POV BRENNAN
Eu estava indo até a biblioteca quando senti um puxão forte atrás de mim. Minha mochila rasgou e todas as minhas coisas foram espalhadas no chão. Não me surpreendi quando olhei para trás e vi os jogadores do time de futebol e as meninas da equipe de cheerleaders rindo com vontade. Sempre eles. E agora mais uma mochila estava arruinada. Seus “pais” não iriam gostar nada daquilo. Não que eles fossem exatamente ruins. Eram melhores do que os anteriores, ao menos. Normalmente me deixavam sozinha desde que eu mantivesse a casa em ordem, mas não gostavam de gastar comigo, tanto que as poucas roupas que me deram vieram de segunda mão, repassadas pela filha de alguém. O fato de terem três vezes o meu tamanho não importava. Mas essa era a segunda mochila rasgada em duas semanas. O único jeito seria tentar consertá-la. “Com corte poderia costura-la e eles nem iriam perceber,” eu pensava enquanto me abaixava para recolher minhas coisas. Foi quando vi mais alguém se abaixar e pegar meu caderno. No momento em que percebi que ele usava o casaco do time de futebol minhas mãos puxaram com força o objeto, fazendo com que ele se sobressaltasse.
- Hey, só estava tentando te ajudar!
- Como os seus amigos ajudaram a rasgar minha mochila? Não foi o suficiente? Esse tipo de ajuda eu dispenso.
Atrás dele a risada só aumentava. Peguei minhas coisas e saí de lá correndo para a biblioteca. Apenas tempos depois eu saberia que, após minha saída, o garoto se voltou para os outros e os olhou com decepção antes de ir atrás de mim.
POV BOOTH
Eu não me conformava com o fato de ter sido amigo daquelas pessoas. Nos conhecíamos há anos, desde crianças, mas depois daquele verão tudo o que eles diziam e faziam parecia fútil comparado ao que eu vivenciava em casa. Minha mãe tinha morrido e meu pai se afundou na bebida, ficando cada vez mais violento. Se meu avô não tivesse resgatado meu irmão e eu um mês atrás eu não sei o que teria sido capaz de fazer. O olhar daquela menina me lembrou daqueles dois meses infernais que eu tinha vivido, via aquela tristeza todos os dias quando me olhava no espelho. Ainda havia um pouco dela em mim, mas acredito que nunca me livrarei por completo. Pelas roupas que usava imaginei que talvez ela estivesse em uma situação ainda pior.
Consegui encontra-la na biblioteca mexendo na mochila, aparentemente tentando encontrar uma forma de arrumá-la. Infelizmente seria inútil dado o estado em que deixaram a bolsa. Fiquei admirado com a pilha de livros sobre a mesa e imaginei como tudo aquilo pudera caber dentro daquela mochila. Aproximei-me lentamente para não assustá-la.
- Hey.
- Você? Veio fazer o que aqui?
- Calma, garota. Eu realmente vim te ajudar.
- Você é do time de futebol. Posso ver pela jaqueta.
Não era uma pergunta, mas uma afirmação. Fiquei curioso do porque daquilo.
- Sim, sou o capitão. E daí?
- E daí que na organização da escola feita pelos alunos há uma hierarquia. Vocês, atletas, se julgam no topo da pirâmide e se dão o direito de maltratar e humilhar as outras pessoas, principalmente as de intelecto mais avançado como eu.
- O quê? Não, não é assim.
- Claro que é. Essa é a segunda mochila minha que seu grupo destrói, é a evidência do que eu digo.
- Espera, evidência? Você não está exagerando?
Ela era a menina mais diferente que eu conhecia, a reação dela foi completamente diferente do que eu tinha imaginado e me surpreendi gostando daquilo. Mesmo ofensivo, o que ela dizia era sincero, ela era verdadeira como nenhum de meus “amigos” eram.
- Sim, evidência. Sinto-me a vontade com evidências, mesmo que não me agrade ter a mochila arruinada.
- É, bem, é sobre isso que eu queria falar. Vim pedir desculpas pelo time, vou falar com eles e garantir que não vão mais importunar você.
- Por quê?
- Por que o quê?
- Por que você vai fazer isso?
- Porque é o certo, não é justo tratarem você desse jeito.
- Está falando sério?
- Estou. O que acha que estou fazendo?
- Não sei, pode estar apenas tentando se divertir as minhas custas de alguma forma.
- Não estou, acredite.
- Ok...
- Olha, porque não me deixa te ajudar com a bolsa? A propósito, meu nome é Seeley Booth.
- Temperance Brennan. E a mochila não tem mais jeito. Só espero que meus...- ela parou no meio da frase, procurando a palavra certa.
- Pais adotivos? – tentei ajuda-la, mas ela me olhou assustada. Pelo visto não queria que ninguém soubesse. Eu bem entendia o motivo.
- Como você descobriu?
- Foi apenas um chute. Mas não se preocupe, não vou contar a ninguém.
- Chute? Você não chutou nada... – de tudo o que ela poderia dizer naquele momento aquilo era o que eu menos esperava.
Temperance Brennan era mesmo surpreendente, única. Naquele momento eu não sabia, mas estava me apaixonando por ela.
Depois daquele dia estávamos sempre juntos. Ela se tornou minha melhor amiga e eu o melhor amigo dela. Nem a cara feia de meus antigos amigos me impediu de passar cada vez mais tempo com ela. Quem realmente importava, meu avô e meu irmão Jared, gostavam muito dela. Eu queria conversar com Temperance – ou Bones, como costumava chama-la depois de descobrir que tinha um interesse incomum por ossos –, queria protegê-la dos outros, mesmo que ela sempre afirmasse, irritada, que podia se cuidar sozinha. Depois de um tempo, porém, descobri que queria ser mais do que apenas amigo dela.
Os olhos azuis, a boca rosada e a pele tão branca me faziam pensar em coisas nada amigáveis. Claro que não era só isso, eu queria o conjunto todo, a queria como minha namorada. Obviamente ela não percebia nada e ficou chocada quando a convidei para ir a uma festa dada por Angela, uma amiga minha, uma das poucas que não me virou as costas depois que fiquei amigo de Bones. Muito ao contrário, na verdade as duas se davam muito bem. Felizmente, mesmo surpresa ela aceitou meu convite e naquela noite eu descobria se o que sentia por ela era recíproco ou não.
POV BRENNAN
Quando ele me chamou para ir à festa na casa da Angela, pensei que seria apenas como amiga, já que passávamos quase o tempo todo juntos. Mas então ele explicou que seria como um encontro e fiquei chocada. Não esperava por isso. É claro que eu já tinha notado que meu corpo reagia como não deveria sempre que nos encontrávamos. Minha boca ficava seca, minhas mãos geladas, um calafrio percorria minha coluna. Sintomas típicos de uma adolescente da minha idade na presença de um garoto como Booth. Ele era muito bem estruturado, eu já tinha notado os traços perfeitamente simétricos que faziam meus hormônios serem liberados, causando a sensação de desejo sexual. Só não esperava que ele sentisse o mesmo. Ao mesmo tempo eu tinha a impressão de que havia mais do que apenas hormônios se manifestando na forma como meu corpo respondia a ele. Não era só isso, eu realmente gostava da companhia dele, das nossas conversas, de como ele sempre tentava me fazer conhecer a cultura pop e a comer torta na cantina. Era estranho, mas eu gostava de todos os aspectos dele.
Ainda assim eu estava com medo de que nossa relação mudasse, que seja o que fosse aquilo estragasse nossa amizade. Mas durante a noite conversamos normalmente, como sempre fizemos. A única diferença era que nos tocávamos mais e estávamos fisicamente mais próximos. E era bom, natural. Parecia que só faltava um de nós tomar a iniciativa para tudo acontecer. E, no final da noite, o inevitável: nos beijamos. Não sei bem como, mas quando percebi eu estava beijando Booth e gostando. Nunca tinha feito aquilo antes, mas foi maravilhoso. E pela forma como ele enlaçou minha cintura e emaranhou os dedos em meu cabelo conclui que ele também apreciou o beijo.
Nosso namoro não surpreendeu a ninguém exceto nós mesmos. Pelo que Angela me contou – depois de um entusiasmado “finalmente” – todos já sabiam que aquilo iria acontecer eventualmente. Na verdade alguns até achavam que já estava acontecendo. Claro que nem todos gostaram, o time de futebol achava que ele merecia “coisa melhor” e a equipe de cheerleaders achava que uma delas deveria estar no meu lugar. Mas nenhum de nós dois se importava realmente com isso. Simplesmente achávamos que éramos a pessoa certa um do outro e que iriamos ficar juntos por 30, 40, 50 anos.