-Amém! –Suspirou Catherine, ao chegar na portaria de seu prédio. Já estava ficando louca com o cachecol escarlate açoitando seu rosto, seu cabelo vindo para a frente dos olhos e o barulho infernal das sacolas. Tudo isso era culpa do maldito vento que varria toda a cidade, fazendo com que lenços ondulassem pelos pescoços, portas batessem e cabelos virassem ninhos de rato.
O simpático porteiro, um senhorzinho perto dos 70 anos, abriu a porta para a garota, que estava com as mãos ocupadas.
-Boa tarde, senhor Perkins. –Cumprimentou Cath, com um sorriso simpático.
-Boa tarde, Catherine. Precisa de ajuda com as compras? –O senhor perguntou, com seu sorrisão típico. Arnold Perkins é o tipo de homem que é um pai e um avô maravilhoso, sempre sorridente e hospitaleiro.
-Acho que consigo me virar, mas muito obrigada. –A moça respondeu e entrou no elevador.
Enquanto subia até o 9º andar, resolveu se olhar no espelho. Estava parecendo uma bruxa. O cabelo castanho-claro estava amarrotado, o cachecol estava no lugar errado, os olhos amendoados estavam avermelhados de tantos fios de cabelo que os atentaram e os nós das mãos estavam brancos, de tantas sacolas que segurava nas mãos. Compras do mercado, uma bota nova, alguns livros e um abajur lindo que ela tinha visto em uma dessas lojas de decoração.
Assim que as portas abriram, Catherine andou até o final do corredor e tocou a campainha do apartamento 902 com o cotovelo. Ouviu um “estou indo” sonolento vindo de trás da porta. Logo, um garoto alto, de cabelos castanhos bagunçados, olhos verdes e a bochecha marcada pelo tecido do sofá abriu a porta.
-Ainda são nove da manhã e você já saiu de casa? –Perguntou, com a voz embargada e os olhos um pouco inchados.
-Bom dia pra você também, Thomas. Comprei algumas coisas que faltavam na minha casa e trouxe um café da manhã pra gente. –Respondeu a menina, entrando no apartamento e largando as sacolas bancada da cozinha.
Thomas fechou a porta e foi ajudá-la com os pacotes. Cath e Tom se conheciam desde a 4ª série, quando ambos eram os esquisitões do colégio. Sempre foram amigos e agora eram vizinhos também.
Tom pegou um donnut de chocolate e um copo de capucchino enquanto Cath pegou seu folhado de banana com canela e um latte macchiato, todos comprados na padaria a duas quadras do prédio. Sentaram-se no sofá e comeram em silêncio, assistindo algum desenho bobinho que sempre passava no sábado de manhã.
-Fiquei sabendo que o apartamento 903 foi vendido. –Comentou Tom, entre os goles de seu café.
-Espero que os novos vizinhos sejam legais. –Respondeu Cath.
A menina levantou e foi para a cozinha, jogando no lixo o copo descartável de café e o guardanapo.
Pra um garoto de 17 anos que morava sozinho, ele tinha um apartamente organizado demais. A cozinha estava limpíssima, sem louças na pia, a cama estava sempre arrumada e raramente tinham roupas jogadas pelo chão.
-Invejo toda essa sua organização –disse Cath. –Eu sou toda bagunçada, sempre tem louça suja lá em casa, a cama vive bagunçada e meus materiais estão um desaste.
-Eu aprendi a me virar. –Respondeu o garoto, sem dar muita bola ao assunto.
-Ai, credo, o que aconteceu com você hoje? Tá tão seco.
-Eu não estou seco. –Respondeu, seco.
-Eu acho que vou pra minha casa, então. –Disse Cath, amargamente, virando-se para pegar as sacolas.
-Espere. –Chamou Tom, segurando-a delicadamente pelo cotovelo.
A menina olhou pra ele, com um pouco de chateação. Eles sempre foram amigos próximos e até mesmo melosos um com o outro. Já os confundiram várias vezes como sendo um casal, mas nunca aconteceu nada entre Catherine e Thomas. Eles apenas eram assim, ambos carentes, mas não apaixonados.
-Me desculpe, apenas estou com um pouco de sono. Quase não dormi noite passada –disse ele, com pesar, olhando nos olhos dela.
-Eu entendo. Tá tudo bem –respondeu, sincera.
Eles se abraçaram forte.
-Tá, agora vá tomar um banho e colocar uma roupa decente. Eu vou pra casa. Até mais tarde. –Disse ela, se desvencilhando dos braços de Thomas e indo para o apartamento ao lado.