Eu fiz um último esforço para parar de chorar, pensando em qual explicação eu daria a minha mãe quando ele perguntasse dos meus olhos vermelhos. Eu não queria que ela se preocupasse ainda mais comigo. Ser uma mediadora com todas aquelas escapadas noturnas e problemas com a polícia, definitivamente, não me daria nenhuma credibilidade quando eu dissesse: "Tudo está bem.".
Eu me olhei no espelho, e me abaixei na pia, jogando um pouco de água no rosto e em seguida o secando.
Deixei meu cabelo solto e abri a fresta da porta, checando se Jesse estava ali. Pior do que minha mãe com as perguntas, somente Jesse quando me chamar de Mi hermosa e dizia saber que e algo estava errado comigo. Eu juro que tentava ignorá-lo e seguir com a minha vida, namorar outros caras —não que eu tivesse algum em minha lista que estivesse disponível, fosse legal, e o mais importante: estivesse vivo – eu queria poder sair por aí, indo a shoppings e fazendo compras com minhas amigas, mas sem medo de que um fantasma aparecesse no meio de uma loja e pedisse para mim resolver sua pendência de alguma compra que ele não pagou enquanto estava vivo.
Eu não sou normal. Bem, na verdade, esse é um termo subjuntivo, já que depende do que seja "normal". Eu vejo gente morta, e isso, no meu mundo, não é normal. Mas bem, se você for um fantasma, isso é completamente normal, não se preocupe. O fato, é que eu sou uma mediadora. E segundo o código do Padre D. — uma pessoa que sempre tenta me orientar a ser legal com os fantasmas — mediadores devem ajudar os fantasmas a terminarem de cumprir seu papel na Terra e convencê-los de que eles devem seguir para a luz. Bem, eu faço isso, não exatamente assim ou nessa ordem. No mundo, existem apenas duas formas de resolver um problema: Você diz ao fantasma como você trabalha e ele aceita todas as suas condições; a segunda solução, é quando a primeira não é cumprida: você o espanca até que ele aceite as condições; caso nenhuma dessas resolver... Bem, é pra isso que serve o exorcismo. Eu não sei exatamente para onde eles vão, mas eu espero que seja para um lugar que eu não vá. Seria péssimo apanhar quando eu chegasse ao meu destino final.
Mediadores, como eu, gastam todo o seu tempo com... Ah, esperem. Eu não sou exatamente uma mediadora. Recentemente eu descobri algo com a avô de Paul Slater, —um carinha arrogante e presunçoso que não gosta de ajudar fantasmas,— que eu sou uma deslocadora. Bem, eu ainda medio fantasmas, mas parece que a coisa toda é um pouco maior, já que eu posso me deslocar. Eu só não sei como diabos eu faço isso. Bem, você pode perceber isso, já que eu continuo olhando para o meu quarto por uma fresta, quando eu podia simplesmente estalar os dedos e ir para a cozinha. Diabos, eu até mesmo poderia sair de Carmel e ir direto para Paris, comprar Jimmy Choos que não me machuquem tanto. Bem, pelo que eu sabia, o vovô Slater já não era mais tão são, e Paul... Paul era um espertalhão que queria algo em troca para poder me contar o resto.
Eu não sabia o que pensar já que eu sou judia, o que significa... Bem, isso não significa nada, considerando que minha vida ainda completamente de cabeça para baixo desde que minha mãe resolveu se casar com Andy Ackerman, um excelente cozinheiro e arquiteto, mas que tinha três filhos. Dunga era um recipiente de esteróides ambulante; Soneca um legitimo adulto em ascensão; e mestre, alguém que eu posso conversar sem precisar pensar em socar.
Eu sai totalmente do banheiro e fui para o meu quarto, percebendo que tudo estava vazio, quero dizer, não tinha nenhum fantasma extremamente gato no parapeito da janela. Eu normalmente ficava feliz em ver Jesse, mas não hoje, não agora.
Eu ainda pensava sobre os deslocadores durante todo o jantar, fato que não passou despercebido por Dunga que pegou minhas almôndegas, e nem por Andy, que bateu em sua mão com a colher de pau. Minha mãe me perguntou se eu estava com algum problema e eu disse que a vida na Missão estava acabando comigo, junto com toda aquela água que havia em Carmel que acaba com meu cabelo, mesmo com os quilos de produtos que eu passava neles todos os dias.
Quando eu subi para o meu quarto, após deixar claro que hoje a louça seria de Dunga, mesmo ele apresentando uma lógica estranha que parecia fazer sentido somente em sua cabeça, eu escovei os dentes e estava pronta para me deitar, Mestre abriu a porta.
–Oh Mest- David, é você! –eu falei quando abri a porta, me corrigindo a tempo.
–Sim, -ele disse e então olhou ao redor do quarto, procurando por algo. Talvez por Jesse, mas eu não queria pensar nisso. Seus grandes olhos se focaram em meu rosto novamente. – Eu só queria avisar que amanhã você vai fazer um teste de história. Deveria ser surpresa, mas eu não concordo com isso, já que foi comprovado que pessoas pegas de surpresa podem se apavorar e não sair bem em provas. O pânico é causado por um pequeno distúrbio emocional de quando seu coração se acelera, enquanto isso, você consegue pensar em apenas uma coisa, e e não em várias, como seu cérebro foi programado. Espero que se saia bem amanhã Suzannah.
Dizendo isso ele deu as costas para mim e começou a andar pelo corredor. Eu encarei o lugar que ele tinha estado parado, e agora não estava nada.
Bem, ainda estava a esquisitice, em forma de nada. Eu balancei a cabeça, pensei em ir atrás dele e perguntar como ele sabia disso, mas desisti sabendo que ele nunca iria me contar, e eu não estava a fim de ameaçar exorcizá-lo ou o torturar.
No entanto, assim que fechei a porta e me sentei na cadeira da minha mesa de estudos, suspirando por não ter a bela noite de sono que eu queria, abri o livro de história, não sabendo exatamente o que estudar. Diabos, Mestre não poderia simplesmente ter me falado as respostas? Isso certamente não me deixaria apavorada.Eu ouvi alguns miados atrás de mim, e logo Max arranhava a porta do meu quarto, provavelmente louco para correr atrás do bichano.
Eu vi Spike correr para o banheiro, não antes de fazer um chiado para mim. Eu não me virei. Se Spike tinha voltado, era porque Jesse também havia.
Eu continuei virada para meu livro, que agora tinha uma foto do estado da Califórnia em 1850, e uma legenda abaixo dizia algo sobre o primeiro contato dos europeus com os espanhóis nestas terras.
–Eu me lembro dessa época. – eu ouvi uma voz claramente masculina, mas não me virei. –Eu havia acabado de chegar aqui, mas não me lembro disso aqui. – eu vi sua mão pousar sobre o livro, mas não olhei o quê.
Eu estava ocupada demais pensando em como ele poderia fazer meu coração acelerar apenas. Tudo o que eu estava lendo sobre a corrido do outro na Califórnia ficou esquecida quando meu olhar subiu pelo seu braço e parou em seu rosto.
Seus olhos escuros ainda olhavam para o livro, e seu cabelo negro curto e crespo, estava meio bagunçado. A blusa fina e branca que ele usava, me fez quase erguer a mão e tocar seu abdômen, já que eu já havia isto antes o quão definido ele era. Diabos, eu já havia tocado neles, não com segundas intenções, mas já havia.
–Mi hermosa?
Eu voltei meu olhar para o rosto de Jesse, engolindo em seco, e bota seco nisso. Pelo olhar confuso em seu rosto, não era a primeira vez que ele me chamava, mas hey, não era todo dia que eu podia encará-lo descaradamente.
–Hm? –eu murmurei, voltando a prestar atenção no livro, mas ainda pensando em uma forma de poder tocá-lo por baixo daquela blusa. Se controle Suzannah, eu me repreendi mentalmente, Jesse não era como os caras desse século. Diabos, acho que em 1850 as mulheres nem ao menos podiam olhar para os homens.
Bem, eu poderia dar uma de Debbie Mancuso, mas isso não seria muito legal, principalmente, sabendo como ela agia.
Ao invés de me responder. Jesse deu um pequeno sorriso e andou até o pequeno assento, que Andy havia feito com tanto carinho para mim, embaixo da janela.
Eu vi uma grande bola de pelos laranja andar calmamente até Jesse e se espreguiçar perto dele, logo Jesse começou a acariciar seu pelo. Bem, eu também queria aquilo. Que Jesse ficasse mais próximo e mim, eu quero dizer.
Eu queria que ele estive vivo, bem, não que com aquele corpo ele não estivesse bem vivo para mim, mas eu queria que todos pudessem vê-lo. Por um momento, eu me lembrei do que Paul disse e do que eu havia descoberto com seu avô. Eu sou uma deslocadora.
Eu me virei, ficando de costas para Jesse e fechei o livro. Tentei imaginar qualquer filme do John Wayne — não que eu tivesse assistido a muito— e fechei os olhos, forçando minha mente a imaginar um lugar totalmente verde e com muitos cavalos. Bem, eu estava indo bem até que vi um grande outdoor da Prada, e então exclui aquilo. Em 1850 não existia essa maravilha, então você poderia entender porque as mulheres não saim muito de casa. Eu me lembrei de quando Mestre me mostrou um cartaz de The Big Trail, mas aquilo não estava ajudando muito. Eu abri os olhos, exasperada.
Talvez eu não tivesse o necessário para ser uma deslocadora.
Eu resolvi começar a estudar na cama, já que eu não estava mais me aguentando de sono, e recebi o olhar reprovador de Jesse, seguida de um curto discurso sobre eu levar mais a sério o que eu fazia. Gina, minha melhor amiga, reviraria os olhos e diria algo nada educado, Bem, eu também faria isso, se eu não tivesse ficado toda boba com seus olhos sobre mim.
Eu coloquei o livro aberto em cima do meu travesseiro e Jesse foi embora assim que eu me deite, e só então eu me deixei voltar a sentir o drama de mais cedo. Talvez, talvez Paul tivesse razão e eu deveria ignorar aquele negócio todo de mediação... Mas fazer isso, seria dizer adeus a Jesse. Eu não era desprezível como Paul, bem, não que ele fosse desprezível. Mas ele gostava de manipular as pessoas, e eu não era uma delas.
Talvez eu devesse apenas... Deixar Jesse. Ele não gostava de mim da mesma forma que eu gostava. Ele me chamar de Mi hermosa não significava muita coisa, já que ele deveria chamar sua mãe e suas muitas irmãs assim. Para Jesse, provavelmente, eu era apenas a primeira garota que conseguia vê-lo em 150 anos. Nada demais, claro, isso se você estiver vivo.
Garotas normais beijam caras enquanto suas amigas tiram fotos e postam em todas as redes sociais, enquanto atualizam seu status. Eu, bem, eu chutava a bunda de fantasmas, tinha um morando em meu quarto que eu era completamente louca e estava pouco ligando para meu constante status de solteira.
Eu imaginei Cee-Cee, Adam, eu e Jesse em uma sorveteria como pessoas normais. Bem, esse era um belo sonho.
Eu sorri, imaginando em como Adam o olharia e faria milhares de perguntas sobre suas intenções comigo, e no quanto Cee-Cee ficaria vermelha.
Uma lágrima escorreu dos meus olhos, e logo mais outra. Se tornou impossível ler o livro. Bem, eu realmente não queria estudar. Eu peguei o livro, pronta para fechá-lo. Mas assim que eu vi uma imagem, meus dedos tracejaram ela. Era uma pequena fazenda, e em baixo estava escrito que era patrimônio da Califórnia. Foi construída em 1830. provavelmente na época que Jesse nasceu. Um sorriso brotou dos meus lábios quando eu pensei nele e eu fechei os olhos. Jesse, se estivesse aqui, me explicaria como tudo funcionava, nos mínimos detalhes, e ele até mesmo deixaria a Teoria Crítica de Platão de lado, só para me contar sobre como eram as coisas naquele tempo.
E então a sensação mudou. Claro, eu ainda ouvia os sussurros da voz inconfundível de Jesse em meus ouvidos, mas... A sensação mudou.
Eu senti um vento frio bater em meu rosto, e ricochetear ele em meu rosto. Eu praguejei por ter de calar Jesse e me levantar da cama, para fechar a Janela.
No entanto, assim que eu abri os olhos, eu não via mais a decoração exagerada que Andy e minha mãe haviam feito em meu quarto, tão pouco, eu via a minha escrivaninha, ou meu guarda-roupas cheio de saias Calvin Klein, casacos Armani ou o que quer que seja. Quando eu abri os olhos eu vi... Nada
Okay, eu não estava morta ou algo do tipo, ao menos eu espero. Mas o que eu via a minha frente, certamente não era meu quarto.
Arvores e mais arvores se estendiam em minha frente, formando um caminho torto. Eu ouvi o barulho de água, próximo a mim e olhei ao meu redor, tentando ver algo além da escuridão e as siluetas das árvores.
Eu dei um passo para frente, indo em direção a uma das arvores para me certificar de que não era apenas um sonho. Assim que eu dei o primeiro passo, eu senti algo molhando em meus pés e olhei para o chão. Eu vi uma enorme lua refletida na poça d'água que meus pés estavam enfiados, mas não me importei com isso quando ouvi um uivo.
Minha cabeça virou, procurando a origem do som, e novamente eu ouvi. Parecia perto, bem perto. Era essa a hora que aparecia um pequeno Chiuaua e eu me sentia idiota, certo?
Bem, talvez eu tenha pensado rápido demais, eu pensei quando olhei para trás. Um enorme cão estava ali, e então eu me lembre da série Sobrenatural. Se fosse qualquer outra noite, eu o chamaria de cão do inferno, mas, hey, que garota poderia fazer algum comentário desses estando com o cabelo todo desgrenhado e usando roupas de pijama?
–Calma bichano. –eu disse tentando mostrar-me calma, mas parece que ele não gostou muito já que rosnou pra mim.
Oh, bem, eu realmente não deveria tê-lo chamado de bichano.

