Bordado de Sangue
Bordado de Sangue
Capítulo 211 min de lectura

Fio de sonhos

A névoa ainda não estava tão densa quanto logo ficaria em Tirnaigén. Isso explicava o porquê a companhia de dança se apressava a fazer as malas, juntando todos os figurinos, acessórios e peças de cenários. Iriam embarcar ainda naquela tarde no porto, já que a visibilidade permanecia boa. Mas Lis tinha forte suspeita que existia uma razão maior que a névoa para a urgência da equipe, ainda que guardasse seus pensamentos para si. Não faria muito bem à sua reputação falar que coisas estranhas, de fato, aconteciam na cidade em tal época do ano, embora não todo Outono. Diferente das bailarinas, ela não teria como fugir. Já fazia sete anos desde que pusera seus pés pela primeira vez no porto daquela cidade e, desde então, somente suas cartas saíram de lá.

Cidadãos de Kerch, há tantas milhas além-mar, não eram supersticiosos como nas Ilhas Errantes. E não eram tolos. Tidos como mesquinhos por um estereótipo não tão infundado, era difícil que pagassem para ver as supostas histórias de Outono de Tirnaigén. Cada funcionário, bailarino ou não, da Torre Alba se preparava para partir em breve, retirando seus pertences de camarins ou equipamentos das coxias. Bom, nem todos são de Kerch, Lis ponderava. Rostos, assim como ela aprendeu cedo na vida, diziam pouca coisa; conhecera ravkanos com rostos shu; cidadãos de kerch que com avós zemeni; conhecidos zastreica que até tocavam a balalaica de Ravka.

Ela própria, quando chegou, foi encarada com espanto por parecer tão kaelish e só conseguir balbuciar algumas coisas no idioma local. Ela não parece do sul, diziam, como se houvesse a necessidade de uma aparência específica ao ter nascido lá, ou ao menos a obrigatoriedade de uma pele ardida e deformada. O pai é de Tirnaigén, seu tio intervinha nesses momentos. Lis reconhecia o nome da cidade e a palavra “pai”. Ela só não sabia o que ele dizia em seguida. Algo com a palavra “mãe”. E então as pessoas costumavam lhe oferecer um olhar que ofereceriam à um animal abandonado.

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