Egito Antigo
Mênfis, ao sul de Cairo
4.000 a.C.
Já era o bastante para Netikerty viver em um palácio, mas o problema era o calor que fazia em seus aposentos ao entardecer enquanto esperava a boa vontade de seu tutor vir buscá-la para mais uma aula nos Grande Salões.
Estava quase conformada com atraso a ponto de tirar um pequeno cochilo. Na hora em que repousou sua linda cabeça no travesseiro de penas suaves, um barulho a trouxe de volta a realidade.
Arrumou os cabelos castanhos escuros, que puxara de sua mãe, que batiam na metade das costas e deu uma leve batida em suas vestes de linho lilás, para tirar a poeria. Usava uma blusa com ornamentos espiralados roxos, uma calça branca, seus sapatos eram no tom mais escuro de roxo com detalhes dourados. Foi até porta.
Era Agtham, seu tutor. Um velho de setenta anos, com feições estragadas pelo tempo e pelo uso de sua carranca excessiva; tinha a pele escura e enrugada, seus olhos que antes eram amendoados (segundo histórias), agora são leitosos e quase não tinham cor. Usava uma chapéu tosco vermelho, que ganhara em uma expedição à Arábia, trajes de linhos iguais aos de Netikerty, só que totalmente brancos.
– Venha minha jovem — disse com a voz caquética e seca. — Temos um longo dia de aprendizado.
Você quis dizer uma boa tarde de aprendizado, não?, pensou Netikerty acompanhando, um pouco atrás, os passos do velho que andava devagar e usava uma bengala gasta como apoio em sinal de respeito. Nunca de submissão, era o que seu pai Faraó Tutan dizia a ela desde pequena, bem antes dela ter idade para começar seu treinamento.
Eles pararam nos arredores do palácio, a uns trinta metros e buscaram Zhet, o amigo de infância de Netikerty, na mansão do Conselheiro do Faraó. Eles desde pequenos, com seus quatro anos já brincavam juntos, o pai de Zhet o levava para o palácio e o faraó, grande amigo daquele, deixava sua pequena princesa brincar com o filho de seu conselheiro, que era considerado da família. E assim formou-se uma grande e longa amizade.
Zhet, de altura mediana um pouco maior que Netikerty, por poucos cinco centímetros, vestia-se igual ao velho tutor. Ele tinha olhos âmbar como os de sua amiga, que chamava de Netik ou Ísis, cabelos curtos enrolados e pele queimada pelo sol escaldante, mas normalmente sua pele possuía um tom moreno, seu corpo esguio e magro.
Grandes Salões, uma construção monumental e gigantesca, se erguiam com pilares alinhados de quinze metros de altura decorados com hieróglifos de proteção, duas estátuas de esfinges egípcias dispostas de cada lado da entrada da construção. O piso era liso e polido, um mármore negro brilhante. Dentro havia um espaço gigante e algumas salas nos cantos, onde se aprendiam cada matéria dos Caminhos.
Os Caminhos, são conhecimentos mágicos fornecidos dos deuses ao Sacerdote-Leitor, e este tinha o dever de passar aos outros instrutores para passar a seus alunos.
No fundo dos Grandes Salões, havia um grande espaço cheio de objetos mágicos para as aulas práticas e combates. Agtham e os dois alunos entraram em uma sala vazia e se acomodaram. O tutor na cadeira de palha em frente a uma mesa de granito e os dois únicos alunos dividiam uma mesa de pedra zircônia negra bruta, mas cada um em uma cadeira igual a de seu tutor de ensinamentos.
Passaram a tarde memorizando encantamentos, diferenciando as pedras apropriadas a cada situação que Agtham produzia, trabalhavam com debates sobre os deuses, a vegetação aplicada na magia, nos monstros egípcios e muitas outras coisas.
Com o fim da tarde, veio o descanso. Como sempre, Agtham ficava no monumento para passar o relatório de progresso de seus discípulos. Sendo assim, Zhet e Netikerty voltam para suas casas, no caminho viram que todos foram para a frente do palanque de avisos reais. Os dois se olharam e Zhet quebrou o silêncio.
– O que você acha que aconteceu Netik? — falou enquanto raspava uma lasca de barro de seu braço.
– Não sei — começou. — Mas provavelmente deve ser de suma importância, para que papai convoque todo mundo.
Quando chegaram perto da multidão, Netikerty avistou um ponto escuro no palanque, que identificou ser seu pai e ao lado deste, sua mãe. Como sempre, Netikerty preferia ficar afastada do multidão com Zhet e ouvir tudo com atenção.
– Bem — disse o faraó -, todos aqui presentes sabem e família real possui uma coleção de objetos valiosos — fez-se um murmurinho em todo o local. — Silêncio por favor! Além disso todos sabem da existência da pedra Rá Solem, uma majestosa pedra amarela-dourada transparente, muito confundida com citrino, mas que tem um poder incomensurável. Enfim, o que quero dizer é que... — o faraó ficou tenso. — A pedra Rá Solem foi roubada.
O quê? Roubada? Como isso foi possível? Como passaram pela guarda real do palácio e pela guarda real do cofre real?, Netikerty ficou embasbacada com o que ouvia.
Uma coisa era certa, alguém se aproveitou de algum momento em que todos estavam distraídos. Isso era um fato. Mas o que Netikerty e Zhet queriam saber era quem havia feito tal idiotice. Porque uma vez que o faraó pusesse as mãos no criminoso, ele não teria piedade. Duas palavras vieram à cabeça de ambos. Mumificação Viva.
Correram palácio adentro e ficaram nos aposentos Netikerty esperando o faraó vir lhes falar, mesmo sem este os convocar, eles sabiam que ele o faria então era melhor aguardar. Mas, acima de tudo, eles queriam descobrir a verdade do roubo da pedra.

