
“Se quer alguém por sua beleza, não é amor, é desejo. Se quer alguém por sua inteligência, não é amor, é admiração. Se quer alguém porque é rico, não é amor, é interesse. Se quer alguém e não sabe porque, isso é amor.”
Palavras de um autor desconhecido.
Inteligente.
Frio.
Arrogante.
E.... algumas alergias.
Essas seriam algumas palavras que definiriam Loki Odinson. Eu. Tenho hoje uma vida que muitos caras da minha idade invejariam. Solteiro, independente e com um cargo de trabalho. Alguns diriam “nossa, para mim já estaria ótimo”, mas em meu caso em particular não é bem assim, afinal a satisfação não parece fazer parte da minha natureza.
O que mais quero é o alto cargo da firma da família Odinson: a presidência da Yggdrasill Corporation. Mas para isso teria que passar por cima de meus irmãos mais velhos. É, eu sou caçula da casa. Bem na verdade um agora, porque Thor, o mais velho, desistiu da vida de ser executivo, nunca foi a praia dele mesmo (eu particularmente dei uma forcinha ao meu irmão), e agora só me restava Balder, o do meio e meu principal rival.
E como se não bastasse há algumas semanas atrás eu descobri que era adotado, como resultado saí de casa e vi minhas chances de assumir a firma despencarem. Comprei um apartamento no centro de Oslo e me isolei por lá.
Odin e Frigga não me contaram nada sobre meus pais, tudo o que disseram era que minha suposta mãe não queria que eu soubesse nada sobre ela. Eu também não quis saber, estava confuso demais com tudo. Minha vida tinha virado do avesso. Achei melhor não contar nada a ninguém, nem mesmo a Thor e Balder.
Então um mês depois numa festa da empresa Balder me apresenta uma jovem magrinha de cabelos castanhos e encaracolados.
- Nanna, este é meu irmão caçula, Loki.
- Prazer em conhecê-lo, Loki – ela tinha uma voz doce e irritantemente simpática.
Tão simpática e irritantemente carismática, tal como Balder.
Argh.
- Prazer – foi a única coisa que respondi.
Depois soube que os dois estavam tendo um caso há mais de seis meses e agora eram namorados. Resumindo: os dois pombinhos se conheceram em um concerto musical, Nanna faz parte do Conservatório de Belas Artes de Oslo, ela além de integrante da orquestra principal também ministra aulas de violino. A orquestra dela estava na festa da empresa.
- O que achou de Nanna? – ele perguntou.
- Bonita – respondi – e muito parecida com você.
Balder riu.
- Temos muito em comum.
Não respondi nada, após um breve tempo ele emendou.
- Nanna tem uma irmã mais nova, ela retornou de Londres por esses dias. Acho que vocês dois se dariam bem se se conhecessem.
- Por que acha isso?
Balder fez um bico.
- Por que achei ela muito parecida com você.
- Ah, sério, parecida em que sentido?
- Teimosa. E outra, ela acabou de se formar, pensei que ela poderia trabalhar com você.
Arqueei a sobrancelha.
- Ora Loki, Smila me contou que você demitiu a Skadi ontem, já é sexta funcionária em menos de um mês.
Skadi era uma loira platinada, mandei-a embora por causa de seus assassinatos gramaticais.
Fiona, mandei embora no mesmo dia, porque mascava chiclete em pleno horário de trabalho.
Stella, voz esganiçada e irritante.
Annie, antipática demais, afinal não havia espaço para dois antipáticos no setor financeiro, só há lugar para um, eu.
E a lista segue.
- E daí?
- E daí? Sabe o prejuízo que é ficar demitindo e contratando gente.
- Sou muito exigente – respondi.
Balder respirou fundo. Frustrado, ele fazia de tudo para conversar comigo, mas eu inexplicavelmente era meio arisco com ele desde que me lembro. Mas não custava nada saber sobre a tal menina.
- Olha – eu cocei a nuca – e essa irmã dela como é?
O rosto dele se iluminou como se estivesse vendo o milagre do ano.
- Eu tenho uma foto dela aqui no instaram. Ágil em seu celular Balder pegou uma foto onde havia ele, Nanna e pôr fim a tal garota.
Puta merda.
Ela era bonita.
Aquelas franjinhas, era magra como a irmã, mas tinha cabelos loiros e lisos que iam até abaixo dos seios, tinha olhos claros ao contrário da outra que eram castanhos. E uma carinha de esperta.
- São irmãs mesmo?
- Claro, achou ela interessante?
- Nem a conheço, como posso acha-la interessante?
- Não seja por isso. Vou sair com Nanna e Sigyn na quarta, você poderia vir conosco, aí cê sabe, poderia conhece-la.
Sigyn.
Então esse era o nome dela.
Sigyn Narvik.
Na quarta-feira...
Acabei dando um furo em Balder, em parte sem querer, estava tão entretido com o meu “cerão” no trabalho que esqueci do bendito jantar. Mas certamente nos encontraríamos novamente.
Algumas semanas depois ou melhor num domingo à tarde, Balder me informou que a tal Sigyn iria aceitar a proposta de trabalhar como minha assistente. Segundo ele a garota procurava por emprego a mais de dois meses e aceitou a proposta a muito custo, pois queria arrumar um trabalho sozinha.
Algo interessante porém tolo.
Às vezes a gente precisa de um empurrãozinho. E um QI é sempre bem-vindo para arrumar um trabalho.
No dia seguinte eu estava em minha mesa virado para o lado oposto a fim de admirar a vista que janela me proporcionava da área central de Oslo. Foi quando ouvi duas batidas leves, eu já tinha uma ideia de quem seria.
- Entre.
- Sr. Loki, trouxe a nova candidata para a vaga de assistente.
Então me virei para fitar Smila e ao lado dela uma figura alta e esguia, uma jovem loira com franjinhas bem arrumadinhas em seu rosto, usava um conjunto preto de terno e saia e aqueles sapatos de alto que as mulheres chamam de agulha, tinha o cabelo preso por um rabo de cavalo. Seus olhos azuis me fitava com certa curiosidade e surpresa, como se eu fosse alguém que ela não esperava ver.
E novamente a achei bonita, mais bonita do que na foto que Balder me mostrou.
Mas “bonita” à parte, eu queria ver o que ela sabia fazer. Seria boa o bastante para me aturar.
Me levantei da cadeira indicando que a jovem entrasse, ela prontamente caminhou em direção a mesa, embora parecesse tranquila minha leitura captava a sua ansiedade pré-entrevista. Ao cumprimenta-la senti que sua mão estava levemente suada e fria, tão fria quanto a minha.
- Qual seria o seu nome? – eu perguntei cínico, embora já soubesse.
- Sigyn Narvik, sr. Odinson.
- Loki, me chame de Loki – eu olhava dentro de seus olhos.
- Certo, sr. Quero dizer, Loki.
Durante aquela semana fiz tudo o que podia para testa-la, ela era boa, mas eu não deixaria assim de bom grado, tinha que achar algum defeito nela. Até que no último dia da semana ela me arremessou trinta folhas de papel na cara. Doeu confesso, mas consegui disfarçar, ela era braba e eu adorei isso, então fiz ela achar que seria demitida mas, no fim eu a contratei. Sigyn ficou confusa, e foi divertido vê-la assim. Alguns meses se passaram, e eu não teve mais problemas com assistentes, ela era perfeita, mas é claro jamais diria isso na sua cara.
Por outro lado, a ideia de acha-la bonita foi-se transformando em outra coisa...
... e bem, o resto da história vocês já conhecem....
