My War
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Capítulo 118 min de lectura

Dia 0 - Dante

Dia 0 - Dante

A primeira coisa que Dante aprendeu sobre a guerra foi que ninguém morria de maneira particularmente heroica.

Nos primeiros meses, ainda havia quem falasse sobre liberdade, justiça e resistência. Homens subiam em caminhões para discursar, bandeiras eram penduradas nas janelas e famílias inteiras se reuniam diante de televisores para acompanhar as notícias, convencidas de que aquele pesadelo terminaria assim que alguém suficientemente importante decidisse fazer alguma coisa.

Depois vieram os bombardeios.

As estradas foram bloqueadas, os hospitais ficaram sem medicamentos e os caminhões de abastecimento simplesmente deixaram de aparecer. O governo declarou a cidade uma zona de contenção militar e fechou suas principais saídas, prometendo corredores humanitários que nunca se materializaram. Eventualmente, até as transmissões oficiais desapareceram.

As bandeiras foram substituídas por lençóis brancos pendurados nas fachadas. Os discursos deram lugar aos pedidos de socorro.

E as pessoas começaram a morrer por coisas cada vez menores.

Um saco de arroz. Um cobertor. Um par de sapatos.

Na semana anterior, Dante havia encontrado dois homens mortos diante de uma farmácia. Um deles ainda segurava uma cartela de analgésicos.

Não havia nada particularmente heroico naquilo.

Naquela manhã, enquanto atravessava uma avenida coberta de destroços, ele estava mais preocupado com a possibilidade de chover do que com os três cadáveres que apodreciam dentro de um ônibus abandonado.

A chuva tornava os escombros escorregadios, apagava rastros e dificultava identificar de onde vinham determinados ruídos. Também encharcava roupas que demoravam dias para secar, sobretudo quando se precisava economizar combustível.

Os mortos, pelo menos, não costumavam causar tantos problemas.

Dante ajustou a alça da mochila sobre o ombro e examinou a rua adiante.

A antiga área comercial havia sido saqueada tantas vezes que encontrar alguma coisa útil ali se tornara uma questão de sorte. As vitrines estavam destruídas, carros incendiados bloqueavam os cruzamentos e uma barricada feita com sacos de areia impedia a passagem pela avenida principal. Um cartaz de propaganda ainda prometia apartamentos de luxo com vista para o parque, embora o edifício anunciado tivesse perdido metade de sua fachada.

Ele observou o cartaz por um instante.

Excelente localização. Próximo de escolas, comércio e artilharia pesada.

Quase sorriu.

Quase.

Apertou o passo.

Por baixo do casaco escuro, carregava uma pistola presa à cintura e uma faca de combate em uma bainha discreta. As roupas tinham sido escolhidas pela praticidade, não pela aparência: botas resistentes, calças de tecido grosso, luvas gastas e uma jaqueta que já recebera tantos remendos que sua cor original se tornara uma questão de interpretação.

Os cabelos claros estavam mais compridos do que costumava permitir, caindo desordenadamente sobre a testa. Precisava cortá-los, mas uma tesoura afiada estava consideravelmente abaixo de água, comida e munição em sua lista de prioridades.

O rosto, marcado por uma barba de vários dias e uma pequena cicatriz próxima à sobrancelha, conservava algo da aparência despreocupada que tivera antes da guerra. Era uma impressão enganosa, desmentida pela maneira como seus olhos examinavam cada janela, cada esquina e cada movimento nas sombras.

Dante não caminhava distraído.

Havia muito tempo que não se permitia esse luxo.

Na noite anterior, fizera o inventário do abrigo e descobrira que estava ficando sem alguns materiais importantes. Precisava de antissépticos, baterias e peças para consertar o sistema improvisado de filtragem de água. Alimentos também seriam bem-vindos, embora suas reservas ainda fossem suficientes para algumas semanas, desde que mantivesse o racionamento.

A primeira farmácia não tinha nada além de caixas vazias e prateleiras caídas. Na segunda, encontrou gaze embolorada e um termômetro quebrado.

Na terceira, alguém havia deixado uma armadilha na entrada.

Dante percebeu o fio quase invisível estendido próximo ao rodapé antes de colocar o pé sobre ele.

Acompanhou seu trajeto com os olhos até uma pequena estrutura improvisada atrás da porta. Não se aproximou o suficiente para descobrir exatamente como funcionava.

— Criatividade é uma coisa linda — murmurou.

Recuou e procurou outro caminho.

Foi assim que acabou entrando no bairro residencial.

As ruas eram mais estreitas, protegidas por árvores cujas copas haviam sobrevivido parcialmente aos incêndios. Casas geminadas dividiam espaço com pequenos prédios, muitos deles abandonados depois que os combates avançaram para aquela região. Algumas portas tinham símbolos pintados com tinta branca, marcas deixadas por equipes de resgate que haviam passado por ali meses antes.

Outras exibiam avisos escritos à mão.

NÃO TEMOS COMIDA.

HÁ CRIANÇAS AQUI.

POR FAVOR.

Dante passou por todos sem diminuir o ritmo.

Uma explosão distante fez os vidros de uma janela vibrarem. Ele parou, aguardou alguns segundos e continuou quando percebeu que os disparos vinham de outro distrito.

Foi então que avistou a casa.

Tratava-se de uma construção de dois andares, cercada por um muro baixo de tijolos. Parte do telhado havia desabado, mas o restante parecia estruturalmente íntegro. As janelas do térreo estavam cobertas com tábuas, e uma lona azul havia sido estendida sobre o quintal para recolher água da chuva.

Havia sinais de ocupação recente.

Um balde sob a calha. Algumas peças de roupa penduradas em uma corda. Lenha protegida por uma chapa metálica.

Dante se aproximou com cautela.

A porta do portão estava aberta.

Isso, por si só, não significava nada. Muitas pessoas abandonavam suas casas às pressas, especialmente quando os combates se aproximavam.

Mas havia marcas recentes de pneus na terra úmida diante do imóvel, além de pegadas sobrepostas que seguiam até a entrada.

Ele se agachou para examiná-las.

Pelo menos quatro pessoas haviam passado por ali recentemente.

Talvez mais.

Quando ergueu a cabeça, percebeu outra coisa.

A porta principal estava entreaberta, e uma mancha escura se espalhava pelo degrau de concreto.

Sangue.

Dante permaneceu imóvel por alguns segundos, escutando.

De algum lugar no interior da casa vinha o ruído irregular de móveis sendo arrastados. Depois ouviu metal batendo contra o chão e uma voz masculina reclamando.

— Já falei pra procurar na cozinha!

Outra voz respondeu alguma coisa que ele não conseguiu distinguir.

Saqueadores.

Ele deveria ter ido embora.

Havia aprendido a reconhecer situações que não lhe diziam respeito, e aquela parecia particularmente empenhada em se apresentar como uma delas. Não sabia quantos homens estavam lá dentro, que armas possuíam ou o que haviam feito com os moradores.

O risco não compensava alguns medicamentos e meia dúzia de latas de conserva.

Deu um passo para trás, preparando-se para contornar o muro.

Nesse momento, alguma coisa se moveu atrás de uma janela.

— Ei!

Dante ergueu os olhos.

Um homem surgiu entre as tábuas da janela, apontando uma arma diretamente para Dante.

— Quem tá aí? — exigiu o desconhecido, acompanhando seus movimentos pelo cano da pistola.

Dante ergueu uma das mãos, sem fazer qualquer movimento brusco.

— Só um cara procurando um lugar pra tomar café — respondeu, com uma tranquilidade quase ofensiva.

— Larga a mochila! — ordenou o saqueador.

Dante observou a posição da arma, a distância entre ambos e a cobertura oferecida pelo muro.

— Imagino que não tenha café.

O primeiro disparo arrancou um pedaço do reboco ao lado de sua cabeça.

Ele se jogou atrás do muro antes que o homem atirasse novamente.

— FILHO DA PUTA! — gritou outra voz masculina, vinda do interior da casa.

Dante puxou a pistola.

Claro. Sempre os mais simpáticos.

A experiência militar havia lhe ensinado muita coisa, mas a guerra civil refinara algumas dessas lições de maneiras desagradáveis. A principal delas era que um confronto raramente acontecia como nos treinamentos. Armas falhavam, pessoas entravam em pânico e um único erro podia transformar anos de experiência em uma informação completamente inútil.

Por isso, Dante não desperdiçou tempo tentando negociar enquanto tiros atingiam os tijolos ao seu redor.

Deslocou-se para a extremidade do muro, mantendo-se fora da linha de visão da janela. Ouviu uma porta bater e percebeu que alguém estava saindo para alcançá-lo pelo quintal.

O primeiro homem apareceu com uma pistola nas mãos.

Dante atirou antes que ele terminasse de erguer a arma.

O disparo atingiu o homem no peito, fazendo-o cambalear contra a parede. Ainda tentou manter a pistola apontada, mas um segundo tiro o derrubou sobre os degraus.

Dante avançou para uma nova posição e verificou a entrada.

Um terceiro disparo veio do interior da casa, atravessando a madeira da porta.

Estilhaços atingiram seu ombro.

— Temos um problema de comunicação aqui! — Dante gritou. — Estou começando a achar que vocês não querem visitas.

A resposta foi outra rajada de tiros.

Ele esperou até que cessassem.

Pela cadência irregular e pelo barulho da arma, calculou que o atirador utilizava um fuzil antigo, provavelmente mal conservado. Não sabia quantos cartuchos ainda restavam, mas estava decidido a não gastar os seus descobrindo.

Um movimento na janela revelou o homem mudando de posição.

Dante disparou uma única vez.

O vulto desapareceu.

Não havia como saber se o atingira.

Permaneceu atrás da cobertura, ouvindo uma sequência de palavrões e o som de alguma coisa pesada caindo sobre o piso. Então vieram passos apressados.

Alguém se aproximava pelo corredor lateral.

Dante recuou até uma pilastra, procurando manter o obstáculo entre si e a entrada. O homem surgiu com uma faca longa em uma das mãos e sangue seco nas mangas da camisa.

Era jovem, talvez pouco mais de vinte anos.

Seus olhos estavam arregalados.

Por um instante, ambos se encararam.

— Solta a arma! — o rapaz ordenou.

Dante inclinou ligeiramente a cabeça.

— Você percebeu que trouxe uma faca para uma discussão com armas de fogo?

O rapaz hesitou, mas não recuou. Em vez disso, lançou um olhar rápido para a pistola de Dante e avançou quando o viu mudar de posição.

Foi um movimento desajeitado e desesperado.

Dante desviou da primeira investida, segurou o braço armado e usou o próprio impulso do homem para lançá-lo contra a pilastra. A faca caiu, mas o rapaz conseguiu agarrar sua jaqueta e puxá-lo para perto.

Os dois se chocaram contra a parede.

O homem tentou alcançar a arma em sua cintura.

Dante atingiu seu rosto com o cotovelo, afastou-se o suficiente para recuperar o controle da pistola e disparou.

O rapaz caiu de joelhos.

Por um segundo, pareceu surpreso.

Depois tombou de lado.

Dante respirou fundo, mantendo a arma apontada até ter certeza de que ele não se levantaria.

Sentiu uma dor aguda no antebraço.

A manga estava rasgada, revelando um corte superficial, provavelmente provocado pela faca durante a luta. Sangrava menos do que parecia.

Ainda assim, precisaria limpá-lo assim que voltasse para casa.

— Fantástico — resmungou. — Era exatamente o que faltava.

Um ruído vindo da entrada principal interrompeu seus pensamentos.

O homem do fuzil.

Dante se virou no instante em que o atirador apareceu na soleira, segurando a arma contra o ombro.

O disparo atingiu a pilastra.

Fragmentos de concreto cortaram o rosto de Dante, que recuou rapidamente para trás da parede. Outro tiro veio em seguida, tão próximo que sentiu o impacto vibrar através da alvenaria.

O homem avançava.

— Vou acabar com você!

Dante examinou a própria posição. Estava encurralado entre o muro e a lateral da casa, com poucas opções de retirada.

Poderia tentar saltar para o quintal vizinho, mas ficaria exposto durante a escalada.

O adversário continuou se aproximando.

— Aparece, seu desgraçado!

Dante esperou até ouvir os passos alcançarem a esquina.

Quando o cano do fuzil surgiu, moveu-se para fora da sua linha de tiro e disparou duas vezes.

O homem caiu para trás, desequilibrado, deixando a arma escapar das mãos. Bateu contra o batente da porta e escorregou até o chão, tentando pressionar o ferimento no abdômen.

Dante manteve distância.

O atirador respirava com dificuldade, mas ainda procurava alguma coisa perto da cintura.

Uma segunda arma.

— Não — Dante advertiu.

O homem puxou a pistola.

Dante atirou.

O movimento cessou.

Durante alguns segundos, a única coisa que se ouviu foi o gotejar da água acumulada na calha.

Dante permaneceu imóvel, observando o corpo diante da porta.

Era o terceiro.

Três homens.

Três ameaças eliminadas.

Sua respiração estava acelerada, e o braço ferido começava a latejar. Havia gastado munição demais para uma incursão que deveria ter terminado com algumas baterias e um frasco de antisséptico.

Olhou para o homem caído.

Depois para a arma ainda próxima da sua mão.

Você teve sua chance.

Era uma frase que costumava repetir mentalmente depois de confrontos como aquele.

Não porque precisasse convencer alguém.

Mas porque, em algum lugar de sua cabeça, ainda existia uma parte inconveniente que insistia em perguntar se todas aquelas mortes tinham sido realmente necessárias.

Dante empurrou a pergunta para longe.

Perguntas daquele tipo podiam esperar.

Primeiro precisava ter certeza de que não havia mais ninguém armado dentro da casa.

Entrou com cautela.

O cheiro o atingiu antes que seus olhos se acostumassem à penumbra.

Sangue e fumaça tomavam conta do ambiente.

A sala estava completamente revirada. Gavetas haviam sido arrancadas dos móveis, almofadas rasgadas e fotografias espalhadas pelo chão. Uma televisão quebrada repousava sobre um tapete encharcado.

Perto da mesa de jantar havia um homem de meia-idade.

O corpo estava caído de lado, com os braços amarrados atrás das costas.

Dante se aproximou o suficiente para verificar que já não respirava.

Na cozinha encontrou uma mulher, também amarrada, caída junto aos armários. Seu rosto estava parcialmente encoberto pelos cabelos, e havia sinais evidentes de que tentara resistir.

Mais adiante, próximo à escada, encontrou uma criança.

O menino parecia ter uns dez anos. Vestia um moletom verde e ainda segurava um pequeno carrinho de plástico, desses que vinham em embalagens de supermercado.

Dante parou.

Não havia necessidade de verificar seus sinais vitais. Os ferimentos e a quantidade de sangue tornavam o resultado evidente.

Permaneceu diante dele por mais tempo do que pretendia.

Em outra época, teria sentido raiva suficiente para gritar.

Agora, a sensação era diferente.

Um peso frio e familiar se instalou em seu estômago, acompanhado por um pensamento que o irritou imediatamente: se tivesse chegado mais cedo, talvez pudesse ter feito alguma coisa.

Olhou ao redor.

As marcas no chão indicavam que os moradores haviam sido reunidos ali antes de morrer. Algumas cadeiras estavam tombadas, e um pedaço de corda permanecia preso ao pé da mesa.

Não parecera uma tentativa de roubo que saíra do controle.

Aqueles homens haviam tido tempo.

Tempo para ameaçar, procurar suprimentos, machucar pessoas que não tinham condições de se defender.

Dante apertou o maxilar.

Recordou a maneira como o rapaz da faca avançara contra ele, mesmo quando ainda tinha a oportunidade de recuar.

Você teve sua chance.

Dessa vez, a frase veio sem qualquer esforço.

Ergueu os olhos para o corredor.

Três corpos. Uma casa relativamente grande. Havia roupas penduradas no quintal, mais do que aquelas três pessoas provavelmente precisariam.

Podia haver outros moradores.

E, se houvesse, talvez estivessem escondidos.

Dante respirou fundo e ergueu a voz.

— Muito bem! Se ainda tem alguém vivo nessa casa, é melhor sair agora com as mãos pra cima!

Sua voz atravessou a sala e se perdeu pelos corredores.

Esperou.

Nenhuma resposta.

— Os três idiotas que estavam aqui já morreram. Então, se vocês não pretendem atirar em mim, podemos evitar mais uma confusão.

O silêncio persistiu.

Dante inclinou ligeiramente a cabeça, tentando identificar qualquer ruído que não pertencesse à casa.

Uma gota caiu em algum recipiente.

Lá fora, o vento fez uma porta bater.

Mais nada.

— Estou falando sério! Não quero surpresas.

Aguardou alguns segundos antes de voltar a caminhar.

Não pretendia confiar inteiramente na ausência de resposta. Pessoas aterrorizadas frequentemente faziam coisas estúpidas, incluindo permanecer escondidas até que alguém se aproximasse o suficiente para levar uma facada.

Começou pelos cômodos do térreo.

A cozinha já havia sido praticamente esvaziada. Gavetas abertas, embalagens espalhadas e armários revirados indicavam que os saqueadores haviam procurado qualquer coisa que pudesse ser consumida, vendida ou trocada.

Perto da porta, encontrou uma mochila grande, de lona militar, apoiada contra um dos armários.

Estava tão cheia que o zíper mal fechava.

Dante ergueu uma sobrancelha.

— Olha só. Serviço de entrega.

Abaixou-se e abriu a mochila.

Havia algumas latas de conserva, pacotes de alimentos, uma lanterna, pilhas, medicamentos e pequenos objetos que provavelmente tinham pertencido aos moradores.

Os homens haviam feito um trabalho considerável reunindo tudo aquilo.

Dante examinou o conteúdo, verificando especialmente os medicamentos e as condições dos alimentos.

Encontrou um frasco de antisséptico, ainda lacrado.

— Vocês não sabem como facilitaram meu dia.

Fechou a mochila e a colocou sobre o ombro oposto ao da sua própria bolsa.

O peso adicional não era desprezível, mas os suprimentos compensavam o esforço.

Ainda assim, não pretendia ir embora sem examinar o restante da casa.

Os saqueadores haviam procurado objetos de valor e alimentos. Dante, por outro lado, precisava de coisas que muitos considerariam lixo.

Fios elétricos, componentes de equipamentos quebrados, recipientes resistentes, ferramentas pequenas.

Uma peça aparentemente inútil poderia ser exatamente o que faltava para consertar alguma coisa no abrigo.

Abriu alguns armários, examinou uma gaveta cheia de utensílios domésticos e verificou o espaço sob a pia.

Nada particularmente interessante.

No andar superior, encontrou dois quartos saqueados e um banheiro cuja tubulação havia sido arrancada da parede.

Um dos quartos possuía uma escrivaninha com as gavetas abertas. Papéis estavam espalhados pelo chão, misturados a fotografias e roupas.

Dante examinou rapidamente o móvel, encontrou alguns clipes de metal e uma pequena chave de fenda.

Guardou a ferramenta.

— Não é exatamente um prêmio de loteria, mas serve.

Conferiu os espaços debaixo das camas, os armários e as portas que davam acesso à parte danificada do telhado.

Ninguém.

Voltou ao térreo.

Restava a área de serviço, localizada no fundo da casa, depois de um corredor estreito.

A porta estava parcialmente aberta.

Dante a empurrou com a ponta da bota, mantendo a pistola apontada para o interior.

O pequeno cômodo recebia pouca luz. Uma janela alta, parcialmente coberta por uma lona, iluminava o tanque de concreto e uma máquina de lavar antiga. Havia um armário de madeira encostado à parede e uma pilha de baldes e utensílios de limpeza ocupando o canto próximo à janela.

Dante permaneceu na entrada por alguns instantes, ouvindo.

Nada além do gotejar irregular de uma torneira.

Entrou.

Examinou a janela, depois a parte inferior do tanque e o espaço atrás da porta.

Não encontrou ninguém.

O armário tinha algumas portas, uma delas torta nas dobradiças.

Abriu a primeira.

Produtos de limpeza.

Na segunda, encontrou um rolo de sacos plásticos, um frasco de álcool quase vazio e alguns panos velhos.

Pegou o álcool.

— Finalmente alguma coisa que presta.

O corte no antebraço latejou quando ele estendeu o braço para alcançar uma prateleira mais alta.

Fez uma careta.

— É, eu sei. Você também quer atenção.

Verificou o restante das prateleiras, mas não encontrou nada que justificasse o espaço na mochila.

Foi então que percebeu a toalha.

Estava pendurada em um gancho próximo ao tanque, dobrada cuidadosamente, quase deslocada naquele ambiente destruído.

Não era nova, mas parecia limpa.

Dante a retirou do gancho.

Desdobrou o tecido, examinando algumas manchas antigas nas bordas.

Era grande o suficiente para cobrir uma pessoa pequena.

Seu pensamento voltou ao menino caído próximo à escada.

Por alguns instantes, permaneceu segurando a toalha.

A lona na janela se moveu com uma corrente de ar.

Dante observou o cômodo por mais alguns segundos.

Aproximou-se da máquina e examinou o chão. Não viu nada além de poeira, algumas manchas de umidade e embalagens vazias de produtos de limpeza.

Guardou a pistola no coldre, mantendo a mão próxima à arma.

Antes de sair, lançou uma última olhada pelo cômodo.

Não havia encontrado mais ninguém.

Dante voltou até o corpo do menino, no corredor, com a toalha dobrada sobre o braço.

Ainda precisava fazer uma última coisa antes de ir embora.

Ajoelhou-se com alguma dificuldade, apoiando a mochila dos saqueadores ao lado do joelho.

O pequeno carrinho continuava preso entre os dedos da criança.

Por um instante, pensou em tirá-lo dali, mas não soube por quê. Talvez porque parecesse errado deixá-lo daquele jeito, cercado por móveis destruídos e manchas de sangue. Talvez porque, havia muitos anos, alguém lhe dissera que os mortos mereciam um mínimo de dignidade.

Acabou não tocando no carrinho.

Desdobrou a toalha e a estendeu cuidadosamente sobre o pequeno corpo, cobrindo primeiro o rosto e depois o restante.

O tecido era insuficiente para escondê-lo completamente.

Dante ajeitou uma das extremidades.

Foi tudo o que conseguiu fazer.

— Desculpa, garoto — murmurou.

Ficou agachado por mais alguns segundos.

Não havia nada de útil que pudesse dizer àquela família. Nenhuma explicação. Nenhuma promessa. E, certamente, nenhuma justificativa que tornasse aquilo menos absurdo.

Levantou-se.

Foi então que ouviu um ruído distante de motor. Aproximou-se da janela e espiou através de uma fresta nas tábuas. Um veículo atravessava lentamente o cruzamento, alguns quarteirões adiante. Não conseguiu identificar se pertencia a uma milícia ou a outro grupo de saqueadores.

Os tiros certamente teriam atraído atenção.

Precisava sair.

Ao alcançar a porta, examinou o quintal uma última vez.

O veículo havia desaparecido, mas novas vozes ecoavam ao longe.

Dante ajustou as duas mochilas nos ombros e saiu pelos fundos, mantendo-se próximo aos muros até desaparecer entre as casas abandonadas.

Não olhou para trás.

Para ele, aquela seria apenas mais uma casa.

Mais uma família morta.

Mais três homens cujos rostos acabariam misturados aos de tantos outros que tentava esquecer.

Não havia motivo para se lembrar daquele lugar.

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