In the name of the Father
In the name of the Father
Capítulo 113 min de lectura

Início

Três meses se passaram desde a morte de César. Félix, que ficara extremamente angustiado, mergulhado em uma profunda depressão, conseguiu a superação ao constatar por si próprio que havia atingindo a plenitude. Plenitude com a qual ele jamais sonhara, na vida e no amor. De fato, sua vida era guiada pelo amor, principalmente, o amor de Niko, sua bússola, seu verdadeiro anjo da guarda.

Contudo, três meses ainda era pouco tempo, e só o tempo curaria as feridas que, de vez em quando, ainda se abriam rasgando Félix por dentro. Tristeza, saudade, aflição, eram algumas dessas feridas que ainda não haviam cicatrizado totalmente.

Três meses era pouco para esquecer o inesquecível. Mas, o tempo não para. Mais três meses se passaram e, embora a memória de alguém que se ama seja imortal, a vida dos que estão vivos continua. Continua, guardando essa memória no fundo do baú chamado coração. E, no coração de Félix a memória do seu papi soberano estaria guardada eternamente. Porém, seu coração estava bem mais cheio do que sua mente poderia imaginar. Cheio de sentimentos que, cada dia, se fortaleciam mais, todos inexplicáveis, mas resumidos a uma única palavra: amor. A qual talvez já fosse plena de explicação.

Assim, a vida na casa dos Corona-Khoury seguia. Seis meses haviam se passado desde a morte de César. Nesse tempo, Félix tomou decisões importantes. Umas grandiosas, outras, pequenos gestos que valiam muito. Uma das decisões foi, finalmente, registrar legalmente os seus filhos com seu sobrenome. Jayme e Fabrício, que eram até então apenas Corona, se tornaram também Khoury. E Félix havia tomado essa grande e importante decisão unicamente por amor. Outra decisão foi emoldurar o desenho que Jayminho havia feito para o vô César algum tempo antes de sua morte. O desenho que o menino havia intitulado como “Minha Linda Família” e que retratava os cinco juntos: César, Félix, Niko, Fabrício e o próprio Jayme. O desenho agora estampava uma das paredes da sala e era mais uma forma de Félix se lembrar do pai.

Após seis meses, parecia que tudo havia voltado ao normal. Claro, sempre existiria a ausência daquele tão soberano pai, mas, a vida continuava cheia da presença do amor daquela família.

__________

Era sexta-feira, e como o mês não era de muito movimento, Niko não ia ao restaurante pela manhã, preferia passar mais um tempo com seu marido como ele sempre pedia e aproveitar as manhãs mais frias de inverno ao lado do amado e dos filhos, apesar destes últimos irem à escola logo cedo.

Na cama, Félix ainda dormia quando Niko começou a acordá-lo, cobrindo-o de beijos.

– Amor... Vamos levantar... Tomar um café quentinho antes dos meninos irem para a escola...

Félix acordou e antes mesmo de abrir os olhos, abriu um sorriso.

– Ah carneirinho... É tão bom acordar assim...

Niko sorriu. – Também acho...

Félix levantou, sentando na cama e eles deram o primeiro beijo do dia.

– Olha como está lá fora, amor... – Falou Niko apontando para a janela. – Está esfriando, nublado... Sabe o que isso significa?!

Félix deu um sorrisinho maroto. – Ah sei, carneirão! Significa que você vai ficar com frio, porque você é muito friento, e eu terei a árdua tarefa de te aquecer!

Niko riu e o abraçou, sussurrando em seu ouvido: — É isso mesmo que eu pensei... Já que eu vou só mais tarde para o restaurante...

– Hum... Gostei de saber...

– Aham... A não ser que liguem ou que aconteça alguma coisa, aí eu vou...

– Não, Niko, nem pense nisso, não vai acontecer nada, e se acontecer você manda se virarem, pra isso você tem assistentes...

– Ah Félix, também não é assim...

– É assim sim! – Félix se jogou em cima dele, deitando-o na cama. – Quer saber, carneirinho... – Ele beijou seu pescoço e cantarolou ao seu ouvido: — Eu só quero que você me aqueça nesse inverno, e que tudo mais vá pro inferno!

Niko gargalhou com aquilo. Félix sempre o surpreendia.

– Tá bom, meu amor... Agora, sai de cima de mim, se veste, e vamos descer... Depois...

– Depois...

– Depois a gente volta... – Agora, Niko beijou seu pescoço. – E eu te aqueço! – Piscou para ele.

Félix levantou imediatamente. Niko desceu na frente para esperá-lo.

Na mesa, Adriana já servia o café de Jayme, enquanto o menino terminava de se arrumar para a escola. Niko levava Fabrício para comer a papinha de frutas quando o telefone tocou.

Adriana atendeu pelo telefone da cozinha, enquanto Niko colocava Fabrício na cadeirinha.

– Com quem quer falar? (...) Ah, qualquer um dos dois?! (...) Sim, eu vou chamar um dos patrões...

Adriana chegou perto de Niko, mas não parecia muito a vontade em entregar o telefone para ele.

– É... Seu Niko...

– Quem é, Adriana?

– É... É aquele advogado, sabe... O seu Eron...

– O Eron?! – Niko estranhou muito aquela ligação repentina. Há tempos eles não se falavam.

– Por que será que ele ligou?!

– Sei não, seu Niko! Ele pediu pra falar com qualquer um dos dois, ou o senhor ou o seu Félix!

– Comigo ou com o Félix?! – Sem entender, Niko pegou o telefone. – Bom, eu vou atender, então... Dá a papinha do Fabrício, tá!

Ele a entregou a comida do seu bebê e foi para a sala.

– Alô, Eron?! Aqui é o Niko...

– Ah Niko! Nossa, há quanto tempo não ouço sua voz...

– Eu aposto que você não ligou para ouvir minha voz, né Eron?!

– Não, não Niko... Foi por outra coisa! Está tudo bem aí?

– Está, tudo ótimo! Por quê?!

– Por que... Eu tenho um assunto sério para tratar com vocês! Com você e, principalmente, com o Félix!

– Principalmente com o Félix? Que assunto?

– Trata-se da abertura do testamento do doutor César!

Niko se surpreendeu. – I-isso? Mas... O que você tem que falar com o Félix sobre isso?

– O Félix é o filho... É um dos beneficiados e tem que estar presente na leitura do testamento do pai...

– Mas, por que isso agora?

– Por que passou o prazo que o doutor César havia deixado nas cláusulas testamentais! Eram, no máximo, até seis meses após sua morte, e, portanto, chegou a hora de abrir esse testamento! Eu já poderia ter marcado isso antes, mas conversei com a Paloma e ela não queria e também disse que o Félix havia ficado muito abalado... Então, esperei completar o prazo máximo!

– Eu entendo... Isso foi verdade, todos ficamos muito abalados... Mas, onde será?

– Será na casa da família Khoury! Eu gostaria de avisar diretamente ao Félix, mas foi bom você ter atendido, assim você fala pra ele!

– Ai... Eron, não sei como o Félix vai reagir ao saber... Ele já conseguiu se recuperar desse baque, mas, acho que não totalmente... Às vezes, o pego tão triste, lembrando os momentos com o pai...

– Eu te entendo, Niko, mas é extremamente necessária a presença do Félix no dia!

– E quando será?

– Ainda não marquei de certeza com a Paloma nem com a dona Pilar, mas tudo indica que nessa próxima semana, já nessa segunda ou terça-feira!

– Já?! Mas, está muito perto, hoje já é sexta... – Félix ia descendo as escadas quando viu Niko falando ao telefone e ouviu: — Eu não sei como vou falar isso para o Félix, Eron!

Félix, obviamente, não gostou nada de ouvir o nome daquele a quem chamava de lacraia.

– Mesmo que ele não queira, terá que vir Niko! Como já disse, o prazo para a abertura do testamento já se findou e ele não pode ser aberto sem a presença do Félix!

– Eu sei, Eron, já entendi... Bom, eu vou ver como dou essa notícia para ele, mas... Estou com o pressentimento de que não vai ser nada fácil...

– Bom, eu já fiz minha parte! Agora, basta vocês virem para São Paulo...

– Sim, Eron... Obrigado!

Niko desligou e virou e deu de cara com seu marido que olhava sério para ele com os braços cruzados.

– Será que eu provoquei um tornado no deserto durante a travessia do povo escolhido para essa lacraia estar ligando aqui pra casa?! E você aí de papinho com ela?!

– Félix, o Eron tinha uma coisa muito importante para dizer...

– Ah ah! O que pode ser tão importante para aquilo ligar?! Eu estou pouco me lixando para os probleminhas daquela lacraia...

– Félix, não era nenhum problema com o Eron, me escuta... Ele disse que tem algo muito importante em mãos e que é essencial sua presença...

– Quê?! O que a lacraia poderia ter que me interesse?!

– Félix, não lembra que o Eron era o advogado do seu pai?!

Félix mudou de expressão ficando mais sério. – Lembro...

– Então... Ele ligou para avisar, amor, que...

– Que o quê, Niko?! Desembucha...

– Que haverá a abertura do testamento do doutor César e será nessa semana que vem...

Félix ficou pálido ao ouvir aquilo e sentou no sofá. Jogou o olhar distante, para o nada, como se lembrasse de algo. Lembrou-se das diversas vezes em que o pai insinuou que ele só se estava interessado no seu testamento, e quantas vezes o próprio Félix não achou que aquilo fosse sua verdade, que ele só se interessa pela herança do pai e nada mais.

Nos últimos anos, porém, ele havia aprendido que os bens materiais pouco lhe interessavam, que o maior bem de todos ele não poderia nunca comprar... Ele ganhou... Foi o amor! O amor de seu marido, o amor da sua família, e o amor de seu pai que ele tanto esperou e que perdeu tão ligeiro, quando ele menos esperava, quando ele mais queria viver esse amor finalmente ganho.

Ouvir que havia chegado a hora de ler o testamento do papi soberano, fazia Félix entrar num estado angustiante, confuso, insensato. Como podia haver um momento, o qual Félix chegou a desejar, e que agora era a última coisa que ele queria. Mas, antes, quantas e quantas vezes na vida ele já não desejou que esse dia chegasse...

– Papi, eu estou fazendo direitinho? – Perguntava Félix enquanto tentava estacionar o carro.

– Está! Continue assim... Pelo visto você vai aprender a dirigir rápido!

O garoto olhou surpreso para o pai e sorriu orgulhoso. Era raro receber um elogio.

– Eu quero dirigir bem como você papi!

– Vá com calma... Você só tem dezesseis anos, ainda tem muito para aprender... Mas, só para te lembrar, você já está bem grandinho para me chamar de papi!

O sorriso logo foi apagado de seu rosto.

– Desculpa, papi, quer dizer, pai!

– Tá, tá, preste atenção senão bate o carro...

– Ok! – O garoto manobrou com todo cuidado e conseguiu estacionar perfeitamente.

Ambos saíram do carro e Félix exclamou orgulhoso e eufórico.

– Você viu, pai?! É a primeira vez que estaciono e já consegui botar direitinho na vaga! Eu serei um ótimo motorista...

– É... Talvez! Pelo menos, vamos ver se isso você aprende... Mas, não se gabe tanto, todo homem que se preze tem que aprender a dirigir!

O garoto baixou a cabeça. O pai continuou:

– Vamos, chega de aulas por hoje! Guarde as chaves do carro que, se tudo der certo, um dia ele poderá ser seu!

César entrou e Félix ficou lá. Olhou para ele, ajeitou a sobrancelha com o dedinho e falou consigo:

– Mal posso esperar para que o carro seja meu! E todo o resto!

...

– Félix, amor, o que você tem?!

– Hein?! O que?! – O chamado de Niko fez Félix acordar de seus pensamentos.

– Querido, você ficou pálido quando te falei do testamento do seu pai...

– Eu... Eu não quero saber disso, Niko!

– Mas, Félix, o Eron falou que é de extrema importância que você vá e esteja presente no dia da abertura do documento...

– Não! Eu não vou! – Félix estava decidido.

– Mas, Félix... O Eron disse que é necessário que você esteja lá...

– Que se dane o que aquela lacraia disse! – Félix já estava contrariado. – Eu não quero ir, eu não vou!

– Félix, eu entendo que você não queira ir... Mas, deve ser realmente necessária sua presença, senão ele não ligaria...

– Ah, mas eu devo ter jogado pedra na cruz pra você estar se importando tanto com esse assunto e com a ligação dessa lacraia! Eu já fui muito interessado nessa porcaria de testamento no passado, agora eu não quero nem saber... Posso saber por que logo você está tão interessado agora?!

Niko entendeu a pergunta indireta de Félix. Sentou e levou as mãos ao rosto e começou a chorar. Não imaginou que ouviria isso do marido tão repentinamente.

– N-não chora, Niko...

– Félix... Eu não estou nem um pouco interessado em nem uma vírgula desse testamento! – Ele continuava a chorar. – Eu pensei que você soubesse que eu nunca tive interesse em sequer um centavo da sua família! Mas, pelo jeito você não sabe... – Niko gritou no final. – Não sabe que a única parte da família Khoury que me interessa é você!

– C-carneirinho... Desculpa... Eu não quis dizer...

– Mas, você disse... E... Não sabe como me magoa com essa insinuação, Félix!

Félix não aguentava ver seu carneirinho chorando, ainda mais por causa dos seus gritos. Aproximou-se e o abraçou forte, também deixando as lágrimas rolarem em seu rosto.

– Desculpa, Niko, desculpa... Me desculpa, carneirinho... Eu te amo, você é a pessoa mais maravilhosa desse mundo... Eu sei que você nunca me olhou com interesse, me perdoa... Me perdoa, meu amor, me perdoa...

Niko respirou profundamente e o olhou nos olhos.

– E-eu... Eu te amo muito, Félix... Eu sei que você falou sem pensar... É claro que eu te perdoo! Mas, eu quero que você saiba, não, que você tenha a certeza, que tudo que eu faço é para te ver feliz!

– Eu sei, meu carneirinho, eu sei... – Félix lhe deu um beijo suave. – Eu também te amo! Mas, eu não quero mesmo ir... Estar lá e... – Uma lágrima voltou a rolar no rosto de Félix. – E pensar que... Em outros tempos eu já... Já esperei por isso... – Félix o abraçou. – Niko, eu volto a me sentir mal, entende?!

Niko lhe afagou com uma das mãos em seus cabelos, como se Félix fosse, naquele momento, um garotinho assustado.

– Calma... Calma... Meu amor, eu estou aqui com você... E sempre vou estar!

Jayme desceu e se deparou com o pai Félix chorando no ombro do pai Niko.

– O que foi com vocês?! Por que o pai Félix tá chorando? – Perguntou o menino assustado, indo em direção aos pais.

– Ah, nada, nada não meu filho, é que seu pai ficou triste, só isso... – Respondeu Niko.

Jayme abraçou Félix e pediu: — Fica assim não, pai! Se vocês ficam tristes eu também fico!

Félix sorriu ao ouvir aquilo e enxugou as lágrimas e abraçou também o filho.

– Fica triste não, filho! Eu já estou melhor, viu!

– Você chorou porque se lembrou do vô César?!

Félix achava incrível como o amor entre sua família era mágico. Parecia que todos sabiam o que os outros estavam sentindo, sempre.

– Foi, meu filho, eu me lembrei do papi... Mas, agora vamos tomar café, senão você chega muito atrasado à escola!

Niko ficou mais aliviado, mas sabia que seria muito difícil para Félix aceitar aquela novidade.

...

Comentarios & Reacciones

Comparte tus opiniones, pega estampas coleccionables e interactúa con el autor y la comunidad.

Índice de la Historia