Passei o resto da tarde deitada.
Havia prometido a mim mesma que não ficaria pensando no passado, que não ficaria imaginando como ele havia sido, mas eu não consegui.
Não consegui parar de pensar neles, nos meus meninos, em meus filhos.
Me doía não lembrar deles, não saber do que eles gostavam, de suas vozes, de suas risadas... Não lembrar de nada além de rostos desfocadas e nomes....
Váli e Narfi, meus filhos, fiquei murmurando aqueles nomes durante horas, como se de alguma forma aquilo me aproximasse deles, mas o vazio continuava ali como aquela casa tão silenciosa.
O tal Loki, meu marido, havia sumido, me deixando sozinha de novo.
Embora não me lembrasse dele e apesar de toda a confusão de sentimentos ambíguos que ele despertava, queria que ele estivesse aqui comigo, me abraçando e me fazendo companhia, mas ele parecia tão frio e distante que era difícil acreditar que isso pudesse acontecer, ou tivesse acontecido algum dia.
Na verdade, era difícil acreditar que ele era meu marido, que ele era tudo o que eu tinha, que cuidava de mim e suportava a minha falta de memória, por sinal todos os dias.
Soltei um suspiro ao pensar naqueles olhos verdes, será que algum dia eu o amei? Será que era correspondida?
Perguntas tolas, eu sei, mas eu gostaria de saber as respostas, mesmo que eu esquecesse no dia seguinte, daqui algumas horas.
Era tão frustrante saber que amanhã não me lembraria de nada, que minha vida se resumia a dias aleatórios e sem continuidade, não queria acreditar nisso, não queria viver essa vida vazia. E esse último pensamento me fez criar coragem de levantar da cama depois de horas.
Dei algumas voltas aleatórias pelo quarto, tentando trazer alguma lembrança de volta, porém nada ali me era familiar, com exceção daquele quadro, daquele rosto que agora eu sabia que pertencia a mim.
Tateei a tela da pintura com curiosidade, era uma pintura muito bem feita e detalhista, me perguntava quem poderia tê-la feito quando reparei em uma assinatura pequena e discreta no canto inferior esquerdo.
Um sorriso bobo surgiu em meus lábios ao reconhecer aquele nome.
“Loki Odinson”, li em voz alta e de repente senti uma grande ternura pelo autor daquela obra, meu marido, fiquei imaginando o tempo que ele deveria ter gasto na pintura e senti vontade de abraça-lo por isso.
Perguntaria sobre o quadro quando ele voltasse.
Sorri com aquele pensamento e certamente eu estava com uma expressão boba no rosto quando um barulho estranho vindo do corredor roubou a minha atenção.
Com uma mistura de curiosidade e medo vaguei lentamente em direção a porta, girando a maçaneta com certo receio, vasculhei o corredor vazio assim que abri a porta, deixando para trás a segurança de meu quarto.
— Loki? É você? – perguntei com uma voz trêmula.
Não obtive resposta, ouvi outro estrondo, dessa vez mais alto e minhas pernas começaram a se mover sozinha em direção a sala. Me apoiando na parede eu parei bruscamente de andar quando uma bola de pelos branca passou bem a minha frente, na sala. Acompanhei o objeto com estranheza, a bola vagou rapidamente pela sala, batendo em alguns móveis pelo caminho até que parou e olhos verdes como esmeraldas surgiram entre os pelos.
Surpresa, recuei dois passos para trás, a bola começou a caminhar em minha direção feito um lobo. Uma sensação de pânico começou a se alastrar pelo meu corpo, pensei em gritar por ajuda, mas toda aquela sensação de desespero sumiu no momento que os olhos verdes do lobo focaram nos meus.
O animal continuou vagando em minha direção e automaticamente me abaixei quando ele se aproximou, parando a centímetros de mim e me encarando, não resisti ao impulso de passar uma de minhas mãos pela pelagem branca como a neve.
O lobo não pareceu surpreso com o meu ato, muito pelo contrário, ele pareceu estranhamente confortável. Talvez ele fosse algum tipo de animal de estimação. Continuei o acariciando até que encontrei algumas manchas vermelhas na pele atrás de suas orelhas.
— Esta ferido... – murmurei me sentido de repente triste e melancólica – Eu vou cuidar de você... – comentei ainda o acariciando.
O lobo fechou os olhos diante do meu toque, como se confiasse em mim, como se me conhecesse. Sorri com aquela possibilidade, talvez não fosse apenas Loki e eu naquela casa.
— Você vai ficar bem logo, quando Loki voltar...
Parei de falar quando o lobo começou a ficar agitado, se afastando de meu toque, grunhindo como se estivesse assustado.
— Ei, se acalme. – pedi um pouco assustada – Por que você ficou assim? – perguntei como se de alguma forma o lobo pudesse me entender.
Ele voltou a grunhir, agora olhando para uma janela que havia do outro lado da sala.
— Não o entendo... – comentei vagamente.
Tentei olhar na mesma direção dele, acompanhando seu olhar assustado, e encontrei apenas a janela e uma mesa sobre a qual estava aquele mesmo elmo dourado de antes.
Engoli em seco com aquilo, será que o lobo estava assim por causa do elmo? Por causa do Loki?
— Está assim por causa do Loki? – comentei bobamente.
O lobo voltou a se agitar, grunhindo alto, ainda observando o elmo.
Fiquei sem reação.
Será que ele e Loki não se davam bem?
— Por favor, fique calmo, Loki não vai machucar você...
Como se compreendesse o que eu falava o animal pareceu se acalmar e voltou a caminhar em minha direção. Me permiti observá-lo melhor, o lobo era pequeno e branco, parecia frágil e desnutrido, era possível ver as marcas de suas costelas na pelagem branca e maltratada. Me senti triste com aquela visão e meus olhos começaram a se encher de lágrimas sem um motivo aparente. Voltei a estender minha mão em direção a ele e notei pela primeira vez o cordão dourado que estava no pescoço do animal, havia um pequeno pingente ali e uma chave amarrada por um barbante.
Toquei a chave com certo receio, ela parecia ser algo importante.
— O que essa chave abre? – perguntei confusa.
O lobo me encarou e saiu correndo em direção ao corredor de meu quarto, fui atrás dele antes que conseguisse pensar em alguma coisa. O lobo havia entrado no meu quarto e estava parado em frente a um guarda roupa simples e pequeno.
Peguei a chave que estava presa no barbante e comecei a procurar algum lugar que a pudesse usá-la. Abri a porta dupla do guarda roupa e examinei o local com atenção, não vi nada além de roupas, possivelmente minhas. Tateei os belos tecido com certo fascínio, mas nada me era familiar, escorreguei minhas mãos por entre as roupas até encontrar uma estrutura diferente, apalpei o objeto com curiosidade e percebi se tratar de um pequeno baú. Retirei o material do guarda roupa, havia uma fechadura nele, instintivamente tentei abrir a caixa com a chave, não antes de observar o lobo mais uma vez.
Ele parecia me incentivar com o olhar, abri a caixa lentamente e dentro dela havia várias conchas do mar. Por que alguém guardaria aquilo?
Revirei a pequena caixa e notei que sobre algumas das conchas haviam datas esculpidas, achei aquilo no mínimo estranho e peguei uma delas, uma aura vermelha surgiu dela e então eu escutei uma voz. Minha voz.
“Fuja. Fuja de Loki, ele não é confiável”. A voz dizia, aquilo me deixou chocada, uma nova onda de palavras começou a surgir da pequena concha, feito mágica, e pararam repentinamente quando a aura vermelha desapareceu embalada pela voz fria que me deixou aterrorizada.
— O que está fazendo, Sigyn?
Me virei para trás assustada e a visão daqueles olhos verdes e acusatórias me deixaram em pânico.
— Loki... – murmurei ainda chocada.
— O que está fazendo? – ele voltou a repetir com seu tom frio e minha mente parecia ser incapaz de respondê-lo.
Quem era aquele homem? Quem era Loki afinal?

