Truths Not Always Said
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Capítulo 19 min de lectura

Verdades nem sempre ditas

Estava ali, Dean Winchester sentado em uma cadeira de balanço, com uma xícara de chá fumegando numa mesinha ao lado. O sanduíche da noite anterior estava pela metade.E ali, bem ali, sentado remoendo toda sua vida, Dean percebeu que não era diferente de nenhum humano.

Começou se lembrando de quando era criança, seu pai, sempre dizia que pra ser um homem ele tinha que proteger a família, ele tinha que dar o exemplo, Dean tinha orgulho do cara que tinha lhe proporcionado a sensação mais maravilhosa do mundo. A conquista!

Dean conquistou a confiança de seu pai muito cedo, sempre disposto a ir luta, na sombra ou na luz, Dean estava lá. “Que tolinho!” – pensou ele.

Deixou de ir no parque numa tarde ensolarada, para ficar com uma arma na mão, deixou de aproveitar a adolescência da maneira que queria, para viajar pra outra cidade. Nunca pode se apaixonar de verdade, nunca sentiu o prazer de ser amado por uma mulher que lhe desse valor. Nunca pode viver uma grande paixão.

Ainda se recordando da infância, sempre teve que ser forte, não chorava, não demonstrava sentimentos, não conseguia se expressar, seu pai nunca estava para lhe ouvir e quando queria dizer “Hey, eu cansei disso, ta legal ?” Seu pai vinha com o discurso “Proteja sua família”. Grande covarde ele, não ? Dean teve que esperar 54 anos de sua vida para ver que seu pai realmente era um covarde. Depositou um fardo numa criança, que cresceu de um jeito precoce, que nunca olhou o mundo com doçura, apenas com amargura. Criou uma criança que teve um ódio acumulado dentro de si e que por meses ficou trancado num quartinho cuidando do irmãozinho mais novo. Quanta obrigação... Era apenas um garoto.

Quando era pequeno, Dean sonhava em crescer e ser como os garotos do colegial, jogar no time da escola, sair com cheeleaders.Depois ganhar muito dinheiro jogando na liga estadual. Sonho de todo menino comum.

Mas, nunca pode ter nada.

Foi comandado e programado pra ouvir, acatar ordens e cumpri-las. “Que idiota!” – Pensou ele de novo.

Sam por sua vez, gritou, esperneou e conseguiu ter um pouco de liberdade, liberdade essa tirada porque Dean se atreveu a ir atrás de Sam. Talvez, se seu pai nunca tivesse se metido a besta na caça isso nunca teria acontecido. Ou talvez, não. Os Winchester já eram cartas marcadas.

Dizem, que quando chegamos a terra, nós já temos um destino feito, isso é pura lorota. Nós que determinamos onde vamos e onde chegamos. Dean, não pode ter essa escolha, foi como uma maquina programada e controla por John.

“Pra que tecnologia, se eu posso usar meu filho como isca ?” – Dean pensou mais uma vez colocando a cabeça para trás.

Também se lembrou de quando seu pai tirava a mascara de caçador, o que raramente acontecia, era esse pouco tempo que valia a pena, pai e filho nada mais que isso, nada de bichos, nada de monstros apenas dois seres humanos comuns.

O tempo passou, os irmãos cresceram, o pai sumiu. Dean se viu perdido.

Sam se uniu a Dean após perder Jessica, uma morte que por mais que Sam escondesse, Dean sabia que ele nunca havia superado isso. Sam sonhava com ela, sonhava que poderia ter sido tudo diferente se não tivesse ignorado os sinais que recebeu antes de sua morte.

Dean se lembrou de Azazel, o que arruinou sua vida, se lembrou de quando Cassie apareceu, ela sim, foi uma paixão. Mas, teve que esquece-la, precisava seguir seu caminho ao lado do pai e do irmão.

Se lembrou de todas as mulheres que levou para cama, uma a uma, todas elas. Nenhuma fazia seu coração parar, não fazia seu corpo estremecer, nem causava aquele “frio na barriga” expressão que tanto ouviu, mas que nunca teve chance de sentir.

Se lembrou dos tiros que levou, dos acidentes que sofreu, das facadas que o perfurou, das dores sobrenaturais que as vezes, chegavam a machucar sua alma.

Se lembrou de todas as pessoas que viveram esse pesadelo, mesmo que fosse por um dia, seria o suficiente para nunca mais esquecer.

Se lembrou das pessoas que morreram, de pessoas que perderam quem amavam por causa dessas criaturas.

Dean recordou o joguinho de Azazel, lembrou de seu irmão, morto em seus braços, do sangue dele encostando em sua pele, recordou-se da dor que sentiu. Por isso veio pacto, tudo para sanar aquela dor que não passava. Se lembrou também que aquele ano foi doloroso demais, pois cada tic-tac do relógio era um segundo, um minuto a menos de sua vida.

Quando estavam atrás da Lilith que os cachorros do inferno lhe rasgaram a pele, Dean soube que sua hora havia chegado.

O inferno... era tão... era tão... Horrível !

Lhe causa arrepios, medo, angustia, não desejaria o inferno para ninguém, apenas para os demônios que vivem nele.

Castiel, Ana, Uriel, Miguel, os anjos que apareceram...

Dean apertou os olhos e se lembrou da decepção que teve ao ver o irmão dando ouvidos a Ruby, ao ver o irmão se transformando em uma coisa que não era. Quando Ruby disse pra Sam que tudo era uma cilada Dean teve vontade de dizer “Ta vendo? Eu avisei, ninguém mandou confiar nela!” Se Sam tivesse lhe ouvido, Lúcifer nunca teria saído e com certeza já teria tido uma vida normal a tempos.

Quando Lúcifer se libertou, o pânico tomou conta de tudo. Se lembrou que queria poder acabar com a raça daquele filho da mãe.

Só não esperava que teria que ser daquele jeito.

Lagrimas brotaram do rosto de Dean.

Se lembrou de quando Miguel pediu para entrar em seu corpo. Ele não aceitou, ele não queria. Anjos eram tão traiçoeiros quanto os demônios. Deus era um covarde que fugiu quando Lúcifer se libertou.

E aí aconteceu o que menos esperava que aconteceria..

Lúcifer entrou em Sam, se trancou no corpo de seu irmão. Dean estava acabado, tanto esforço por nada, Bob lhe disse que era hora de fazer o certo. Dean sabia que o certo seria tão sofrível quanto estar no inferno. Numa noite, no cumulo do desespero, Dean invocou os anjos e aceitou que Miguel entrasse nele. No dia seguinte, estava lá. Anjos e Demônios, Luz e Escuridão, Paz e Guerra, Lúcifer e Miguel, Dean e Sam... Dean e Sam... Dean começou a se lembrar, a se lembrar como se fosse ontem. Dean e Sam que cresceram juntos, que carregavam o mesmo sobrenome, que tinham as mesmas histórias de vida, só que com um final diferente. Fizeram tanto um pelo o outro e agora estavam lá, só um ia restar pra contar a história triste. E foi lá, no meio de um lugar abandonado que depois de uma batalha sangrenta, quando ambos estavam por um fio, que Dean usou toda a energia que lhe restava e destruiu Lúcifer. Mas, quando se deu conta do que fez pensou “Não, eu matei meu próprio irmão!”. Traze-lo de volta não iria adiantar nada, Lúcifer estava trancado nele. Dean descobriu que Sam já estava morto, Lúcifer o matou porque Sam não concordara em ser cobaia dele.

No enterro do irmão Dean chorou, chorou como nunca antes e 1 ano e meio depois perdeu Bob.

Aí seu mundo veio abaixo, não tinha ninguém, nada, nenhum apoio. Sem idéia do que fazer Dean vagou por anos, um viajante sem destino. Foi então que conheceu Lauren, a primeira mulher por quem se apaixonou de verdade. Então namorou com ela por um bom tempo, ela engravidou, mas não queriam casar, então foram morar juntos. Hoje Dean trabalha na delegacia de policia, cuida dos documentos e das fichas dos bandidos, Lauren é jornalista.

Agora tem uma casa, um carro, um filho, uma vida normal.

Dean viu que as verdades nem sempre são ditas na hora certa, mas um dia a gente sempre para pra refletir, ele teve a vida como a de qualquer outro humano que se preze, a diferença é que ele teve que seguir por caminhos escuros e medonhos, perder muito, pra entender que é ele quem deve traçar o destino da sua própria vida e não os outros.

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