Silly Woman
Silly Woman
Capítulo 16 min de lectura

Silly Woman

- Você precisa se acalmar, Giselle — pestanejou minha melhor amiga Alicia.

- E como fazer isso? — respondi embora falasse mais comigo mesma do que com Alicia. – Eu fui praticamente jogada fora, eu fiquei com tanto ódio que quase cometi um crime, eu estava...

- Pare. – disse Alicia interrompendo-me no exato momento em que não aguentava mais e estava quase me debulhando em lágrimas. – Isso é passado. Brigas acontecem. Agora deveria ir falar com ele.

Ergui a cabeça levemente para olhar Alicia, que estava ajoelhada perto de mim.

- Impossível. Ele só pensa em Flamengo, comida, Flamengo, trabalho, Flamengo, cama...

- Flamengo? – Indignou-se Alicia que por mais incrível que parecesse parecia mais indignada com a menção do time rubro negro do que com a covardia do homem. – Que mau gosto o dele.

Mirei-a severamente embora no fundo tivesse se divertido um pouco com sua indignação. Alicia às vezes conseguia ser uma porta melhor do que uma porta.

- O que foi...?

- Obrigada por me deixar dormir em sua casa esta noite. – Agradeci com sinceridade.

A amiga deu um sorriso amarelo.

- Se era pra alguém ter saído de casa naquela noite era ele. – disse ela.

Meu silêncio foi a melhor resposta que consegui dar.

- Você não quer um copo d’água?

O silêncio permaneceu por mais algum tempo. Alicia já estava de pé e me observava com pesar.

- Não, obrigada. Só preciso ficar um pouco sozinha...

Alicia assentiu compreensivamente e se retirou do aposento. Aproveitei o momento para olhar a vista do apartamento de Alicia. Tinha passado a manhã inteira tricotando como uma velha para que o tempo passasse. Era a única coisa que eu tinha pra fazer, as revistas pornográficas de Alicia não me saciava ou distraía (francamente!), nem álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 2006 ou do Ben 10. Nada me distraía, então eu apenas ficava me remoendo sobre o ocorrido. Era grata, claro.

Mas eu tinha que afastar meus pensamentos dessas coisas. Tentei encarar o jarro de flor próximo a mim. Mas até este parecia me observar acusadoramente, como se estivesse levantando o dedo indicador contra mim. Os prédios lá fora, cheios de janelas, também pareciam me culpar por algo que eu nunca tinha feito.

Talvez eu devesse me reconciliar com meu marido.

Discretamente, deixei a casa de Alicia. Tive que pegar um táxi, pois nossa casa ficava a alguns quilômetros dali. Por sorte, havia sobrado um pouco de dinheiro que Alicia me emprestara ontem. Grande Alicia.

O Táxi me deixou na frente de um sobrado murcho e desgastado pelo tempo. Quantas vezes conversei com Leonardo sobre repintar a casa? Mas ele não me ouviu, não gosta de gastar dinheiro com pintor. E não queria pintar: gastaria dinheiro com a tinta e se sujaria. Eu deveria ter encarado como um desafio quando ele me pediu para repintá-la na maior folgadeza. Deveria pegar as cores do arco-íris e sair pintando a casa de qualquer jeito. Situação semelhante à de minha prima. O marido dela não queria colocar um prego na parede. Ele se recusou a ajuda-la e ela foi sozinha. Acabou pregando o encanamento da casa.

Vasculhei minha bolsinha de contas procurando pela chave até que finalmente a achei. Abri a porta e entrei sorrateiramente.

A casa não estava como eu a havia deixado há quase um dia atrás. Não, não. Agora uma bacia contendo pipoca até a metade estava jogada no meio da sala. Supondo que a bacia estivesse cheia, então o resto estava exatamente na minha testa: A cada passo, uma pipoca no chão. Um dos vasinhos havia caído no chão e a flor acabou engolida pela terra. Na cozinha, a cafeteria derrubava café no chão, o freezer estava aberto e garrafas de cerveja enchiam a pia.

- Leonardo? – Perguntei timidamente.

Ninguém respondeu. Não me arrisquei a chamar de novo. Subi a longa escada que dava no segundo andar, onde se situava nosso quarto. Poderia ele estar dormindo até agora? Tinha faltado ao trabalho?

Meu coração começou a bater forte ao ouvir alguns gemidos. Significava que ele estava ali. Mas o aperto no meu coração não me dava felicidade. Era dor, uma dor muito grande. Imagine a dor: Agora multiplique por cem.

Conforme me aproximava do quarto, os gemidos ficavam mais altos. Com o coração na mão e já agindo por completa impulsividade, como se tivesse sido eu quem tomou todas aquelas bebidas, dei um chute inesperado na porta.

Ele e uma vadia estavam nus.

- ARREEEEEEEEE! – A mulher loira que cavalgava olhou para trás e berrou. Os dois logos se levantaram e começaram a se vestir. Que nojo daqueles dois, que nojo de Leonardo. Que nojo de ver ele ali, naquela situação porca, com o pênis pingando líquidos pelo quarto. Por felicidade, ele estava pasmo. A loira, talvez por ser loira, ainda não havia entendido.

- VADIA! – chamei a atenção da loira tirando meu sapato e arremessando, errando por milímetros – VOCÊ NÃO TEM FAMÍLIA, NÃO? SUA VACA!

Nem precisei hesitar, aproximei-me da loira e acertei minha mão em sua cara de pecadora. A força foi tamanha que ela caiu no chão.

- COMO OUSA DAR CORDA À ESSA TRAIÇÃO? – continuei cuspindo na mulher.

- TRAIR? VOCÊ. É. PIRADA. – A loira levantou com jogo de cintura. – Eu namoro Leonard há dois anos!

- DESCULPE, PIRIGUETI, MAS NÃO FALO PIRANHÊS. SOU CASADA COM LEONARD HÁ SEIS ANOS.

- Impossível, você é uma idiota. – A loira atacou de novo me ofendendo e tirando ‘oh’ da plateia inexistente. – Ele disse que eu era o único que ele amava, a ÚNICA que valia a pena!

- E-Ele me disse isso também. – disse eu pálida e desesperada. A pouca cor que tinha no rosto da loira também sumiu. Nesses três segundos de silêncio, percebemos que Leonardo não estava mais no quarto.

- ELE NÃO PODE FUGIR! – berrei. Tentei correr atrás, mas a loira foi mais rápida, alcançando-o nas escadas.

- IDIOTA, MENTIROSO! – A loira não titubeou e empurrou Leonardo das escadas, cujo corpo rolo e se quebrou sem chances de defesa.

- NÃOOOO! – berrei aterrorizada. A mulher olhou para mim, mas a partir desse momento, eu não tinha mais certeza do que estava fazendo. Sem qualquer vestígio de fraqueza, chutei-a pelas escadas. Sua morte parecia estar sendo em câmera lenta – Muito mais dolorosa. Caiu como uma boneca de pano perto do corpo de Leonardo, sem chances de defesa.

E então eu estava no apartamento de Alicia. Enquanto tricotava, lágrimas desciam dos meus olhos. O pequeno jarro de flores próximo a mim parecia muito mais sombrio.

Alicia desceu as escadas dramaticamente vestindo uma blusa do Flamengo. Ela me encarou por um momento e perguntou:

- Como estou?

- Linda.

Alicia pareceu ter estranhado bastante o fato de ter sido elogiada.

- Tem certeza de que não quer um copo d'água? – perguntou ela preocupada.

- Não, obrigada. – Sorri – Só preciso ficar um pouquinho sozinha...

Alicia assentiu compreensivamente e se retirou do aposento, rebolando com sua blusa nova do Flamengo.

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