Não, garotos "não femininos" não combinam com bichinhos fofos. Não que eu tenha algo contra caras que curtem caras, muito menos contra coisinhas fofas que as garotas adoram. O que me incomoda é quando EU sou obrigado a cuidar de um bichinho fofo quando na verdade eu mal mal sei cuidar de mim mesmo!
– Chega de reclamações, Tohma! – escandaliza quem acabou de me dar uma coisinha estranha, qual agora me encara como se tivesse me identificado como a "mamãe".
O local é o Instituto Seis Corações, um colégio da cidade de Usagi. Estudo aqui desde o meu início do Ensino Médio, mas foi hoje, no primeiro dia do meu 3º ano, que uma coisa tão sem sentido me aconteceu. E o que aconteceu? Simples! Recebi de presente de uma professora, se é que posso chamar esse branquinho assim, um coelho. Ou coelha, sei lá...
– Cuide bem dessa criaturinha. – exige a senhorita Ayame.
– Tudo bem que é o meu aniversário mas, professora... – tento argumentar, quase de joelhos, implorando para que ela leve essa bolinha branca para longe de mim – Eu não quero esse bicho de presente.
Mais brava ainda, ela cruza os braços. Olhando no fundo dos meus olhos, mais séria do que nunca, determina:
– Você VAI ficar com ele. E ponto final.
– Mas professora...
De repente, a feição dela muda. Descruzando os braços, fecha seus olhos e dá um leve suspiro. Segundos depois, reabrindo suas pálpebras, diz em suave tom:
– Sabe bem que tem algo de diferente em você. – me encara em silêncio por segundos até continuar – Você não pensa como os outros garotos da sua idade, força a risada em piadas que só você não acha graça, simula felicidade em conquistas que para todos os demais são importantíssimas... Você é diferente, Tohma Dales.
– Por qual motivo está me dizendo essas coisas? E o que isso tudo tem a ver com esse coelho? – questiono, observando mais uma vez o rosto peludo do bichinho branco nas minhas mãos.
– O momento em que você entenderá por qual razão é tão diferente está para chegar. Será quando, também, encontrará companheiros que te seguirão e que precisarão de você. O animal que te dei é o primeiro deles. – ela explica. – O mundo que a maioria das pessoas conhece é apenas uma parte da realidade. – enquanto a professora articula, eu vou ficando cada vez mais interessado, mesmo não sabendo por qual motivo. – Até lá, tenha paciência...
Desse modo, ela me dá as costas. E apenas diz:
– Vá para casa e descanse. Tenho certeza absoluta que amanhã mesmo irá me procurar. – ao concluir, vai se afastando, me deixando com o tal bicho nas minhas mãos.
Suspiro profundamente, sentindo-me incomodado com o peso que um animal parece representar na vida de quem jamais teve um bicho de estimação. Porém, é quando me perco nos olhos vermelhos dela – no início da conversa, a professora me disse que era fêmea, e agora me lembrei – que sou tomado por uma visão atordoante: seis pessoas diante de uma multidão de tantas outras, de pé e firmes como rochas. Parecem carregar pesos muito maiores do que a responsabilidade sobre um bicho de estimação. Parecem estar dispostos a arriscar suas vidas, e preciosas vidas, por um bem maior...

