Tragava o cigarro mentolado enquanto observava as cinzas desfazerem-se no cinzeiro em formato de coração. Havia sido um presente dele, que apesar de sempre criticar seu gosto em relação à nicotina, lhe deu de aniversário.
Tudo o que depositava no cinzeiro eram os restos do cigarro preto com sabor menta. Ela nunca conseguiu se acostumar aqueles Malboros que ele fumava.
E tudo o que restava agora era um cinzeiro, em formato de coração. Era negro, era cheio de cinzas, era cheio de restos de tardes perdidas na cama. Entre um arfar e outro, cigarros e conversas.
Palavras ásperas e diretas. Não eram cruéis. Eram palavras de amor, mas não de carinho. Nunca foram carinhosos, nunca seriam. Mas até mesmo o amor deixou de ser prazeroso naquela cama e as palavras silenciaram-se.
A chama que havia acendido o cigarro em uma tarde já havia se consumido. O prazer entre os dedos e o toque com os lábios desfizeram-se, pouco a pouco. Até que restasse apenas os cigarros. E apesar de tudo o último maço de Malboro ainda permanecia ali, intocável, embora soubesse que eles jamais seriam acendidos novamente.
E a cama agora estava vazia, o maço de cigarros mentolados cheio, e o cinzeiro comemorava mais um aniversário do que já não era. Naquele pequeno coração havia sobrado apenas cinzas.
