Os Jardins da Babilônia
(Surpreendentemente, het. E Romance cheio de corações cor-de-rosa. Sem purpurina, infelizmente)
Qual não seria a ambição de uma Torre se elevando para o Céu?
Contudo, a colossal Babel era apenas mais um aspecto compondo a vista dos Jardins da Babilônia.
Naquela região seca onde o verdadeiro Imperador era o rio Eufrates, o mais singelo verde era sinônimo de graça. Logo, não haveria nada mais magnânimo do que uma natureza em estado de sublimidade como nunca fora arquitetada antes. Ah, quem poderia sonhar com o louvor dos céus pela terra, a ponto de todas as lágrimas divinas em forma de chuva secarem, quando a tristeza foi embora?
Ametis não poderia continuar com saudades de sua verdejante Medeia. Se seu coração não houvesse cedido ao marido, Nabucodonosor, como agradecimento e encantamento pelo presente, ao menos deveria ter engolido a saudade e se curvado diante dos Jardins.
Até mesmo os séculos cederam diante deles. Quando a própria Babilônia fora arrasada pela ira
dos deuses posteriores e suas maravilhas transformadas em ruínas do tempo, ainda assim sobreviveu por séculos o intenso êxtase provocado nos ínfimos humanos. Para sempre os Jardins seriam uma das Maravilhas do Mundo.
Naquele tempo de Ápice, tudo parecia eterno, todavia, o que é a eternidade senão uma era que nenhuma criatura irá conhecer! Mas que isso jamais seja dito a um amante! Talvez seja apenas uma das várias verdades que não mereçam sem conhecidas.
Na Cidadela Norte, corria uma ruela sem importância um jovem de ainda menor importância. Era apenas mais um sujeito maltrapilho com sonhos pequenos demais em um mundo ainda mais reduzido. Sua visão de certo era cega, ou melhor, monocular, pois o único foco de louvor era uma dama cujos cabelos recusavam-se a permanecer presos no alto da cabeça.
Não estava mentindo ao afirmar ser capaz de por ela, sua futura esposa, seu desejo professava, conseguir roubar o paraíso e converter as deidades num culto para a mulher mais utópica jamais criada. Ela afirmava que ele estava brincando, e ele calou-se para não ofendê-la. Assim, juntos acenderam um incenso para Ishtar e Ishkhara.
No entanto, de uma maneira ou de outra, ele estava disposto a honrá-la. Quando a dama mandou o homem, ainda com mentalidade de um pequeno Cupido, não insistir em frivolidades(“Eu te amo e você me ama, por hora não basta?”, hm, quem seria então o verdadeiro inocente!), o moço a levou para os limites da cidade, para ambos sentarem-se rente às inexpugnáveis Muralhas.
O casal foi capaz de arquitetar em segredo a crendice das Barreiras não existirem para proteger a Capital do Império, mas para cercar os enamorados egocêntricos em intimidade maior do que a de um sacerdote com seu deus.
A Babilônia era deles, pois era de Ishtar. E eles eram manifestações de Ishtar, eram apaixonados, eram o amor!
A jovem segurou na mão do amado e levou-a de encontro a seu rosto, recebendo uma carícia na bochecha. Ela sorriu, acreditando-se infindável como os Jardins Suspensos. Precipitou-se em dividir com o outro a impressão.
Passou pela cabeça do namorado se Nabucodonosor não havia construído algo capaz inclusive de superar a união de um homem e uma mulher.
Aliás, sem ter visto uma flor vibrando em tons de arco-íris (como se ele sequer conhecesse um!), como poderia ouvir dos lábios de sua querida que ela estava feliz no local mais perfeito do mundo?
O que ele ouviu foi:
-Bendita seja, Babilônia. Temos aqui o magnífico Zigurate de Babel, superando a todas as crendices pagãs dessa terra entre rios! E somos os únicos capazes de sustentar o verdejante das colinas ao longe, organizando-os em jóias da natureza! Dizem que os Jardins Suspensos valem à oferenda de mil almas.
Entretanto, ela não havia dito absolutamente nada.
O rapaz desviou o olhar na direção dos Jardins, desculpando-se por ter apenas uma alma a oferecer. Concluiu ser incapaz de presentear a amada com o esplendor merecido. Oh, Apsu, seus herdeiros mantinham um mundo injusto onde uma rainha cheia de saudades e egoísmo ganha mais do que uma donzela pura e repleta de amor!
No entanto, quando se ama, desacredita-se na unanimidade uma força superior. Para o homem, ele poderia ir contra o fluxo e vencer.
-A ti, uma flor. Rosa ou vermelha, como teus lábios após o beijo.
-Jamais vi uma! Mas tenho certeza que são as mais belas.
Ela não percebera que o seu amado não era um poeta, nem que ela própria era no momento a extrema saudade de um mundo inexistente. A nostalgia complexa das flores imaginárias.
Antes do cair da noite, ele levava-a para casa, pronto para abandoná-la a sonhar com as pétalas.
Aproveitando o limite da claridade, desatou a correr pelas ruas, sem importar se ia para Sudeste ou Sul, pois seus olhos o guiaram para apenas um lugar.
Os Jardins Suspensos e o Palácio. As duas grandes vistas, fora Babel. No entanto, ele não queria se elevar ao Céu, nem roubar um pedaço seu.
A ausência de relatos e uma sensação eufórica e turva do próprio rapaz, apenas permitem considerar que ele fora guiado pelos deuses, conseguindo passar pelos guardas da entrada e achar o caminho para invadir o primeiro andar os Jardins.
Por um momento, ele perdeu o fôlego e caiu de joelhos, sufocado. Era o preço cobrado por estar diante de uma beleza proibida. Depois de ver o verde de verdade, ele jurou nunca fazer o ultraje de presentear alguém caro com uma esmeralda.
Aos poucos o enamorado levantou-se, recobrando o sentido de sua invasão. Uma alma por uma flor.
Caminhou com cautela e ansiedade, porém esquecendo-se do medo de ser pego, alucinado pela chance de presentear sua futura esposa. Mirou beldades amarelas, pálidas, grandes pequenas, em auge e em botão. Tocou na terra molhada e sentiu como se limpasse os dedos ao invés de sujá-los.
Viu-se diante da ameaça de poder amar mais o jardim do que a mulher. Conclui-se apenas capturado em uma paixão repentina e rápida. Um inofensivo affair.
Como Narciso faria séculos mais tarde, o rapaz viu seu reflexo nas águas das piscinas de lá e quase sucumbiu a uma queda livre. Mas tinha sua amada ainda.
As imagens de deuses espalhadas pelos cantos, a arquitetura inimaginável e a paisagem o seduziam aos poucos, querendo criar o desejo de ser morto ali mesmo para seu espírito lamuriante se aprisionar para além da eternidade.
Não. Precisava de seu espírito. Uma alma por uma flor.
Enfim, conseguiu chegar a uma pequena concentração de pétalas róseas de tom forte, quase avermelhadas, quase a timidez de virgem.
Arrancou-a. Ela devia ter gritado alto em sofrimento, pois quando o rapaz se virou, encontrou uma forma feminina e bela, trajando roupas exclusivas para o alto escalão. A mulher estava de mãos dadas com um homem de capa.
Ametis e Nabucodonosor.
-Não! – A rainha lamuriou-se, levando a mão até a boca para abafar um gemido de pânico ao ver seu lindo canteiro sendo maculado.
O rei abraçou-a, escondendo o rosto dela em seu tórax. Seu olhar fuzilava o plebeu, garantindo-lhe punição severa.
Mas ele não poderia morrer antes de presentear a amada!
-Suma da minha frente. – Nabuconosor declarou, prestes a chamar os guardas.
Ele deveria deixar a flor e correr? Deveria sentar e morrer, com coragem?
-Leve essa ex-vida com você. Não quero morte perto de minhas flores!– Ametis soluçou baixinho, envolvendo a cintura do marido. – Suma agora, infeliz. SUMA.
O enamorado correu, correu e correu. Não como se sua vida dependesse disso, todavia, como se não houvesse outra opção para valorizar sua alma e seu amor.
Corra, Rapaz, corra. O tempo destruiu o Jardim, fez Babel sucumbir ao Pecado.
Corra.
Seu coração foi esfaqueado pelo próprio organismo, pelo cansaço. O oxigênio o envenenou, secando sua garganta e falhando.
Corra.
Era noite alta quando ele finalmente chegou às redondezas da casa da namorada. Seria deseducado invadir a propriedade, fora que seria enxotado e perderia a benção da família da moça. Com a flor em mãos, segura, e sem estar ciente da observação de um Guarda, o apaixonado marchou para sua própria moradia.
Ao levantar-se junto com o sol, radiante por ter escapado são e salvo para honrar a futura esposa, o homem não tardou em sorrir, pegar a flor e beijá-la, levando-a consigo.
Ao sair de seu humilde lar, deparou-se com os membros do exército. Ele foi convocado para se apresentar diante do ilustre Imperador.
Devia ser a hora de pagar a alma. Todavia, ainda precisava entregar a doce botânica à amada! Desse modo, recusou-se, debatendo-se quando os guardas o levaram a força.
Ele abaixou o rosto, chegando a deixar lágrimas escaparem, agradecendo ao calor por secá-las logo, afinal seu orgulho como homem dependia de estar continuamente mostrando coragem e força.
Só estava cedo demais para pagar.
-Não! Por favor, não!
Ele ouviu o grito de mulher. Não de Ametis, mas dela. Então, ele ouviu o próprio grito, chamando pelo seu nome, esganiçado, controlando-se para não apertar a flor demais e destruí-la.
Nabucodonosor surgiu junto de outros três guardas, dois deles segurando cada um em um dos braços da moça chorosa. Os orbes escuros imploravam para o amado salvá-la, o tremor das brumas aquosas deixando escapar esperança, mesmo quando a razão inteira se dissolvia e a vida se ameaçava.
Por favor, me ame! Salva a mim!
“Romeu e Julieta” seria uma criação póstuma e por hora, morrerem os dois enlaçados em amor não era considerado lúdico.
-Você, rapaz, roubou uma rosa do Jardim.
-Eu posso explicar! – Ele apelou.
-Eu posso explicar que por sua causa, nossa Rainha volta a deprimir-se com saudades de sua terra, Medeia.
-Mas foi apenas uma flor! Uma única num jardim imenso!
Um guarda socou-lhe a boca pela insolência. Por pouco o imperador não ordenou que lhe cortassem a língua.
-Você furtou e isso é contra a lei do Império. Furtou ainda diante de mim e de minha esposa, causando-nos uma ofensa maior!
-Não os vi!
-Não muda seu crime. Por isso, será sentenciado.
-É apenas uma flor! – Que vale uma alma, lembrou-se, no entanto permaneceu quieto.
O rei ergueu sua arma branca, roçando a lâmina no pescoço da mulher do enamorado. As lágrimas transparentes caíam dos olhos.
As lágrimas de sangre foram choradas pela artéria arrebentada.
Olho por olho, dente por dente. A lei de Talião, base de todo o código de Hamurabi. O rapaz roubara o foco de amor de Ametis e agora deveria ter seu foco de amor tomado.
O choro da rainha seria seu choro.
Caule, raiz e flor. Vida de mulher e alma de homem.
O preço estava pago.
Quando ele caíra de joelhos e humilhara-se pedindo por piedade de sua pobre existência destroçada, Nabucodonosor permitiu que ele amparasse o cadáver de sua namorada. Assim foi feito, ele abraçando a cintura dela e colocando a cabeça tombada e vermelha em seu ombro, que se mexia desordenadamente devido aos berros aflitos engolidos.
Foi-lhe ordenado que estendesse a mão.
Mediante uma nova recusa, um militar pegou um de seus pulsos. O corte profundo foi feito, rompendo o ar em extremos.
Gritos, mais gritos. Sangria exaustiva sujando mais ainda o rostinho delicado e desacreditado na formosura de uma morte digna. O enamorado sentia-se tonto com a hemorragia e sabia-se incapaz de encarar a mão arrancada, caída no chão.
-Não mais furtará. – Foram as palavras finais do soberano, enquanto virava-se para ir embora junto com seus guardas. Se o jovem sobrevivesse, teria que sozinho encontrar a saída.
Nabucodonosor não mostraria mais misericórdia. Clamar pelos deuses seria um atentado, visto que o rei era infinitamente superior a um reles mortal.
Enquanto o rapaz ainda lamentava-se pela reviravolta em sua vida, entendendo de verdade a Lei de Talião, ele esquecera que com a mão arrancada a flor também ia embora, estendida no chão, sem perfume, sem valor.
Mas ele não percebera que mesmo antes da amada morrer, a flor já havia murchado, com até mesmo o fluído carmim de enamorada ter sido incapaz de aplacar as saudades dos Jardins Suspensos da Babilônia.
(Como se eu fosse deixar meu angst de lado. HÁ. Nem Het me escapa)
