Onde estou?
Isso não é da minha imaginação, isso eu sei, mas onde eu estou? É bonito aqui, de fato, há uma árvore – é uma cerejeira? – e pássaros pelo céu azul claro. A grama é bem verde, não há sol, não há nuvem, mas é tudo bem claro.
Enfim, eu estava totalmente de branco. Mas era um branco quase transparente, minhas calças mais escuras, então não era possível ver minha cueca. A camiseta, entretanto, era transparente demais, todas as minhas tatuagens estavam à mostra.
Embaixo da cerejeira, havia uma figura. Aquela figura era conhecida, mas eu não conseguia me lembrar de quem era. Mesmo assim eu fui até ela com coragem, era tudo um sonho, algo assim.
- Mãe?! – minha voz soou um tanto surpresa e até mesmo grossa, mas eu ignorei enquanto lancei um olhar indignado para a mulher na minha frente.
Minha mãe estava ali, em carne e osso, viva. Linda, como sempre.
Bom, o nome dela já é Linda, mas ela estava fabulosa.
- Está surpreso, Frank querido? – sussurrou se aproximando e me tomando em um abraço confortante que ela me dava nos dias tristes.
Ela estava magra, pálida e quase em cor, sem cabelo quando eu a vi pela ultima vez deitada naquele caixão. O câncer a tomou de mim sem pena. Tinha sido tão repentino...
Mas agora ela esta ali, linda. Seus olhos azuis eram cheios de vida, seus cabelos loiros eram iluminados, sua pele era de porcelana e seu vestido era fabuloso. Branco, mas não transparente. Longo, mas não exagerado.
- Senti sua falta – ela murmurou no meu ouvido se afastando um pouco para me encarar – como tem passado?
- Bem... – menti – mas... o que é isso?
- Isso é quase o paraíso – ela deu ombros – é você morrendo, meu bem.
Oi?
Morrendo?
- Como? – arregalei os olhos – mas... eu estava dirigindo e... – minha voz falhou.
Eu me lembro. O carro, a chuva, as buzinas. Tudo tão rápido, um flash, um segundo, uma vida.
- Estou morto – falei para mim mesmo e minha mãe riu.
- Claro que não, meu querido – ela acariciou minha bochecha dando um aperto leve – bom, está. Você está em coma irreversível.
Ótimo.
- Eu tinha tanta coisa para falar pra ele mãe – murmurei – tanta coisa...
- É por isso que estou aqui – ela sorriu – eu deveria te encontrar quando sua alma abandonasse a Terra completamente, mas eu vim para te dar uma segunda chance.
- Como assim?
- Querido, você pode retornar como um espírito e convencer Gerard a desligar os aparelhos, faça com que ele te deixe partir...
- Ou? – incentivei.
- Ou você passará sua vida se castigando por não poder sair dali, você não pode tocá-lo.
- Por quê?
- Você é um espírito Frank, não tem mais carne – ela apertou minha bochecha novamente – isso é apenas para nós. Você é apenas pureza agora, se tentar tocar Gerard, há várias coisas que podem acontecer...
- Como?
- Você nunca poder voltar para vê-lo ou simplesmente não poder aparecer para ele.
- Eu posso aparecer? – perguntei mais animado.
- Pode, mas... ok, façamos um trato – ela suspirou.
- Qual?
Seu sorriso era agradável. Eu o veria novamente.
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Eu o via sentado em silêncio, não tinha me concentrado o suficiente para aparecer ainda. Seus olhos eram quase sem vida, seus dedos brincavam com uma mexa de seu cabelo sem nenhuma atenção. Era torturante o ver desolado.
Mas eu queria que ele pudesse me ver. E se quisesse me tocar?
- Frank? – ele murmurou olhando para o nada – está aqui?
Não pode me ver ainda.
- Estou, Gee – falei, mas ele continuava olhando.
Então, para ele me ouvir eu preciso aparecer. Fica mais complicado assim!
Levantei com raiva e chutei a primeira coisa que vi na minha frente – que foi a penteadeira, e doeu mesmo que eu esteja morto.
- Frankie? – murmurou novamente – se for você, por favor, apareça...
Ele soltou um muxoxo, eu queria tanto aparecer, queria tanto. Mas era tão difícil, qual era a dificuldade de aparecer?
- F-Frank? – sua voz saiu descompassada e baixa, mais baixo que um sussurro e estava me encarando.
Funcionou.
- Ei Gee – sorri para ele e me aproximei – está surpreso?
Ele fez menção de me abraçar, mas me afastei brutalmente.
Lembre-se do trato, Frank.
- Não pode me tocar – murmurei – não agora.
- Pelo menos está aqui – ele se aproximou – tão lindo...
Meu sorriso saiu fraco, a verdade era que eu queria me aproximar, queria mais contato, queria ser dele, pertencer a ele, ser apenas dele.
Era pedir demais?
- O que houve? – perguntou baixinho.
- Bateram o carro em mim, não vou sobreviver – menti. Eu não iria sobreviver, e o carro realmente bateu em mim, mas a história estava um pouco escondida. Mas ele precisava saber de minha saúde...
Ele tinha que ouvir a verdade, mas não era nada legal para ele. Ele se sentou na cama deixando suas costas baterem contra o colchão, um muxoxo saindo de seus lábios, engasgado em um gemido de descontentamento.
- Eu sinto muito.
- Não foi sua culpa – ele olhou para mim – eu nunca mais vou poder te tocar?
- Eu não sei – murmurei, mentindo – mas eu estarei aqui com você por um bom tempo.
Um pequeno sorriso abriu em seus lábios, o sorriso pelo qual me apaixonei.
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- Tem certeza de que estamos indo para um bom lugar?
- Sim, Gerard – rolei os olhos.
- Eu não quero ficar perdido...
- Relaxe! – parei o encarando – qual é, vamos apenas ver uma árvore linda!
Ele não disse nada, apenas balançou a cabeça e fomos andando novamente. Era tudo muito lindo ali, tudo muito calmo...
- Chegamos.
Eu podia dizer que ele tinha gostado pelo seu olhar abobado na árvore linda. Suas folhas laranjadas no meio do nada, no meio do verde.
- É lindo Frank!
Era realmente lindo.
Seus olhos brilhavam com toda aquela imagem, eu sabia que ele era apaixonado por árvores diferentes – tanto que meu paraíso era com uma cerejeira, a árvore preferida dele – e sabia que ele iria amar ali. Mas seus cabelos negros batendo no vento, seus dedos brincando com as folhas e seu sorriso animado me fizeram desejar que eu nunca tivesse entrado naquele carro.
Que eu tinha tivesse feito a maior besteira da minha vida.
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Chovia agora. Claro que as gotas de chuva não me tocavam – o que fez Gerard rir muito – e ele apenas ficava ali, deitado embaixo daquela árvore.
- Agora aqui é meu lugar preferido.
- Sempre que sentir saudades, eu estarei aqui, mesmo que não possa me ver – eu lhe disse e ele sorriu, meu desejo de tocá-lo sendo maior.
Três dias incríveis, mas Gerard me fez um dia ir ao hospital com ele. Eu estava deplorável, cheio de machucados e pronto para morrer. Já era quase Maio.
Eu precisava contar a verdade.
- Tenho que confessar algo – murmurei, e mesmo com a chuva, ele me ouviu.
- Diga.
- Não foi um acidente.
Foi então que seus olhos perderam vida novamente.
- Foi o que?
- Proposital.
Eu não conseguia definir o que eu via. Seus olhos brilhavam, estavam prontos para derramar lágrimas, mas havia algo a mais. Raiva ou dor?
- Por quê? – murmurava repentinamente – por quê?!
- Eu estava morrendo, Gerard – falei mais sobressaltado – eu estava lá, esse tempo todo querendo morrer, pedindo para que a dor sumisse, que minha mãe voltasse, e você nunca percebeu!
- E quando chove, deste lado da cidade, toca tudo – ele murmurou – só... diga de novo com seriedade.
- Eu me matei, Gerard, foi suicídio.
- Você fez uma cama para você no buraco mais fundo, Frank – ele agarrou os próprios cabelos e saindo andando em círculos embaixo da chuva – por quê?!
- Eu não sei...
- Bem, você sempre acha uma saída simplesmente fugindo – falou irônico – de todos que te amam, de tudo!
- Gee...
- Você vai dormir até Maio e vai dizer que não quer mais ver o sol, que quer que eu desligue os aparelhos! – gritou – por quê?
- Gerard...
- Pegue essas chances, Frank, você as tem, faça algo! Só... pegue essas para dar a volta por cima, pegue essas chances, faremos isso de alguma maneira, só... – ele caiu ajoelhado no chão – apenas dê a volta por cima...
Eu não podia responder. Eu queria tocá-lo, abraça-lo.
- Não se apresse, pegue meu tempo – ele me olhou implorando.
Eu não resisti.
Eu praticamente me joguei no chão o beijando ferozmente, nossos corpos colados e as gotas me tocando finalmente. Eu estava ali daquela vez.
Nossas línguas travadas uma contra a outra, nossas mãos procurando por mais contato desesperadamente.
Eu não aguentava mais. Foi tão rápido quando perdemos nossas roupas, quando estávamos nus ali, ele me apreciando, me beijando, me amando como nunca.
Nossos gemidos altos – não fazia diferença, estávamos no meio do nada – a chuva deixando tudo mais sexy, mais excitante. Nossos corpos pedindo por mais, sua mão desajeitada me acariciando de todas as maneiras, me deixando louco.
As estocadas eram fortes, nossos movimentos eram complexos e rápidos, mas eram carinhosos, com amor. Era até complicado imaginar aquilo, mas era tão bom, tão bom, eu não queria que acabasse.
Até atingirmos o máximo gritando o nome um do outro e cairmos na grama molhado, suados e molhados pela chuva.
Eu me virei para ele.
- Você...
- Quando o dia acabar, eu não voltarei – falei direto – eu queria ficar mais tempo com você antes de fazer isso.
- Eu não me importo – ele tocou meus dedos – eu tive você por mais um dia, eu estou completo.
- Prometa-me que não vai fazer besteira – falei com a voz embargada – prometa-me que vai viver sua vida normalmente, eu estarei sempre com você – coloquei a mão em seu peito – bem aqui.
- Como você pôde fazer isso? – ele murmurou já chorando – eu nunca vi isso chegando...
- Eu sinto muito, mesmo – funguei – mas eu não vou te deixar, Gee, eu prometo.
- Eu te amo – ele murmurava beijando meu rosto.
- Eu te amo – eu apenas murmurava de voltando amando cada um de seus beijos carinhosos.
Foi tão rápido quando o dia acabou.
E lá estava ele, sozinho novamente, desolado.
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Desolado. Tentava sorrir, mas era impossível. Eu o observava de longe, jamais me veria novamente. Ele mantinha uma rosa em mãos, vermelha e bonita.
Estava lindo, mas com olheiras.
Seus dedos deixaram a rosa cair enquanto o caixão descia, o dia chovendo como no meu ultimo dia com ele. As pessoas indo embora, o deixando ali observando minha lápide.
Não se importava com as gotas de chuva, eu queria abraça-lo. Eu apenas me aproximei, ele sentia isso. Sorriu levemente e deixou mais algumas lágrimas descerem seu sua permissão.
- Eu preciso de um fim – ele enxugou uma das lágrimas falando baixo – por que não você não pode ficar apenas tempo suficiente para explicar?
Eu poderia responder, mas ele não iria me ouvir.
Vê-lo desolado era horrível, mas eu não podia fazer nada.
Podia jurar vê-lo sorrindo mais quando eu sussurrei ao vento:
Eu te amo, Gerard...
