Sabe a história de que sua vida inteira passa diante de seus olhos um segundo antes de você morrer? Não é nada além da mais pura verdade. Eu estou aqui entre os carreiristas olhando a garota do Distrito 12 dar a última cerrada no galho que segura um ninho de teleguiadas. Os olhos cinzentos daquela garota nem sempre foram o meu maior medo.
Eu não lembro muito bem do lugar em que eu nasci, mas eu lembro de uma parte da minha infância em que eu fui realmente feliz, eu vivia com meus pais e meu irmãos, mas em uma noite os pacificadores entraram em nossa casa e destruíram a vida que tínhamos. Eu lembro de minha mãe me esconder no armário e pedir pra eu ficar em silêncio, eu ainda lembro de como os olhos dela estavam brilhantes por causa das lágrimas, eu lembro das pessoas me falarem que eu tenho os olhos dela. Minha mãe não conseguiu esconder meus irmãos, e pelo barulho dos tiros e o olhar dela, eu sabia que eles haviam sido mortos.
Por quê? Eu sempre me perguntei. Eu lembro de como os pacificadores entraram no quarto arrastando o corpo do meu pai coberto de sangue, eu lembro daquele último olhar da minha mãe pelas frestas do guarda-roupa antes de um pacificador lhe dar um tiro na cabeça. As minhas bonecas ficaram todas cobertas de sangue. Os pacificadores devem ter ouvido o barulho do meu choro, e quando eles abriram o guarda-roupa eu tinha certeza que iria me juntar à minha família.Ao invés disso, eles olharam para mim e falaram – Vamos ficar com essa daqui.
Eu preferia morrer do que ser carregada por um pacificador para fora da minha casa e olhar os corpos da minha família espalhados pela casa. Era muito sangue... Muito sangue...
Me deram um novo nome, Glimmer, eu já não era mais quem eu havia sido, me transformaram em outra pessoa. Me desmontaram e montaram de novo. Eles me levaram para uma academia, como se fosse uma escola. Lá eles nos ensinavam sobre os Distritos, e como deveríamos honrar o nosso através dos Jogos. nos mostravam armas e nos ensinavam a usá-las. Eu nunca vou me esquecer de um homem que nos ensinava arco e flecha, nunca soube o nome dele, mas sempre vou lembrar daquele seu rosto sórdido e suas mãos asquerosas... Ele sempre pedia para eu ficar com ele depois das aulas, e quando estávamos sozinhos, quando ninguém estava olhando... Ele sempre fazia coisas terríveis comigo... Doía tanto... Coisas terríveis... Eu era apenas uma garotinha...
Eu fui crescendo na academia, aprendi a usar todos os tipos de arma que se pode imaginar. Nos ensinaram a ser fortes, a não ter medo... Mas no fundo eu sempre tive medo... De tudo. Do que seria a minha vida no futuro... Eu nunca esqueci dos meus pais... Dos meus irmãos... Eu parecia um iceberg por fora, mas acho que fundo, nunca deixei de ser aquela garotinha assustada escondida dentro do guarda-roupa.
Eu nunca aceitei o fato de ter sido escolhida para me voluntariar para os Jogos. Mas eu não podia me recusar, ou eu seria torturada de maneiras que nem consigo imaginar, cortariam minha língua, me tornariam uma escrava... Eu não tinha escolha, nunca tive.
Fui levada para a Capital, conheci o Marvel, ele sempre foi muito legal comigo. Ele fingia não me escutar chorando. Ele nunca disse pra ninguém que eu chorava. Eu chorava muito. Acho que o Marvel foi uma das únicas pessoas com quem eu me importei na vida. Ele vinha para o meu quarto a noite e me abraçava, mas nunca tentou fazer aquelas coisas que o homem que me ensinou arco e flecha fazia... Ele nunca quis me machucar.
O Marvel sempre se importou comigo... Me fez sentir querida e especial... Acima de tudo, querida. Acho que ao lado dele a Capital se tornou menos insuportável, todas aquelas pessoas me dizendo o que falar, como agir, o que tinha que vestir. Eu estava sempre uma maravilha na frente das câmeras, mas por dentro eu já estava morrendo.
Quando a minha plataforma de metal subiu e senti o aroma dos pinheiros da arena, eu finalmente me dei conta de que nunca mais teria minha vida de volta, finalmente me dei conta de que minha vida havia sido arrancada anos atrás quando aqueles pacificadores entraram na minha casa. Eu precisava fazer alguma coisa... Precisava ter a minha vida de volta... Eu precisava tentar vencer.
E quando encontramos o garoto do Distrito 12, eu não queria fazer nada além de correr para o meio da floresta e abandonar o meu grupo. Carreiristas... É assim que eles nos chamam. Bem, eu sabia que uma hora ou outra nós todos acabaríamos nos matando... Mas eu nunca consegui pensar em como seria a morte do Marvel...Simplesmente insuportável... Já perdi tantas pessoas queridas na minha vida... Tantas pessoas que eu amei... Eu acho que... Eu sempre amei o Marvel.
Eu aceitei o garoto do Distrito 12 no nosso grupo só porque o Marvel concordou com a ideia. Ele disse que ele nos levaria até a garota dos olhos cinzentos do Distrito 12. Ela tirou nota 11 no treinamento, ela sempre foi um claro obstáculo para nós.
Eu lembro de andarmos pela floresta de noite, e quando caminhamos até a fogueira e encontramos a garota do Distrito 9 adormecida... Eu não sei... Quando ela acordou assustada... Aqueles olhos... Me lembrei do último olhar da minha mãe... Eu simplesmente... Não consegui... Não consegui... O garoto do 12 teve que terminar o serviço.
Quando finalmente encontramos a garota do 12, nós corremos como loucos atrás dela, acho que estávamos todos tão assustados que não percebemos que aquela garota estava exatamente como nós... Ela não era nossa inimiga... Ela era vítima. Vítima da Capital, assim como eu... Como o Marvel... Como... Como a minha família.
Ela conseguiu subir em uma árvore... Eu tentei usar o meu arco e flecha, mas não acertei. Sempre que uso um arco e flecha eu me lembro do homem que me ensinou a usá-lo... E simplesmente não consigo... E havia uma parte de mim que não queria acertá-la.
Esperamos a garota do 12 descer da árvore... Pegamos no sono. Quando eu acordei, me lembro de olhar novamente para aqueles olhos cinzentos e ver ela terminar de cerrar o galho... O galho com o ninho de vespas teleguiadas... O ninho que caiu com uma velocidade impressionante em cima de nós. Foi tudo tão rápido... Tão rápido... E quando vi o meu corpo estava coberto de calombos do tamanho de ameixas. Eu tentei correr, todos já haviam corrido, e me deixaram para trás. Eles me abandonaram... Por quê todos me abandonam? Por quê todos me deixam sozinha? Eu não quero ficar sozinha... Já não tenho mais forças para correr. Caí no chão coberto de folhas... O aroma de pinheiro está sempre no ar... Todo o meu corpo está doendo... Mas a dor que vem de fora não é nada comparada a dor que vem de dentro... A dor que senti minha vida inteira... Minha vida... Que agora chegou ao final...
