14 de abril de 1912 – 23:50 – Após o naufrágio
– Jack! Jack! Jack! Jack! — gritava o nome de seu amado com todas as suas forças em meio a todo aquele aglomerado de pessoas, perdida na imensidão daquele Oceano.
A sua volta todos lutavam para se manter na superfície. Podia sentir o desespero das pessoas. A água do mar era congelante e a cada minuto que passava ali aquilo só piorava. Era como sentir milhares de agulhas perfurando seu corpo, só que nunca passava e parecia que nunca iria passar. Vasculhava o local com os olhos, tentava encontrar a todo custo o seu amado. Vai encontrá-lo. Não podia passar mais um segundo longe dele. Não conseguiria passar mais um segundo sequer sem saber como ele está.
Mais do que tudo, tinha que manter-se na superfície. O bote salva-vidas que Jack lhe cedeu antes que o navio partido ao meio fosse de encontro com ao mar facilitava e muito essa tarefa.
Continuou a nadar, aclamando o nome de seu amado. Chamava por ele com todas as suas forças. Nadava por entre todo aquele aglomerado de gente como se fosse uma agulha costurando uma roupa rasgada. Não sentia mais seus pés. Provavelmente haviam ficado dormente por passar tanto tempo assim. Sabia que isso não era bom. Não deixou que isto a abalasse, iria encontrar Jack.
Ao olhar para o lado pôde ver dois homens brigarem por um barril. Queriam tanto quanto ela manter-se na superfície. Mais que isso, queriam viver. Água a todo momento espirrava em seu rosto. As pessoas se batiam na água, uma tentativa falha de acabar com todo aquele frio.
Inesperadamente sentiu sua cabeça ser agarrada por um senhor. Provavelmente a estava usando como apoio para manter-se na superfície. A força com a qual submergiu era arrasadora. Tinha que fazer alguma coisa ou pereceria por falta de oxigênio. Os poucos segundos que aquele senhor lhe dava para respirar eram dourados. E pela segunda e consecutiva vez submergiu.
Entendia o desespero daquele senhor mas não podia deixar que ele continuasse com aquilo. Começou a lutar com o homem. Tentava com todas as suas forças continuar na superfície. Não conseguiu. Começou a gritar pelo seu amado. Quem sabe ele não aparece para lhe salvar, como das outras vezes?
''Aonde estará você, Jack?''
Se perguntava. O senhor continuava a usá-la como apoio para manter-se vivo. Então é assim que vai acabar? Então por que lutou tanto? Por que sobreviveu a tantas outras coisas ao lado de Jack? Isso não pode ser verdade. Não pode acabar assim. Já podia sentir sua respiração falhar. Engolia muita água, agora já não era capaz de acumular muito oxigênio nos pulmões. Com o pouco de força que lhe restara, continuou a gritar por ele.
''Rose!''
Uma luz no fim do túnel a fez voltar a continuar lutando. Uma luz fez sua respiração voltar normalmente, por um tempo. Ouvira a voz dele. Como um herói que apareceu para salvá-la no último instante. Já até perdera a conta de quantas vezes Jack Dawson salvara sua vida. Lhe salvara dela mesma e da morte, é claro.
– Solte ela! Solte ela! — socou-o no nariz, finalmente forçando-o a largá-la.
Retornou a superfície. Começou a restaurar em seus pulmões todo o oxigênio que lhe faltara a pouco. Sentiu-se aliviado ao saber que ela está bem. Pensar por um segundo que a tinha perdido. Pensar por um segundo que nunca mais a veria. Tudo isto era sufocante. Pensar tudo isto o fez ignorar a situação.
– Nade, Rose! Preciso que nade! — suplicou a sua amada.
Se direcionou para frente e começou a nadar com todas as suas forças. Não podia deixar de olhar para trás a todo instante para ver se ela ainda estava lá. Perdê-la novamente está fora de cogitação. Sabia o que tinha que fazer. Encontrar algo para que pudessem se apoiar. Continuou nadando com este objetivo em mente.
Parava a todo instante para dizer a ela que continuasse nadando. Tinha que estimulá-la, tinha que motivá-la. Suplicava a ela que continuasse a nadar. A ouvia reclamar de o quanto a água estava fria. Queria poder fazer alguma coisa, mas nada podia fazer além de continuar a procurar por algum apoio, algo que os salvasse de todo aquele sofrimento.
– Aqui, Suba! Suba, Rose! — suplicou-a novamente.
Agradeceu mentalmente a Deus por finalmente encontrar algo em que pudesse se apoiar. Uma enorme porta de armário. Puxou-a até lá. A jovem, agora, fazia de tudo para alcançar a outra ponta da porta. Olhou para a porta, tinha que calcular se aquilo suportaria o peso dos dois. Rezava para que seus cálculos estivessem errados.
Finalmente conseguira se colocar em cima da porta que boiava. Chegou um pouco para o lado pra que pudesse dar espaço ao seu amado, para que ele se aconchegasse ali também. O mesmo tentou, mas como previa, a porta não iria suportar o peso dos dois. Sim, ele agora sabe o que tem que fazer. Iria deixá-la ficar ali.
''Você vai sobreviver, Rose. Aconteça o que acontecer, você vai sobreviver!''
Sentia-se feliz por ter encontrado algo que salvasse a vida de Rose. Mas no fundo já sabia qual destino lhe aguardara, ao fazer aquilo. Isso não importa mais. Já fez sua escolha. Agora só iria forcar-se em mantê-la viva. Jurou a si mesmo que iria mantê-la viva e não iria faltar com esta promessa.
– Isso, fique aí ! Fique aí, Rose !
Ela se deitou na porta, posicionada para a frente, cobrindo toda a extensão da porta. Nadou até a parte frontal da porta, posicionando-se a frente dela. Suas testas se encontraram. Ambos respiravam com dificuldades. Seus rostos pálidos e lábios roxos deixavam clara o quão grave era a situação ali. Respiravam com dificuldades.
– Vamos ficar bem agora. Está tudo bem agora. — disse tentando convencê-la e convencer a si mesmo de que sairiam bem dali.
Olharam juntos para o lado, ao ouvirem o som do apito. O capitão . Ele estava apitando, provavelmente na tentativa de atrair os barcos salva-vidas ao encalço de todos. O nobre homem apitava acumulando todo o ar que ainda tinha em seus pulmões. Utilizava toda a sua força naquele propósito. No fim iria ser útil.
Os gritos de desespero e gritos de pedidos de misericórdia eram contínuos. Todos gritavam pela volta dos barcos. Esse sim é um acontecimento digno de primeira página. Um triste fato. Nunca presenciaram algo tão assustador em suas vidas. Aquilo estava mesmo acontecendo e eles eram parte daquilo. Está tudo acontecendo bem diante de seus olhos.
– Os b-barcos v-vão voltar pra nos pegar, Rose... A-aguente s-só mais um po-pouquinho... e-eles remaram pra longe... por causa do flu-fluxo... agora vão voltar...
Não demorou muito para que o capitão — o homem que apitava — finalmente perecesse ali. Seu corpo sem vida boiava em alto-mar com o apito preso entre os lábios. Provavelmente havia congelado ali. Os poucos sobreviventes, agora, estavam agarrados no que podiam.
– Está tão silencioso... — ela disse, com voz fraca e serena.
– S-só vão levar... a-alguns minutos para... arrumarem os barcos... e-eu não sei se quer fazer isso mas... eu pretendo... e-escrever u-uma carta mal-criada pa-para a... com-companhia so-sobre tudo isso...
– E-eu te amo Jack...
– Não faça isso... n-não se despeça... ainda não... você está me entendendo...?
– M-mas eu estou com tanto frio...
– Ouça, Rose... v-você vai sair daqui... vo-você vai... conseguir... e ainda vai ter muitos filhos... vai vê-los crescer... e v-vai morrer de velhice... quentinha numa cama... não aqui... não esta noite... você está me entendendo...?
– Mas eu não sinto meu corpo...
– Ga-ganhar aquela passagem... foi a melhor coisa que me aconteceu... me trouxe você... e eu agradeço por isso Rose... e-ei... me faça esse favor... tem que me prometer que... irá sobreviver... que... não irá desistir... n-não importa o-que... o que aconteça... prometa agora, Rose... e... não falte c-com essa promessa...
– E-eu prometo...
– N-não deixe de cumprir...
– Eu não vou deixar de cumprir... n-não vou deixar de cumprir...
Era tudo o que queria ouvir. Tudo o que precisava ouvir. Só queria ouvir que ela iria sobreviver àquilo. Depois da promessa que sua amada fez, passou a acreditar firmemente que ela iria sobreviver. Com muito esforço ele abriu um sorriso no rosto. Selou a mão de Rose com um beijo. Respirava com enormes dificuldades.
O que antes era considerada a tarefa mais simples do mundo se tornou a mais difícil. Isso não era tudo. Metade de seu corpo estava dormente. Fazia de tudo para manter-se acordado pelo menos até que a ajuda chegasse. Tudo para certificar a si mesmo que Rose iria viver.
Talvez não desse tempo. Mas, independente disso, sentia-se feliz por encontrar seu fim assim. Encontrar seu fim sacrificando-se por alguém que ama. Dando a própria vida para que a sua amada possa viver. Para que ela possa viver por ele e ser feliz.
Ela prometeu que sobreviveria àquilo. Tinha certeza de que ela não faltaria com essa promessa. Apoiou o queixo na porta e ficou os poucos segundos que lhe restavam de visão observando sua amada adormecer. Triste era saber que nunca mais a veria.
''Tudo tem um propósito''
Sentia seus órgãos pararem de funcionar pouco a pouco. A cada segundo que se passava sentia-se mais fraco. Sua visão já estava turva e seu coração estava parando de bater. Antes que sua visão se apagasse por completo pôde ter mais uma visão do rosto de Rose dormindo em paz. E de repente, ficara tudo escuro para ele.
20 de Setembro de 2013 – 16:50 – 101 anos após o naufrágio
Deixava rosas no túmulo de sua bisavó. Hoje se passam 4 anos desde a morte de Rose Dawson. Viveu por muito tempo, como uma sobrevivente do naufrágio mais famoso do mundo. Musicais, filmes, peças de teatro... muitas coisas foram inspiradas naquele desastre. Naquela tragédia.
A jovem atriz Melissa Dawson — fisicamente idêntica a Rose - vinha todo o ano deixar rosas no túmulo de sua falecida bisavó. Passou pouco tempo com ela mas foi o suficiente para entender completamente quem ela era. Uma mulher maravilhosa.
Ouvira por milhares de vezes a emocionante estória da vida de sua bisavó, mas mesmo assim, nunca se cansaria de ouvir. Sentirá falta de ouvi-la. Ouviu sua amiga — Zoey – chamar seu nome. Ela a estava esperando do lado de fora do cemitério. Embora gostasse de visitá-la, tinha que ir.
