moving on
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Capítulo 111 min de lectura

O segredo é não olhar para trás

Foi um beijo calmo e "estranho", ela pensou. Abriu os olhos lentamente, mas quem ela enxergou a sua frente não era exatamente quem desejava que estivesse ali. Encarou aqueles olhos novamente, eles eram bonitos, admitiu. Aliás, o rapaz que estava ali não era nada mal. Cabelos escuros, olhos claros, alto e uma pele levemente morena. Ela até sentia uma pequena atração. Mas era apenas algo físico, e nada mais.

Aproximaram os rostos e mais uma vez se beijaram, e mais uma vez foi um beijo calmo e estranho. Mas por que estranho? Porque era como um banho frio num dia de inverno. Era um beijo sem calor algum. Pelo menos da parte dela era assim.

Ela passava a mão delicadamente pela nuca do rapaz, enquanto ele acariciava seus cabelos. E ficaram assim até um bom tempo, até ambos perceberem que também precisavam de ar. Ela passou a fitar o chão, enquanto uma avalanche de pensamentos se seguiam. Ele volta e meia encarava-a, e depois olhava para os lados, mas ninguém dizia uma palavra.

— E então? — O garoto riu. Seus dentes eram perfeitamente alinhados e brancos. Ela amava aquele sorriso, e amava o modo como os seus olhos brilhavam, tão intensos. — Que tal apostar uma corrida até a sorveteria? Quem chegar por último paga a conta!

– Idiota. — Ela respondeu, embora a ideia não fosse ruim. Sorriu de canto, sarcástica. — Você sabe que sempre perde para mim.

Os dois começaram a corrida, mas não sabiam exatamente o que fazer direito: correr ou dar gargalhadas.

— Então — Ele quebrou o silêncio. — Quer dar uma volta?

Ela saiu do transe e voltou seus olhos para ele, sem responder. Pensou "por que não?"afinal, dar um breve passeio não poderia ser assim tão ruim.

— Tudo bem. — Ela disse. Não poderia haver problema nisso, poderia? Ela o conhecia há bastante tempo, chegaram a estudar juntos. E mesmo após terem concluído os estudos há um ano e meio, ainda mantinham contato. A companhia era agradável. Ele era um rapaz simpático e inteligente. Tratava-a bem e nunca lhe faltou com respeito. Mas ela não entendia por que se sentia daquele jeito. Tão vazia. Tão sei lá.

— Você foi incrível. — A garota dizia, enquanto entrelaçava sua mão na dele. Eles caminhavam juntos após saírem do colégio.O garoto fazia parte do time de baseball, era o capitão, e graças a ele o colégio deles havia ganhado a partida.

— Obrigado! — Ele respondeu, abrindo um largo sorriso. — Mas tudo isso foi graças a você!

— A mim? — Ela indagou. A única coisa que fez foi sentar-se na arquibancada, enquanto roía as unhas por nervosismo, vibrava a cada minuto da partida e às vezes, até soltava alguns palavrões. — Mas eu não fiz nada, quem jogou foi você.

— Sim, eu sei. — Ele continuou sorrindo. — Mas você estava lá torcendo por mim. Graças a isso eu pude dar o meu melhor naquele jogo.

Ela não respondeu, apenas parou de caminhar e o garoto fez uma expressão interrogativa. No minuto seguinte, ela entrelaçou seus braços ao redor do pescoço dele, e o beijou.

Caminhavam lado a lado em um parque, conversando sobre o tempo e coisas aleatórias. Havia uma grande fonte no centro, e ao redor inúmeras árvores floridas, cujas folhas e pétalas enfeitavam o chão e cobriam os pequenos bancos de madeira escura. Até que resolveram sentar-se, e ficaram encarando a paisagem. O dia estava bastante quente, embora ainda fosse primavera. Uma gostosa brisa passou, bagunçando seus cabelos. Ela ajeitou a franja para o lado, e foi naquele momento que viu algo inesperado.

— Eu estou indo embora. — As palavras foram pronunciadas de forma clara para que ela pudesse ouvir perfeitamente. Ela não parecia acreditar, pensava que era sua mente lhe pregando peças. — Mas não se preocupe, provavelmente voltarei dentro de três anos ou menos, se puder.

— Você...o que? — Foi o que ela conseguiu responder naquele momento. Um sentimento incômodo surgia em seu peito.

— Estou indo embora. — Ele repetiu, estava nervoso. — Você sabe, meu pai quer que eu estude fora, diz que é o melhor para mim. Mas vou ficar por pouco tempo, só para saber como é lá e fazer um curso breve e logo depois estou de volta. Eu queria que você fosse junto, mas você teria que abrir mão de muitas coisas, então... — Ele parou de falar. Encarava-a com aqueles olhos claros e ansiosos por alguma resposta.

— Então você vai me deixar. — Ela disse, e desviou os olhos enquanto tentava teimosamente "desatar" o nó que se formava em sua garganta.

— Você ouviu o que eu disse? Eu vou voltar, é só questão de..

— Três anos. — Ela o cortou. — Como você acha que vou ficar durante esse tempo? Você vai para outro lugar, obviamente conhecerá novas pessoas, novas garotas... — Essa última frase ela disse um pouco mais baixo, embora não o suficiente para que ele não pudesse ouvir.

— Você acha que eu vou trocar você? — Ele estava sério, era raro ele ficar daquela forma. Normalmente ele sempre mantinha um bom humor, sorriso nos lábios e expressão sonhadora no rosto.

— Tudo pode acontecer. — Ela ainda evitava olhá-lo diretamente.— Três anos é muita coisa.

— Achei que você confiasse em mim. — Havia um tom de ofensa na voz dele. — Depois de tudo o que passamos, eu pelo menos merecia um pouco mais de confiança da sua parte.

— Você sempre encara as coisas como se fossem simples demais, esse é o seu problema. — Ela respondeu, e passou a fitá-lo dessa vez. — O tempo que você ficará fora é muito longo, sem falar na distância. Não podemos nos contentar apenas com telefonemas ou troca de e-mails, você sabe que não. Uma hora ou outra você sentirá vontade de conhecer alguém, e isso é algo que não posso impedir. O melhor a se fazer é... — Ela não conseguiu terminar a frase. Aliás, não poderia. Sabia que devia fazê-lo, mas não tinha coragem para tal.

— Você quer terminar, é isso? — Ele estava surpreso.

— Sim. — Ela disse, quase vacilou naquele momento.

Ele estava com os punhos cerrados, como se tentasse disfarçar que estava tremendo, mas era impossível. Seus olhos, sempre tão brilhantes e alegres, olhos que ela tanto amava e passava horas encarando e admirando, agora encontravam-se opacos, embora estivessem levemente marejados.

— Desculpe. — Ela falou, enquanto abaixava a cabeça para não ter que encará-lo. — Mas é tempo demais, não é como se eu pudesse esperar.

E dito isso, ela virou-se e prosseguiu com seu caminho.

"Droga, o que estou fazendo?" Ela pensou, mas o orgulho a impedia de voltar. "Por favor, venha atrás mim! Eu juro que se você vier atrás de mim nesse instante, eu espero até uma eternidade por você."

No entanto, ele não a seguiu. E ela não olhou para trás.

Era definitivamente um belo rapaz, assim como o que estava ali, sentado ao seu lado naquele instante. Cabelos igualmente escuros e rebeldes, porém os olhos e a pele uma tonalidade mais clara. Os olhos mais lindos que ela já vira na vida. Ele sorria, e tinha uma expressão boba no rosto, parecia muito feliz. Olhou rapidamente o rapaz a seu lado, para depois voltar sua atenção para o outro, eles eram parecidos. Deu um sorriso amargo. Eu sou mesmo patética,pensou. Instintivamente seu coração acelerou. Doía, ela não podia negar, mas um calor começava a aquecê-la por dentro. Calor este jamais obtido enquanto trocava carícias com o rapaz que ainda estava ali ao lado. Mas era a única coisa que tinha. Era frieza de sua parte. Sabia dos sentimentos do rapaz, e não deveria brincar com eles do modo como estava fazendo.

— Você ainda gosta dele, não é? — O rapaz falou. Tomou um leve susto. Não esperava ter que voltar a tocar naquele assunto.

— Não seja idiota, é claro que não. — Respondeu. Sempre respondia daquela maneira. Mentira, óbvio. E ele percebeu, e suspirou logo em seguida.

— Olha, sabe que não precisa mentir para mim, não é? — Ele sorriu. — Além do mais, dá para perceber isso só de olhar para você. — Ele riu, e a garota fechou a cara.

— Se sabe disso, então por que me perguntou? — Ela não queria parecer rude. Fora assim sua vida inteira, então o rapaz já entendia seu modo de falar e não se importava mais.

— Queria ver se você já era capaz de admitir para si mesma o que você deseja realmente.

Ela voltou a encarar o rapaz que estava ali a poucos metros. Ele estava com alguns amigos, e havia uma garota no grupo, de mãos dadas a ele. Eles riam enquanto andavam pelo parque.

Ela encarou o chão.

— Não é questão de admitir o que eu realmente desejo, é apenas... — Sua voz falhou. Era doloroso. — Estou apenas me pondo em meu lugar. Sei que o que quero não está mais ao meu alcance, e grande parte disso é minha culpa. — Suspirou. — Fui impaciente, deixei escapar por meus dedos a coisa mais preciosa que tinha. Mas estou tentando seguir em frente, você sabe disso.

— Sim, eu sei. — Ele respondeu. — Você está me usando para ver se consegue esquecer outra pessoa, você é mesmo muito má.

— Idiota! — Ela deu um tapa no braço do rapaz, que riu. — Você disse que poderia... me ajudar a esquecer. — Ela desviou o olhar.

— Eu sei que disse, sua boba, estava apenas brincando. — Ele puxou o rosto dela, fazendo-a encará-lo. — Sei que posso te fazer feliz. Pode levar algum tempo até seus sentimentos mudarem, mas saiba que eu esperarei.

Ela fitou aqueles olhos claros, sem saber o que fazer. Não havia muito o que dizer naquele momento, apesar de já terem tido aquele diálogo inúmeras vezes. Apenas um nó formou-se em sua garganta, mas ela se segurou para não fazer nada que considerasse vergonhoso, como chorar.

— Você merece coisa melhor, sabe disso. — Foi o que conseguiu dizer, e era verdade. Nunca fora merecedora dos sentimentos que estava recebendo. Beijar uma pessoa enquanto pensa em outra não é algo que pessoas boas fariam. Ela era mesmo desprezível.

— Mas eu gosto de você. — Ele respondeu, simples e claro como sempre fora. — Nada vai me fazer mudar de ideia. Eu a conheço muito bem e sei que é uma garota incrível e por isso eu gosto tanto de você. Não pense que se livrará de mim tão fácil. — Ele riu, e beijou-a, como sempre fazia. Ela correspondeu, e uma pequena chama começava a se formar, bem no fundo de seu coração. Pequena, mas que a aquecia e fazia a dor cessar, mesmo que pouco.

Então, o outro rapaz passou em frente ao local que ela e seu amigo estavam, juntamente de seus próprios amigos e a garota segurando seu braço. Ele encarou-a, levemente surpreso, sorriu e acenou enquanto prosseguia a caminhada. Seu coração falhou uma batida, não podia negar, mas dessa vez ela tentaria esquecê-lo de verdade. Poderia levar uma semana, mês ou ano, mas ela o esqueceria. O outro já havia prosseguido com sua vida. Como ela havia previsto, conhecera outra garota e agora já até andavam de mãos dadas em público. Aquela cena fazia-a sentir-se extremamente deprimida, mas teria que aprender a não se importar com aquilo. Ela também tinha que seguir em frente.

— Venha comigo. — Ele levantou e estendeu a mão para ela. Ela encarou-o surpresa, mas logo estavam de mãos dadas e caminhavam calmamente sem rumo. Ela havia entendido aquela atitude dele e sorriu. Amá-lo não seria difícil como ela pensava, afinal.

Ela segurou a mão dele mais firme, arrancando um pequeno sorriso dos lábios rosados do rapaz. Ele encarou-a, aqueles olhos que tanto lembravam um outro alguém, fitavam-na de maneira carinhosa e divertida.

Ela sorriu mais abertamente, e eles foram embora do parque. Ela não olhou para trás.

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