Ao andar pelas ruas de Cabul,Shao Ren observava o povo andando ao seu redor.Via aquelas pessoas tão pobres,quase sem nada,e ainda assim sorridentes como se nada de ruim lhes tivesse acontecido.

\"Esse povo já sofreu tanto e ainda sorri\",Shao Ren pensou.\"Eles não tem praticamente nada para chamar de seu,e ainda assim reconstroem tudo e seguem em frente.\"

Shao Ren andou mais alguns quilometros até sair de Cabul.Então parou em um grande monte de areia e esperou o vento soprar.

Há anos ela fazia o mesmo treino todos os dias,e ainda ssim parecia não ter se acostumado.Enquanto tirava os panos de tecido pesado que dificultavam os exercícios,Shao Ren deixava suas memórias andarem para trás.

Até uma época em que,prar ela,não era importante ter dinheiro ou poder.Bastava lhe darem um sorriso e ela retribuía,feliz como se mais nada importasse.

Shao Ren respirou fundo e fechou os olhos.

Precisava se concentrar para terminar logo a missão.

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O lugar onde a garota estava presa ficava afastado do centro de Cabul,em uma daquelas vizinhanças tranquilas exceto pelos ocasionais bombardeios entre as tropas americanas e a Al-Quaeda.Shao Ren andava bem devagar para não ser notada.Próximos a ela,dois meninos brigavam por causa de um boneco de uma perna só.

-Me dá!Eu achei primeiro!!-disse um.

-Nem pensar!!!EU é que vou ficar com ele!!!-exclamou o outro.Shao Ren simplesmente abanou a cabeça e continuou a esquadrinhar a casa,procurando uma maneira de entrar sem fazer barulho.E,para sua surpresa,estava se relembrando das palavras de seu avo,ditas há tanto tempo.

\"Vovo,por que a mamãe disse que não podemos ficar com o Pang?\",perguntou uma Shao Ren ainda criança,em um vilarejo no interior da China e com longos cabelos negros como nanquim.Seu avo,um homem com grande sabedoria estampada nas rugas de seu rosto,lhe respondeu:

\"Porque não temos como cuidar dele,Xiao Feng.Não há comida para voce e Pang.Um dos dois terá que passar fome para alimentar o outro.\"

\"Mas vovo,eu quero ficar com ele!O Pang é meu cachorro,e prometo que ele não vai comer muito!!\",replicou Shao Ren,numa voz chorosa.O avo,então,se ajoelhou na frente dela e lhe disse:

\"Xiao Feng,preste atenção.Nada neste mundo é nosso para sempre.Nem mesmo o vento.Tudo que voce e eu temos irá embora um dia.\"

\"A...Até mesmo o Pang?\",Shao Ren perguntou,ainda com um tom de voz triste.

\"Sim,até mesmo o Pang.\",respondeu o avo.Então a inocente menina perguntou:

\"Então,vovo...Se o vento não é meu,o que é?O que realmente me pertence?\"

Shao Ren fechou os olhos e entrou na casa.

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Ela não sabia dizer quem tivera mais sorte,se a garota afegã que não parava de tremer com sua chegada inesperada ou ela mesma por os guerrilheiros terem caído facilmente com seus golpes de artes marciais.Tudo que Shao Ren sabia era que sua missão estava quase completa.Quase.

As duas já estava atravessando a porta de entrada quando a jovem sentiu algo prendendo sua perna.Elas se viraram,e um homem segurava a garota para impedi-la de fugir.

-Não!-gritou o guerrilheiro em farsi.-Ela é minha!!!Ninguém pode tirá-la de mim!!!-A meinna soltou um grito agudo e começou desesperadamente a tentar desprender a perna,mas ele segurava-a com toda a força.

Ao ver a cena,Shao Ren lembrou-se da resposta de seu avo a pergunta que ela fizera,há muito tempo.

E percebeu que havia vidro quebrado pelo chão.Aquela casa não parecia ter janelas daquele material,mas isso não importava.O mais importante agora era levar a jovem dali em segurança.

-Que homem tolo...-Shao Ren comentou baixinho em chines.E,dirigndo-se ao guerrilheiro ao mesmo tempo que uma tempestade surgia ao redor de todos,fazendo os cacos de vidro parecerem folhas brilhantes e letais,ela disse em farsi:

-Solte a menina.Senão...prometo que será bem doloroso.

O homem olhou para Shao Ren e repetiuo que dissera anteirormente,apertando a perna da garota com mais força,fazendo-a chorar e gritar de medo.

Ela,então,olhou para aquele homem com um misto de pena e desprezo.

-Eu lhe avisei.Sinto muito.

A tempestade de vento e areia abafou completamente os gritos vindos da casa.

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Já era noite,e as estrelas despontavam no céu.Shao Ren estava arrumando suas roupas e as novas da garota,que haviam comprado em um bazar próximo.Esta estava sentada em cima da cama,olhando a cidade pela janela.De repente,começou a chorar.

-Eu...Eu...Matei...Aquele homem....-disse a jovem entre soluços.-Fui eu...Quem...Aqueles...Cacos de vidro...Eu...Eram...Eram meus...!!!

Shao Ren caminhou até a garota,sentou ao lado dela e disse:

-Não é verdade.Eles não são seus.Nem são nem nunca serão,pois nada é nosso neste mundo.

A moça se virou surpresa para shao Ren,sem entender o que ela lhe dissera.Então perguntou:

-Mas...Então...Se nada é nosso...Então o que é?

Shao Ren ficou surpresa com a pergunta.E nesse momento ela relembrou a resposta de seu avo.

\"Existem apenas duas coisas,Xiao Feng,apenas duas coisas em todo o mundo que voce pode chamar de suas.\",declarou o idoso,olhando atentamente para a pequena neta.

\"E quais são,vovo?\",perguntou a menininha,ficando ansiosa pela resposta.O homem então sorriu e respondeu:

\"Seu nome...e seu coração.São as únicas coisas que ninguém pode lhe tirar.Nunca se esqueça disso,Xiao Feng!\"

\"Sim,vovo!!!\",disse a garotinha,sorrindo animadamente.

Shao Ren,então,respondeu a pergunta daquela jovem afegã.

-Seu nome e seu coração.São seus e de mais ninguém.E nunca se esqueça disso.

A jovem ficou surpresa,mas concordou com a resposta.Shao Ren,em seguida,perguntou:

-Bem...Qual é o seu nome?Posso saber?

A garota enxugouas lágrimas do rosto,sorriu e disse:

-Farzana.Me chamo Farzana Ghazi.

Shao Ren sorriu e se apresentou também.

-Fim-

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