\"So why can\'t you stay just long enough to explain?\"
Grossos pingos de chuva precipitavam-se do céu, e a estrada se transformara em um pequeno lamaçal. Era uma manhã mórbida, e eu espiava seu transcorrer através da janela da frente de minha casa, em uma atitude patética de espera. Ela não ia voltar. Bella tinha agora seu vampiro outra vez, sua criatura bestialmente perfeita – exceto por quase ter sido responsável por sua morte uma porção de vezes, mas aos olhos dela isso não parecia realmente importante.
Mal pude acreditar em meus olhos quando vi sua picape surgir ao longe na esquina, aproximando-se cada vez mais. Corri para frente de casa, fazendo o possível para conter a explosão de excitação que pulsava em minhas veias. Era como se finalmente corresse vida nelas outra vez, depois de longos meses de angústia e ansiedade.
- Bella?
- Oi, Jake!
- Bella! Mal posso acreditar!
Aproximei-me do carro. Minha emoção – ou melhor, apenas parte dela, pois eu não queria que Bella se assustasse com minha efusão exacerbada – finalmente se espalhou por meu rosto.
Nós dois rimos e nos abraçamos. Ela parecia tão frágil entre meus braços fortes...! Senti uma necessidade de protegê-la, de manter toda a tristeza longe de seu coração. Mas eu não podia fazê-lo, ela nunca permitiria. Bella gostava da dor – e minha cabeça de repente se encheu das imagens do último outono, me sufocando por um momento. Eu preferiria ter sofrido tudo aquilo por ela.
Conversamos sobre o que estivéramos fazendo durante nossa separação, e, aos poucos, ela pareceu sentir-se mais a vontade do meu lado outra vez. Entretanto, apesar da pequena distância física entre nós, era como se um abismo intransponível tivesse surgido entre nossos corpos. Apesar disso, insistíamos em continuar falando, ambas as vozes soando geladas, na tentativa de ignorar o que acontecia em nossos corações.
Quando lhe perguntei a respeito de Edward, e das desventuras de setembro passado, alguma esperança palpitava em meu peito. Eu queria que ela falasse mal dele – uma vez que fosse. Mas minha expectativa se transformou em uma espécie de ácido, queimando minhas artérias e me destruindo por dentro.
Bella. A simples menção de seu nome era o suficiente para despertar os sentimentos mais absurdos e contraditórios em mim. A nossa troca de questionamentos, confissões e acusações me deixou completamente desnorteado, entorpecido. Assim como algumas de suas palavras me feriam feito adagas enfiadas em meu coração, bastava um sorriso seu para que todo ressentimento desaparecesse e meus desejos se resumissem a mantê-la ali o máximo de tempo possível, apenas para poder ver o jeito doce como seus lábios se retraíam, mostrando um pouquinho seus dentes da frente, e como seus olhos amendoados brilhavam.
Cada vez que Bella tocava minha mão, ou nos víamos sentados lado a lado, a centímetros de distância, a percepção daquele abismo invisível me doía ainda mais. Quando finalmente pude me aproximar dela, encostando em seu braço e pousando o rosto sobre seus cabelos macios, conversando abandonadamente, meu sofrimento se tornou mais brando. Embora eu quisesse mais do que tudo beijar Bella e poder amá-la para sempre sem o peso da culpa, aquela situação fazia surgir em mim uma espécie de resignação, de serenidade. De algum modo, aquilo era o suficiente para mim.
E, então, ela teve de partir. Partir para sua própria vida, da qual eu não fazia parte. Ela prometeu voltar em breve, e eu fingi acreditar. Não queria que ela fosse embora. Por que ela não podia ficar tempo o suficiente para me explicar tudo aquilo que eu não entendia? Por que Bella Swan não podia me amar?
Olhando o reflexo do céu no mar escuro, naquela noite, eu tive certeza – os olhos dela brilhavam mais do que todas as estrelas...
