"E eu sinto muito."
Acordo com o sussurro dela na minha mente. Meu corpo já devia ter se acostumado a isso — pesadelos sobre Hannah Baker e suas últimas palavras -, mas ainda assim acordo com a respiração pesada.
Me levanto da cama e caminho até a sacada que tem no quarto. Abro as portas e fico do lado de fora, sentindo o vento frio expulsar o suor do meu corpo. Encaro a paisagem da cidade, ruas pelas quais Hannah percorreu e pelas quais andei, ouvindo seus treze porquês. Ruas pelas quais ela talvez ainda estivesse percorrendo, talvez ensinando os filhos a andarem na sua biclicleta azul, caso ainda estivesse viva.
Respiro fundo. Não havia sido minha culpa. Hannah me empurrou no momento em que eu poderia tê-la ajudado. Mas não a culpo também. Ela já tinha confiado em tantas pessoas e isso só a fez ser mais empurrada pra baixo. Era natural que não quisesse cair mais fundo.
"Ainda assim... eu poderia tê-la salvado, Hannah..."
Um aperto percorre do meu peito até minha garganta. Não importa quanto tempo passasse, esse sentimento de tristeza sempre voltaria quando eu pensasse na garota que poderia estar por aí agora se eu não tivesse saído pela porta daquele quarto.
Sinto braços quentes se envolvendo em volta do meu abdômen e meu corpo relaxa automaticamente.
As coisas com Skye não foram fáceis no início. No dia em que enviei as fitas e fui pra escola, a vi esbarrando em Steve Olliver e sussurando aquelas mesmas palavras: "Sinto muito".
No mesmo momento, me lembrei de Hannah e de Skye em si, no dia anterior quando a encontrei no ônibus, de olhos fechados com a cabeça encostada no vidro. Na forma como ela parara de ter amigos. Não pude me impedir de ir atrás dela. Eu não podia deixar isso acontecer de novo. De novo não.
Como eu disse, no começo, foi difícil. Ela não se abria e me empurrava, assim como Hannah fez. Mas se com alguma coisa aprendi com aquela situação, foi que eu devia insistir. Por isso, continuei insistindo e ela se revelou pra mim, tão claramante como as fitas que haviam aparecido na porta da minha casa. Ela tinha muitos problemas e também cogitava o suicídio, embora nunca tivesse chegado ao ato de tentar de fato. E eu não permitiria que ela chegasse.
Com o tempo, nossas conversas e ajuda psicológica, Skye melhorou. Aquela paixão do nono ano subitamente voltou e descobri que, naquele momento, era recíproco.
Hoje, seis anos após aquele dia em que minha vida mudou, nós estamos juntos e felizes.
Em silêncio, tiro as mãos dela de mim e a coloco em minha frente, a apertando em um abraço forte. Com certeza, eu seria sempre perseguido pela memória de Hannah Baker, a primeira garota que gostei de verdade e a qual não consegui salvar. Mas em contra partida, também sempre teria Skye Miller. A primeira garota que amei de verdade e que eu iria sempre, sempre salvar.

