Estava caindo uma chuva torrencial lá fora antes que ele pudesse deixar a loja de conveniencia. Mesmo com o guarda-chuva, os pingos eram insistentes e molhavam todo o sueter do rapaz. Ele corria através da chuva e do frio, comuns de Outubro. Praguejava baixo pois seu estomago estava colado nas costas devido a fome, ainda tinha de estudar e amanhã, uma rotina cansativa no trabalho.
As ruas estavam apagadas e ele não prestava atenção no cenario. Estava hipnotizado pela fome que sentia e nada fazia seus olhos se desviarem do caminho. Tanto que não notou a poça no chão; seu sapato escorregou e ele foi ao chão. Berrou um ou dois palavrões e, enquanto se levantava, algo chamou sua atenção.
Num pequeno beco escuro e enlameado, entre duas casas, uma garota ria de forma discreta. Abraçava seus joelhos como forma de se proteger do frio.
Aos poucos o riso foi cessando e ambos mantiveram um forte contato visual.
Um carro passou levantando uma cortina de água. Por sorte da garota, o corpo do garota serviu como escudo, deixando-a ainda seca, na medida do possivel.
Ele grunhiu, irritado, fazendo-a rir novamente.
– O que você está fazendo aqui? — perguntou, irritado
Ela virou o rosto, envergonhada. — Nada.
– Então você veio fazer nada nesse beco escuro? — ela fez que sim com a cabeça, divertida — Isso é loucura. Onde estão seus pais? Aonde você mora? — tendo o silencio como resposta, revirou os olhos sentindo a irritação corroer seu corpo e a fome lhe dar pequenas tonturas. Estendeu a mão para ela, posicionando o guarda-chuva no ombro — Levanta.
– Pra quê? Você tem suas coisas pra fazer, estava com pressa.
– Essa é uma das coisas que eu tenho pra fazer: impedir que você pegue um resfriado.
E manteve a mão ali, firme, crente que ela aceitaria. Não compreendia a propria ação e apertou a mão em que a sacola estava, querendo desistir.
Ela se levantou, batendo as mãos pelo jeans imundo, como se isso fosse limpá-lo. Segurou sua mão com delicadeza e ele colocou o guarda-chuva sobre sua cabeça, iniciando uma caminhada.
– Tem comida lá? — ela perguntou, sem resignação.
– Seria melhor perguntar meu nome, não?
– Está levando uma garota desconhecida pra sua casa, provavelmente com segundas intenções. — ele apertou a mão sobre a pequena mão da garota, envergonhado — E nem comida vai dar para ela? Que feio, não?
– Se você quiser eu te devolvo pro beco onde te achei.
Ela simplesmente riu e continuaram o caminho em silencio, com o passo apressado.
***
– Essa é a minha casa. — ele disse, guardando o guarda-chuva e a jaqueta ensopada atrás da porta. — 'Tá meio bagunçanda porque eu ando sem tempo...
– Meio bagunçada é bondade e... — ele olhou de forma grave para ela — B-Bem, de qualquer forma...
– Escuta aqui, o banheiro é logo ali. Tem toalha nova lá. Eu vou preparar algo pra gente comer, você deve estar faminta. Certo?
Ela assentiu, deixando um rastro de lama pela sala. Ele simplesmente ignorou e foi para a cozinha.
A garota não demorou muito tempo no banho, mas ficou feliz por poder ver sua pele novamente. Enrolou a blusa branca, o jeans e as roupas intimas, e deixou-as, junto dos sapatos num canto do banheiro. Enrolou-se na toalha felpuda e quente, sentindo um calafrio pela troca de temperatura. Olhou ao redor, perguntando o que vestiria.
Por acaso, encontrou um rodo com um pano de chão apoiados na parede. Lembrou-se da trilha de lama na sala e partiu para lá, limpando as manchas no chão, muito silenciosa.
Já na cozinha ele estava tão absorto picando as cebolas roxas que mal percebeu qual ela deixou o rodo mal apoiado na parede, fazendo com que ele caisse. Ele apenas ouviu um grito agudo, que vinha da sala, e correu em disparada com a faca na mão, fazendo-a gritar de novo.
– Qual o seu problema, garota?!
– Eu 'tava tentando limpar a bagunça que eu fiz, aí não tinha roupas no banheiro, agora você com essa faca...! — ela hesitou, estreitando os olhos — Qual vai ser o proximo passo? Vai dizer que eu sou o jantar?
Ele ia protestar, mas apenas abanou a mão de forma agitada, levando a faca até o balcão. — Espera aí que eu vou buscar alguma coisa pra você se vestir.
E partiu para o quarto que, como o resto dos comodos, não era muito grande. Cavucou no armario e encontro um velho abrigo cinzento, grande o bastante para cobrir o corpo e as coxas da garota, assim ele esperava.
Sentou-se na cama e contemplou a situação.
Uma garota seminua em sua sala. E uma panela no no fogo.
– Panela no fogo! — ele exclamou, correndo para a cozinha — Como que eu fui... Ei?
– Sim?
– Você cozinha?
– Aparentemente. — ela respondeu de jeito simples, derramando o macarrão cozido no escorredor
– Mas como raios você se chama?
– Merrydan, e você?
Ele jogou o abrigo para ela em resposta. Nas costas, em letras maiusculas, estava bordado seu nome.
– Oliver? Belo nome, huh? — antes que ele pudesse agradecer, ela completou — Agora que já sabemos nossos nomes, e não somos estranhos, pode ir tomar banho e deixar a cozinha comigo.
Merrydan abriu um largo sorriso que teve um efeito calmante sobre o corpo de Oliver. no mesmo segundo, todas as suas preocupações e ansiedades se dissiparam no ar, ele assentiu e partiu para o banho.
Estando sozinha na cozinha, deixou a toalha sobre uma das cadeiras e vestiu o abrigo, estranhando a liberdade do corpo sob o pano desconhecido. Procurou se acostumar logo à sensação para voltar para o molho de tomate que fumegava na panela.
Quando Oliver saiu do banho, Merry foi ao seu encontro. Ele hesitou, contraindo os labios, pressionando a toalha pelos cabelos molhados.
– O jantar está pronto. — ela declarou, sorrindo — Eu não sabia o que você ia fazer, então eu só joguei um macarrão na água e
– Não, tudo bem, está ótimo... Eu só...
– Por que você...
– Eu?
Ela engoliu em seco, mexendo na barra do abrigo, mirando algum canto qualquer.
– Não quer que eu seque seu cabelo enquanto o macarrão esfria um pouco?
– O quê?!
As bochechas palidas do rapaz coraram de forma violenta, mas Merrydan ignorou-as, puxando-o pelo pulso. Sentou-se no sofá, batendo as mãos sobre ambas a coxas.
– Vem, coloca a cabeça aqui.
– O quê?! — ele exclamou de novo.
Novamente, ela o puxou, fazendo com que se sentasse com a cabeça entre suas pernas. Tomou a toalha de suas mãos, e começou a friccioná-la contra os cabelos, de forma cuidadosa.
– Viu, não é tão ruim?
– Vamos apenas fingir que você não está sem...
– Shh, fica quieto! — ela pressionou os dedos contra seu couro cabeludo em certos pontos, fazendo-o gemer de dor — Não tem problema eu ficar aqui?
– Tirando o fato de você ser chata pra caramba, não. Problema algum. Eu moro sozinho, afinal.
– Não fale assim comigo, eu estou secando seu cabelo! — ele riu da frustração da garota, mas parou quando sentiu o rosto dela perto do seu — Não se sente sozinho por morar sozinho?
– Ahn, não... Não muito, eu acho... Me acostumei.
– E você tem algo importante pra amanhã?
– Trabalho e faculdade. Por quê?
– Nada demais...Só pensei que...
– Que...?
– Seria divertido passar um dia com uma completa estranha que você conheceu em uma tempestade.
Ambos abriram um sorriso iluminado, mas nenhum dos dois percebeu, infelizmente.
– Seria ótimo! Pena ser loucura também.
Ambos os sorrisos esmoreceram, dando lugar para duas feições cansadas e sonolentas. Merrydan não havia dito mais nada e aos poucos, o toque em sua cabeça se tornava cada vez mais suave, até ele perceber que não havia mais toque algum.
– Merrydan? — chamou-a, virando a cabeça. Descobriu-a em um calmo sono, com a cabeça tombada de lado. Bocejou e, não querendo pensar nas escolhas que tinha, adormeceu ali mesmo, entre as coxas de Merrydan.