nightdreaming
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Chapter 110 min read

De volta para casa

Entrei no prédio em silêncio, sabia que os vizinhos estavam dormindo. Demorei para encontrar a chave da porta. Assim que cheguei, fui recebido com festa por aquele cachorro bobo que talvez fosse a única criatura que ainda me amasse naquele estado deplorável. Me ajoelhei no chão para não ser derrubado e me concentrei em questões existenciais de grande relevância enquanto Sortudo me lambia o rosto. Três meses na Austrália com identidade falsa, agindo como outra pessoa e no final recebendo tiros e porrada de todos os lados... precisava relembrar algumas coisinhas.

Meu nome é Clinton Francis Barton, quando estou trabalhando sou conhecido como Gavião Arqueiro e quando não estou me chamam de Clint. Nasci em Waverly, Iowa, tenho (ou tinha) um irmão problemático chamado Barney, sou um membro dos Vingadores, espião e atirador da S.H.I.E.L.D. Moro em um prédio no Brooklyn que comprei e só me trouxe dor de cabeça, tenho um cachorro chamado Sortudo, que também atende por Mozzarela e Flecha. Minhas melhores amigas são Natasha Romanoff, conhecida como Viúva Negra, e Kate Bishop, que assumiu a identidade de Gaviã Arqueira. Minha cor favorita é roxo, sou viciado em café e pizza, o melhor seriado é Dog Cops. Estou atualmente apaixonado pelo homem olhando para mim, provavelmente se perguntando o que eu faço parado no escuro.

–Oi, Bruce- acendi as luzes e não consegui evitar meu hábito de coçar a nuca- Sentiu minha falta?

–Por que não estou surpreso em ver que não está surpreso ao me ver? -Ele atravessou a sala e passou os braços em volta do meu pescoço, num abraço confortável e quentinho que me fez suspirar -Você está horrível, machucado e precisando de um banho.

–Ahm...obrigado?

–Besta- ele me deu um leve tapa no braço- Sério, já pro banheiro. Você realmente precisa de um banho.

Bom, com Hulk não se discute. Beijei aquela testa inteligente, peguei uma toalha e me enfiei embaixo do chuveiro. Como as pessoas podem desmerecer o bom e velho chuveiro de casa? Ele é quase sempre muito frio ou muito quente, porém nada como o ambiente familiar do seu próprio banheiro sem a Viúva Negra se depilando do lado. Há quanto tempo eu não tinha cinco minutos sozinho e agindo como eu mesmo?

Tiros. Foram três, com um intervalo de cinco segundos entre o primeiro e os outros dois.

Estava fazendo a barba e saí correndo do banheiro, só de cueca, com arco e flechas na mão.

–Clint? O que aconteceu?

Bruce parecia confuso.

Mais um tiro e uma explosão tão alta que me fez levar as mãos aos ouvidos, deixando o equipamento cair.

–Clint!

Ele estava na minha frente, segurando meu rosto e expressava pura preocupação. Olhei em volta e tudo estava normal, nem sinal de agitação do lado de fora.

–Vem, vou te ajudar com os curativos antes de se vestir.

Peguei a mão que ele ofereceu e desabei no sofá, me arrependendo quando minha coluna já não tão jovem absorveu o impacto. Bruce se ajoelhou no chão e abriu sua caixinha mágica de primeiros socorros e sedativos potentes. Começou pelas feridas mais fáceis, que só precisavam de um curativo simples e existiam aos montes.

A mão que estava cuidando dos arranhões em meu rosto se aproximou com mais velocidade e força do que necessário, o punho estava cerrado.

Instintivamente bloqueei o movimento e teria revidado, não fosse um som gutural e o leve brilho esverdeado nos olhos do meu companheiro. Como pude pensar que ele me agrediria? Estávamos juntos há pouco tempo, é verdade, mas eu e Bruce dividíamos a confiança de quem sabe exatamente como é ter uma família desequilibrada e matar pessoas sem querer. Minha paranoia com segurança tinha agora me colocado numa situação extrema.

–Bruce? Me perdoa, não sei o que se passou pela minha cabeça. Sabe que eu não te machucaria, não é?

–Não confia em mim- A voz dele era uma mágoa compreensiva e decepcionada.

–É claro que confio! Você é o único homem que eu trouxe no meu apartamento, que contei sobre o meu passado. Entreguei minha vida nas suas mãos mesmo quando não estava em sua consciência completa, me deixei amar. Confio nocê o suficiente pra dormir do seu lado.

–“Nocê”? O que é isso, resquício de sotaque sulista mesmo depois de todo o treinamento da S.H.I.E.L.D.?

O pequeno sorriso nos lábios dele me fez soltar um suspiro aliviado.

–Acontece quando fico nervoso. Ou bêbado.

Nossa troca de olhares me disse que eu estava perdoado, mas é claro que um membro dos Vingadores não deixaria barato. Fui empurrado no sofá ele e começou a aplicar álcool sobre minhas feridas, provocando uma careta com aquele jeito nada delicado.

–Bruce, querido, eu sei que gosto de fazer as coisas com um pouco de força e brutalidade, mas isso definitivamente não se aplica a tratamentos médicos.

Ele desviou o rosto para esconder o leve avermelhado que se espalhou ali e mudou de assunto. Adorável.

–Me diga, gavião machucado, por que raios você saiu do banheiro de cueca e com arco na mão?

–Ouvi tiros.

–E ali na porta?

–Uma explosão.

–Depois achou que eu ia te bater?

–Parecia que estava com o punho fechado, vindo rápido demais. Acha que minha loucura finalmente evoluiu o suficiente pra precisar me internar?

–Acho que está perturbado por causa da missão.

–Ah qual é! Bruce, faço isso há anos.

–Essa foi a mais longa que teve desde que estamos juntos e, pelos machucados, deve ter sido especialmente violenta.

–Já tive piores.

–Eu sei que não pode me dizer nada, mas também sei que teve algo de diferente nela. Você nunca tinha voltado sem um sorriso antes, nem quando tinha um braço quebrado e três buracos de tiro pelo corpo.

–Aquilo é rotina. O que aconteceu nessa missão...eu quase estraguei tudo, tá legal? Me envolvi. Não cosegui ser indiferente, frio e calculista. No fim tive que fazer uma escolha pra salvar o que tinha estragado e acabei com todo mundo. Muita gente morreu pelas minhas mãos e por minha causa, não só os caras maus. É o que Fury fala: eu sou a variável humana que pode salvar ou destruir toda uma operação. Sou um ótimo lutador, atirador e estrategista, mas um péssimo agente. O que tá me deixando ressabiado é que esse tipo de coisa já aconteceu milhares de vezes em missões. Por que diabos essa me deixou mais maluco do que já sou?

–Porque foi a primeira desde...o início dos Vingadores.

Entendi o que ele queria dizer imediatamente. Desde New York. Loki. Quando matei diversos colegas e lutei com a Viúva Negra.

Fiquei em silêncio por um longo minuto, sentindo apenas a mão reconfortante de Bruce sobre meu ombro. Mas quem era aquele suspirando pelos cantos? Com certeza não era Clint Barton chegando em casa com um homem charmoso como aquele cientista esperando por ele. Levantei para pegar a aliança que tinha deixado em cima da cama e quase a deixei cair quando ouvi um “bip” saindo dela.

–Clint, coloque a aliança.

Ele tinha ouvido e parecia mais alarmado do que surpreso. Fiz o que disse e ouvi outro “bip”, seguido por um Bruce ligando seu tablet numa velocidade impressionante. Esperei o que considerei tempo suficiente para um gênio fazer o que precisava e resolvi sanar minha curiosidade.

–Acho que você tem algo pra me dizer, não tem?

–Hum...Clint, me desculpe.

–Bom, não posso te desculpar se não souber o motivo. O que é esse bip? Você é mais ciumento do que eu pensei e estava me rastreando?

Recebi um olhar repreensivo pela brincadeira fora de hora.

–É um dispositivo que mede os níveis de radiação no seu corpo. Resolvi colocar um na aliança porque fiquei preocupado quando as coisas começaram a...progredir entre nós.

Naquele momento não sabia se ficava preocupado por estar com altos níveis de radiação, bravo com Bruce por ter me escondido aquilo ou se o beijava por parecer tão fofo escondendo o constrangimento sob seu discurso de tom profissional.

–Juro que não transei com nenhum cara contaminado por raios gama enquanto estive fora.

–Sério? Que bom, porque o “outro cara” não gosta de dividir.

–Ele, né? Sei.

–Vamos nos concentrar? Você tem radiação gama em níveis elevados passeando pela corrente sanguínea.

–De onde isso pode ter vindo?

–Tenho um palpite e só precisamos de uma ligação para confirmá-lo.

–O que seria?

–Primeiro você precisa me explicar em que sentido prejudicou sua missão.

–Bruce, eu não...

–Confia em mim.

–É a primeira vez que estou quebrando um protocolo da S.H.I.E.L.D.

–Tem um bom motivo pra isso, pode acreditar.

–Crianças abandonadas sempre mexem comigo e você sabe o motivo. Me envolvi demais, deixei de passar detalhes importantes. Depois tentei salvar todos os civis e fui um péssimo líder, a equipe acabou comprometida e eu tive que sacrificar alguns pra evitar vazamento de informações. Matei gente com quem eu almoçava todos os dias, Bruce.

–Não acha isso...familiar?

–O que quer dizer?

–Você matando colegas de trabalho, ilusões, radiação gama...minha teoria é de que você foi induzido a cometer erros.

–Loki não está mais aqui.

–Mas o cetro está. E Thor teve problemas mês passado.

–Fiquei sabendo. Disseram que o desgraçado do irmãozinho dele morreu.

–Minha opinião é de que ele morreu em um momento muito conveniente.

–Acha que Loki pode estar vivo e interferindo nesse mundo através do cetro?

–Vaso ruim não quebra, não é o que dizem? Além do mais, o Tesseract foi levado para Asgard. Ele tem a matriz lá em cima e uma filial nesse mundo. Você foi tocado pelo cetro. Mesmo com a descontaminação, ainda podem haver resquícios radioativos no seu corpo que se expandiram com a ativação da fonte de energia.

–Estou ligando pro Fury.

–Espera. Fury vai te levar e deixar em quarentena sem ter condições de descobrir se o cetro foi ativado ou não. Vou mandar uma mensagem pro Selvig e amanhã vou lá trabalhar com ele nessa teoria.

–Tudo isso é pra dormir agarradinho comigo?

–Eu não sou afetado por radiação, em todo caso.

A resposta e o rosto avermelhado de Bruce foram demais pra mim, precisei beijá-lo imediatamente. Quando já estávamos ofegantes delizei minha mão alguns centímetros por baixo da camiseta que ele usava, mas fui impedido de continuar.

–Sem gracinhas, Barton. Vamos dormir.

Tentei a técnica do beicinho pidão, mesmo sabendo que ela nunca funcionava com o temível Robert Bruce Banner. Ele me puxou pela mão e nos posicionamos confortavelmente na minha cama. Ali, com o nariz mergulhado nos cachos grisalhos, meu braço envolvendo seu corpo e Sortudo deitado em nossos pés, eu finalmente estava em casa depois de três meses no inferno. Logo toda a loucura recomeçaria, mas no momento eu só estava preocupado com aquela respiração tranquila de encontro ao meu peito e o motivo de ele ter trocado o aroma do shampoo.

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