The Gray
The Gray
Capítulo 15 min de lectura

The Grey

O som de galopes de cavalo ecoava pela estrada, fazendo a pequena Merope Gaunt levantar-se com pressa. A garota olhou para os lados verificando que nem seu pai nem seu irmão estavam próximos e então correu para a janela podre da casa para observá-lo. Ele, Tom Riddle.

Ao vê-lo se aproximar, a menina Gaunt quase que se escondeu atrás da parede de forma que, apesar de desconfortável, ela pudesse vê-lo, mas não pudesse ser vista. Assim que Tom ficou completamente em seu campo de visão em toda a sua gloriosidade, com seus cabelos negros brilhando e seus olhos cinza praticamente transparentes devido a luminosidade; o coração de Merope se acelerou.

Desde a primeira vez que o vira, ela ficara fascinada por ele. Ela logo percebera que o trouxa era tudo que faltava nela: bonito, autoconfiante e amado. E isso fora o principal motivo que a fizera vê-lo como a sua “alma gêmea”, afinal eles se completavam. Seus olhos divergentes brilhavam ao imaginar eles juntos.

Mas seus devaneios com o filho dos Riddle nunca duravam muito tempo. Tom sempre passava rápido por sua casa e o barulho dos galopes sempre chamava a atenção de Morfino, que aproveitava a situação para zombar dela e agredi-la. Além disso, ela passava muito tempo ocupada limpando, cozinhando e apanhando de seus únicos familiares, e a noite, quando supostamente teria tempo de pensar e devanear, ela estava mais preocupada com o frio, pois dormia em um colchão no chão com um lençol velho e furado em uma parte da casa.

Os poucos momentos que tinha para pensar no rapaz, porém, eram especiais. Quando ele passava, ela se perdia em seus olhos cinzas e imaginava como seria acordar todas as manhãs e olhar aqueles lindos olhos se abrindo ao seu lado, imaginava a textura de seus reluzentes cabelos negros, imaginava como seria tocar a pele pálida do rosto do rapaz. Apenas de imaginar, todos os pelos de seu corpo se arrepiavam. Isso devia ser o que as pessoas chamavam de amor.

Mas como tudo na vida de Mérope, seu príncipe encantado não estava ao seu alcance, pois além de ser trouxa, possuía um romance com uma rapariga loira chamada Cecília. Frequentemente, a Gaunt os via andando juntos a cavalo, tendo até derrubado um vaso de cera que segurava uma vez, fazendo com que seu pai e Morfino tivessem outra oportunidade de humilhá-la.

Mas mesmo sabendo que sua paixão era proibida, ela nunca desistia de Tom. Afinal para ela que não tinha nada, a leve chama de alegria que ele acendia em si era suficiente pra fazê-la aguentar, por mais difícil que fosse.

Na situação que Mérope se encontrava, até sonhar e imaginar se tornava meio impossível. Ela crescera sendo chamada de lixo, vesga, tralha, aborto, entre outras ofenças. E além disso, ela já se olhara no espelho e soubera desde aquele instante que teria que enfrentar a realidade: ela era incrivelmente feia. Seus cabelos negros eram sujos e mal cortados, sua pele era macilenta e seus dentes, amarelos. Nem de longe a bruxa era tão bonita quanto a acompanhante de Tom. Sua própria imagem lhe parecia tão horrível, que ela mesma tinha dificuldade de imaginar seu ser nojento perto do perfeito Tom Riddle.

Mas de certo modo, todo aquele destrato havia lhe feito bem. Afinal, por mais que doesse, ela sabia que não poderia piorar. Toda aquela dor acumulada a tornara mais fria, fria e resistente. Como aço. Como os olhos cinzentos de Tom Riddle. Talvez fosse toda aquela frieza que a impedira de sentir-se minimamente triste quando seu pai e seu irmão, aqueles que tanto a haviam destratado, serem mandados direto para Azkaban. Talvez fosse toda aquela frieza que a fizera sorrir ao ver os dois sendo arrastados para a prisão, indo embora de sua vida, a libertando.

A liberdade era nada menos que a sensação mais estranha que Mérope jamais havia sentido. E ela só a sentira de verdade horas depois da partida de seus dois únicos parentes, enquanto estava parada olhando para a porta pela qual os dois haviam partido antes e um som de galopes chegou aos seus ouvidos, somados a uma gargalhada que ela tanto conhecia. A liberdade lhe trouxe paz e ideias, ideias que tirariam a liberdade de outras pessoas.

Porém, tudo tem dois lados. E o lado ruim da frieza e da liberdade não demorou muito a atingir Mérope novamente. Sendo abandonada grávida, sozinha e pobre pelo rapaz que aprisionara e libertara com uma frieza que nem ela teria, deixando-a apenas com a memória de seus olhos cinzas quando eles haviam se fechado na noite que antecedera sua partida.

Tais olhos cinzas que ela se lembrava em seus últimos momentos, quando seu pequeno e lindo filho nascera, depois de todo o sofrimento que ela passara e todo o arrependimento que ela sentira, depois de ver todos os erros que cometera tão gravemente. E essa foi a ultima vez que viu os olhos de seu amado Tom. E antes de fechar os olhos pela ultima vez, Mérope apenas desejou ao destino que a perdoasse e não deixasse que seu filho cometesse tantos erros quanto ela, que seu filho não fosse tão frio. Mas o destino era cruel, e não estava pronto para perdoá-la.

Mal sabia a pobre Gaunt a quantidade de cinzas que aquele garoto de olhos cinzas não havia proporcionado com tanta frieza.

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