quem a ensinou a arte dos remédios e das ervas, quem a acolheu em seus momentos mais frágeis. Porém, o trágico fim de Yvaine, vítima das superstições e do medo das pessoas, deixou Bonnie com um luto profundo e um desencanto amargo. Saber que alguém tão bondosa havia morrido tentando salvar vidas fez com que ela desacreditasse nos deuses e em qualquer proteção divina. Por anos, questionou a existência de um poder superior, pedindo sinais e respostas que nunca chegavam.

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