Rodava e rodopiava. Sentia que algo me sustentava.
Não sei bem o que me deu para sair rodopiando por aí, mas sinto que foi meio que um instinto.
No meio do palco da academia onde faço aulas de dança, que no momento estava totalmente vazia, digo, eu estava só, estava percebendo o quanto dançar me faz bem.
Estava de olhos fechados, dando debulês com minhas sapatilhas de ponta, e fazendo saltos cada vez mais inacreditáveis.
Abri, enfim, meus olhos, que eram azuis claros.
Me desequilibrei.
Levei um tombinho, mas não desisti.
Levantei e continuei.
Senti que uma música teria começado a tocar, mas não parei de dançar para ver quem deu play no som.
A dança é a minha paixão, uma paixão antiga, mas é única.
Só parei até que a música acabou.
Olhei em volta, e não vi ninguém. Estranhei.
Como uma música começaria sozinha assim?
Então, senti que alguém me chamou:
— Blair?
— Quem está aí? — Respondi fazendo uma outra pergunta.
— Eu, Lucas.
Essa pessoa enfim apareceu. Mas não esperou eu a ver. Ela veio me dando um abraço de urso por trás, deixando-me arrepiada.
Lucas era meu antigo namorado.
–Lucas...
–Você dança maravilhosamente bem, Blair.
E ele foi acariciando meu pescoço...
Aproveitou que estava me segurando pela cintura e que uma de suas mãos estava na minha, para me guiar pelo palco, com giros e mais giros.
Percebi então que ele tinha me parado suavemente e estava perto demais de meu rosto, que nesse momento eu virei para meu lado direito, recusando o futuro beijo.
— O que foi? — Ele perguntou.
— Não tente...
— Blair...
— Não pense que esqueci o que fez comigo.
— Errei, assumo. Mas você não pode guardar mágoa em seu coração. Ele tocou no lugar onde possivelmente estava meu coração, que batia cada vez mais forte.
Ele era irresistível. Estava impinotizada.
Nossos lábios se tocaram e um longo beijo marcou toda minha vida.
Desgrudamo-nos um do outro.
— Desculpe. — Ele falou arrependido.
— O que te leva pensar que deve se desculpar? — Perguntei.
— Blair, você...
Não o deixei terminar a frase porque dei um abraço fortíssimo nele, fazendo-o perder um pouco o fôlego.
— Oops, eu que te devo um pedido de desculpas agora, né? — Rimos.
— Venha.
Ele estendeu sua mão para mim, guiando-me para o meio do palco, onde começamos novamente a rodopiar, e sem perder o ritmo, hein?
Sim, ele colocou a música para tocar novamente.
— Blair, me desculpe por tudo que fiz com você em nosso relacionamento passado... Não queria dizer que você dá mais valor a coisas fúteis, como a dança, do que para mim. Foi só algo que veio a mente na hora.Não penso mais que a dança é coisa de mulherzinha.
— A dança não é e nunca será fútil para mim. E não foi só isso que disse. Você falou coisas muito piores.
— Me desculpe, não queria que terminasse como terminou.
— Passado é passado, viva agora o presente e tome consciência de seus atos, pois pode prejudicar o amanhã, nosso futuro.
— Uau! Onde leu isso tudo?
— Não sei como, mas acabei de inventar. — Risos.
A música terminou e paramos em uma pose perfeita. Não sabia que ele dançava tão bem, ainda mais ballet clássico.
Saímos da pose depois de alguns segundos.
Juntamos nossas mãos e olhamos fixamente um nos olhos do outro.
Comecei:
— Não sabia que dançava.
— Nem eu. — Ele começou a olhar firmemente em meus olhos, e claro, eu nos dele.
— Você... Não sei como, mas consegue me, meio que fazer viajar em seus olhos, que são negros como carvão, e tão brilhantes como um diamante.
— E eu me perco nos seus, que lembram um lago, digo, um oceano... Na verdade lembra uma piscina, de tão azuis.
Ele estava um pouco nervoso, portanto não sabia direito o que dizer, e na hora escapou um riso vacilante.
— Obrigada. Acho que foi a primeira vez que alguém comparou meus olhos com uma piscina. — Eu ri, e em seguida e deu uma risadinha também.
— Desculpa de novo. Não tem ideia de quanto estou feliz por ter me perdoado.
— Tudo bem.
Acho que nós dois estávamos enrolando para selarmos nossos lábios novamente, então escapuliu:
— Lucas... Não acha que deve ser agora?
— Agora o quê? Pode ser um pouquinho mais específica?
— Isso.
É, eu o beijei sim, ele estava enrolando demais.
Então decidi eu mesma tascar-lhe o beijo.
Depois desse dia, Lucas começou a fazer aulas de dança. Ele deixou totalmente de achar a dança uma coisa sem graça e boba.
E, para terminar de contar minha emocionante estória, gostaria de dizer que estamos juntos até hoje. E que mais nada vai nos separar novamente.
Essa foi a dança que recomeçou o nosso amor.
Blair
