The Opposites Attract Themselves
The Opposites Attract Themselves
Capítulo 115 min de lectura

Os opostos se atraem

O raiar do sol surgia no horizonte junto do toque do despertador de Fernando, um jovem de 14 anos que estava na sua primeira semana de aula em uma nova escola. Normalmente, o adolescente de pele clara como a neve e cabelo escuro como uma noite sem luar resmungaria por estar tendo que acordar tão cedo, mas, naquela manhã, as coisas eram diferentes do usual. Muita coisa, na verdade, estava diferente do que ele estava acostumado. Na virada do ano, seus pais se mudaram de cidade devido a uma oportunidade de emprego que sua mãe havia recebido e, com o novo ambiente, a construção de uma nova vida era inevitável para todos.

A mudança, apesar de ser assustadora, também trazia uma adrenalina e um senso de desafio pessoal para Fernando que ele sabia que teria que aproveitar para definir seu futuro num desafio que coincidia em péssimo momento com sua mudança de cidade: o início do ensino médio. No entanto, o rapaz se arrumava animado para chegar à escola, afinal de contas, como o extrovertido que era, já havia conhecido pessoas o bastante nos três dias anteriores de aula para poder aproveitar aquela primeira semana de aula para aparecer no mínimo de aulas possível e se enturmar com o máximo de pessoas que conseguisse.

Tomando um banho rápido e vestindo qualquer roupa que aparecesse em sua frente no guarda-roupas, Fernando correu em direção à cozinha ao perceber que já era 6:20.

― Pra que essa pressa, pivete? ― Brian, seu irmão mais velho, comentou enquanto terminava de coar café ao lado do fogão.

Fernando, levemente ofegante por descer o lance de escadas do sobrado ainda com sono, comentou para o rapaz de cabelo curto e barba bem definida:

― Ué, nós saímos às 6:25, não saímos?

― Nunca vi alguém ter tanta pressa para ir à escola. ― O mais velho comentou em tom irônico e bem humorado ― Vem cá, pivete, toma café antes de sairmos.

Fernando contorceu levemente o nariz. A bebida de seu irmão sempre ficava mais forte do que seu paladar apreciava, ao passo que o mais velho sempre chiava quando tomava o “chafé” que o irmão do meio costumava fazer. Quase que como forma de insistência, o moço parado próximo ao fogão encheu dois copinhos sem qualquer pressa aparente e estendeu um deles na direção de seu irmão recém entrado no ensino médio. A careta ao tomar a bebida de aroma forte foi inevitável e o comentário logo veio:

― O café tá sem açúcar?

― E eu tenho cara de quem põe açúcar no café? ― Disse sem tentar disfarçar seu divertimento em cima do sofrimento de Fernando.

― Você é maluco por tomar isso aqui sem açúcar. ― Sua expressão claramente incômoda aumentou o sorriso no rosto do mais velho ― Não vou ficar surpreso se algum dia você cometer um crime contra a humanidade ou coisa do tipo.

Os dois irmãos sempre saíam juntos durante as manhãs. Brian trabalhava próximo da escola de Fernando, então o irmão do meio aproveitava a carona para poder acordar vinte minutos mais tarde do que precisaria levantar se fosse sozinho para a nova escola. O carro do mais velho era visto por toda a família como uma bizarrice abandonada por Deus e proibido de circular no inferno ao mesmo tempo, sendo uma “espécie de Fiat Uno com bunda” nas palavras do pai da família, mas o único filho empregado sempre defendia seu veículo dizendo que ao menos ele tinha “personalidade”, ao contrário dos carros dos pais.

O trajeto até a escola não era muito longo e, em menos de meia hora, o iniciante a estudante do ensino médio já colocava seus pés de frente para o muro que dividia a construção do exterior. Sem enrolações, Fernando zarpou do carro de seu irmão e, com um leve frio na barriga devido ao turbilhão de emoções que ainda sentia por ter começado bem na escola durante os dias anteriores. Seu corpo era movido pela energia artificialmente concedida pelo café e, se aproximando da entrada da escola, avistou um pequeno grupo de estudantes que conhecera nos dias anteriores. Formando a pequena roda estavam dois garotos de sua sala, uma garota de outra turma do primeiro ano e um casal hétero do segundo. Era óbvio que sua rota deveria ser desviada para bater papo com aquele pequeno grupo parado debaixo de uma das árvores que decoravam a fachada do colégio e, sem pensar duas vezes, foi isso que ele fez.

― Salve salve, rapazidada. ― O semblante alegre dominou seu rosto ao cumprimentar cada um dos recém conhecidos.

Os dois rapazes de sua sala que estavam junto eram facilmente identificáveis de longe, principalmente por serem tagarelas incapazes de conversar com a voz baixa. Diego, o rapaz de traço oriental de rosto arredondado e cabelo de cuia, estava claramente descontraído pela forma com que dialogava enquanto Rogério, rapaz de pele parda e rosto bem esculpido, obviamente só estava na roda de conversa devido à presença de Clara, a jovem de cabelos longos e loiros, rosto angelical e corpo com curvas tímidas, porém bastante atraentes. Talvez a presença de Rogério na conversa nem fosse tão explicitamente devido à presença da caloura da outra sala, mas Fernando já havia ouvido tão repetidamente de seu colega de classe o interesse na loira que foi impossível para o rapaz não pronunciar em sua mente a palavra “gado” ao perceber sua presença na roda junto da garota.

― Veio tão preparado que não trouxe a mochila? ― O alto rapaz de cabelo liso e bigode (que, na opinião de Fernando, o dava uma aparência de desempregado de vinte anos) comentou em tom debochado enquanto se mantinha encostado no muro da escola junto de sua namorada.

Só então que o jovem de rosto levemente marcado por sardas percebeu estar sem nada nas costas. Na verdade, ele não tinha nem certeza se a mochila fora esquecida em casa ou no carro do irmão. Sentiu seu rosto esquentando de vergonha pelo fato, enquanto algumas pessoas da roda soltaram alegres gargalhadas com a situação. Não restava dúvidas de que seu rosto tinha corado (e ele realmente tinha).

― Como forma de apoio ao nosso amigo, ― Gustavo, o rapaz do segundo ano, complementou ― acho que todos nós deveríamos cabular a primeira aula aqui fora.

O convite caiu como uma luva. Fernando adorava o ambiente escolar, a única coisa que o desagradava no espaço era a necessidade de frequentar as aulas. Sem pensar duas vezes, o adolescente aceitou de prontidão a oferta e não foi diferente com o restante do grupo. O único que o deixou levemente surpreso de ter topado faltar na primeira aula foi Rogério, mas a razão da atitude era autoexplicativa e tinha um longo cabelo loiro.

–x–

― Vocês já chegaram a ir para o espaço verde? ― Raíssa, a garota do segundo ano, tinha linhas delicadas delimitando os contornos de seu rosto, seu cabelo liso tinha coloração loira em sua metade superior e rosa na metade inferior e seus olhos eram azuis como as águas de uma lagoa que nunca vira uma gota de poluição ― é um ótimo lugar para ficar de bobeira caso estiver cansado de assistir as aulas. É óbvio que a escola sabe disso, então ela colocou um segurança na entrada, mas dá para chegar lá por uma trilhazinha que tem no canto direito. Podem me agradecer depois por essa informação. ― a garota deu um sorriso travesso terminando a fala.

Conhecia o espaço verde, ele era um extenso jardim muito bem arborizado localizado nos fundos da escola. No entanto, pisei poucas vezes naquele espaço, então não sabia exatamente o que havia nele e nem a sua extensão.

― O espaço verde não é reservado para o pessoal que faz jardinagem e meio ambiente? ― Clara indagou com sua voz fina.

― Sim e não. ― Raíssa respondeu de prontidão ― Durante o horário de almoço qualquer aluno pode ir para o espaço verde.

― E também no intervalo, dependendo do humor da direção. ― Gustavo complementou com um sutil fundo de indignação.

― Agora, a única coisa que não recomendo é vocês ficarem moscando por lá durante muito tempo. De vez em quando, alguns funcionários brotam por lá. Os faxineiros não costumam ser um problema, na verdade é até normal deles baterem papo por alguns minutos com a gente quando nos encontram lá, o problema é quando aparece algum coordenador, auxiliar ou segurança. Já cansei de ir parar na sala de coordenação por estar por lá. ― A mais velha revirou os olhos enquanto tinha um sorriso sarcástico estampado no rosto, dando uma impressão a quase todos os calouros daquele ser um acontecimento relativamente frequente na vida escolar dela.

Apesar de Fernando não ser o mais exemplar dos alunos, um certo receio tomou conta de si ao ouvir sobre a possibilidade das ocorrências. Não que aquilo fosse impedi-lo de aparecer por lá em alguns momentos, pensou (o que de fato não impediria), mas gostava de evitar dores de cabeça com seus pais por conta desses episódios. No entanto, a própria filosofia pessoal de Fernando o convencia a sair de certas aulas, afinal de contas, qual diferença se teria em termos práticos se ele deixasse de prestar atenção na aula estando dentro ou fora da sala? Claro que não faria isso sempre, mas, seguindo por uma lógica simples, era muito mais interessante não prestar atenção em algum ambiente com mais estímulos visuais e paz do que se teria em uma sala de aula (não que fosse lá aquele mérito algum lugar ser mais interessante do que um ambiente em que te falam por uma hora sobre regras de acentuação.

― Inclusive, amanhã vocês vão para o rolê no Raposa, não é? ― Fernando perdeu por alguns instantes o rumo da conversa, que se tratou basicamente de uma continuidade de atualizações sobre fofocas básicas e precauções para se tomar no colégio novo, voltando a prestar atenção somente com a pergunta de Diego.

― Provavelmente eu vou, vocês também vão colar? ― O jovem de sarda respondeu sem reparar que a pergunta havia sido direcionada para o casal do segundo ano, mas isso não representou incômodo para nenhum dos presentes.

― É lógico que a gente vai. ― Raíssa animou seu semblante ao tocar no assunto ― Raposa no início do ano é religioso aqui.

Por ser novo na cidade, Fernando ainda não conhecia o Parque das Raposas (que, apesar do nome, não possuía raposas), mas já percebeu pelos dias anteriores no colégio que ele era um ponto comum de fuga dos alunos ou simplesmente de rolês devido à sua proximidade com a escola.

― Ainda não tenho certeza se vou, mas até amanhã vou confirmar.

Logo depois da fala de Clara, Rogério proferiu a mesma indecisão sobre sua ida no dia seguinte. Gado.

A conversa de todos, no entanto, foi interrompida pelo som do portão se abrindo para a entrada dos alunos que se atrasaram na primeira aula. O segurança sabia que o atraso não foi o motivo da não entrada do grupo de Fernando no horário correto, até porque os cinco deliberadamente estacionaram de frente para a escola e começaram a conversar sem sequer se dar ao trabalho de disfarçar sua intenção de cabular a aula inicial, mas, por questões de burocracia (e falta de interesse do segurança em fazer qualquer coisa a respeito), todos eles passaram normalmente pela entrada e seguiram em direção à sua sala.

Uma despedida rápida do restante do grupo e uma curta caminhada a passos largos bastaram para que Fernando, Diego e Rogério entrassem na sala bem a tempo da chegada da professora de geometria, uma mulher de meia idade que cheirava a falta de sentimentos e isolamento social, a não ser, claro, quando o contato com outros seres humanos envolvia algum diálogo sobre triângulos. Bastaram dez minutos para que o novo aluno chegasse perto de se arrepender de entrar na sala de aula. Os exercícios de revisão de cálculo de formas geométricas eram, no mínimo, entediantes, fosse porque metade deles possuíam uma dificuldade equivalente à capacidade de cálculo de um musgo, fosse porque Fernando não sabia resolver a outra metade dos exercícios e não estava interessado em relembrar as fórmulas necessárias. Além do mais, ele não gostava de fazer exercícios ou anotações em folhas avulsas, preferia deixar os outros fazerem em seus cadernos, tirar foto das anotações e posteriormente transcrever as informações das fotos para seu próprio caderno (ele raramente chegava na parte das transcrições e costumava se limitar em deixar as fotos salvas em sua galeria).

― Bora dar uma volta?

A discrição que Fernando teve para mandar a mensagem para o whatsapp de um de seus novos colegas de classe foi impecável. Praticamente qualquer um que o observasse pensaria que ele estava concentrado na atividade a sua frente, mantendo apenas a mão direita abaixo da mesa para digitar discretamente com o aparelho.

― Vai rolar não, sry

Decepcionante, para dizer o mínimo. Ainda assim, valeria a pena insistir mais um pouco.

― Bora po, chatão ficar enrolando sozinho ;-;

Sem respostas. Duas, três, quatro pessoas foram chamadas, mas, mensagem por mensagem, Fernando tinha seus pedidos de companhia negados. No entanto, sentindo que teria um piripaque se continuasse por mais cinco minutos da aula, o aluno estendeu sua mão, já lançando o pedido antes sequer da professora reparar seu braço estendido.

― Professora, posso ir ao banheiro?

― Não demore. ― A mulher respondeu sem nem sequer desviar o olhar para o rapaz, que, com a postura serena e aliviada, caminhou a passos lentos até a saída, fitando cada um de seus traidores colegas que se negaram a acompanhá-lo pelo tour que pretendia fazer pelos corredores do colégio. Como eles tiveram a coragem de negar o convite era praticamente impossível de entender, afinal de contas, Fernando já estava no quarto dia estudando com eles!

Mas como já dizia o filósofo, é melhor ser solitário e livre do que ser prisioneiro com companhia (ninguém nunca disse isso). Uma coisa é certa, o garoto sem mochila estava mais do que disposto a aproveitar os minutos preciosos de passe livre para circular livremente pelo colégio que tinha em mãos. Já tinha até em mente o que diria caso fosse parado por algum funcionário perguntando o porquê de ele não estar na aula: “Me desculpe, estava indo no banheiro, mas acabei me perdendo, sou novo no colégio”. É claro que ele passaria o mais distante possível dos trechos dos corredores que tinham banheiro, até porque cada segundo seria valioso para apreciar a pintura sem qualquer criatividade das paredes, os alunos presos nos cativeiros chamados sala de aula pelas janelas e, com sorte, até passar pelo pátio do intervalo para apreciar o céu azulado e as plantas que decoravam o espaço antes de voltar para sua aula de geometria.

Seu plano, no entanto, foi subitamente interrompido quando, ao virar em um dos corredores e se esbarrar subitamente com uma garota que levava um copo de café, derramando quase toda a bebida no uniforme da desconhecida enquanto apenas algumas gotas caíam em seu braço, provocando um incômodo inicial por conta de sua alta temperatura. Passado o segundo inicial de susto, no entanto, o jovem pôde se concentrar na pessoa que esbarrou nele. Na verdade, os olhos de Fernando pareciam ver muito mais do que uma “simples pessoa”, a dona do café poderia facilmente ser confundida com um anjo se preparando para levar a alma do jovem com sarda para o céu devido a tamanha beleza, ao menos essa fora a primeira impressão de seu inconsciente. Longo cabelo negro parcialmente pintado com um tom forte de azul, parecia ter uma tatuagem na lateral do pescoço, piercing no nariz, era mais alta que o jovem rapaz e tinha um corpo de dar inveja a qualquer obra de arte da antiguidade. Era o tipo de garota que Fernando considerava bonita o bastante para a mera possibilidade de tomar a iniciativa para puxar conversa já assustá-lo, e isso levando em consideração que ele era um rapaz bastante extrovertido. A sua primeira reação ao se tocar do que aconteceu foi querer desaparecer. A sua segunda reação foi quase se arrepender por não estar na aula de geometria. Mas lá estava ele estragando a manhã e o café de uma pessoa mais alta, intimidadora, possivelmente mais velha e pior, do sexo feminino.

Passado um ou dois segundos após o contato, Fernando finalmente retomou sua atenção para a situação presente e começou a tentar pensar em alguma forma de conseguir resolver aquela situação sem criar qualquer alvoroço ou coisa do tipo. Talvez se ele se desculpasse e explicasse sua situação, as coisas poderiam…

― Filho da puta!

Foi tudo que ela disse antes de dar um soco na cara do novo aluno.

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