Queria ter nascido num mundo onde todos fossem aceitos, independente de quem fossem, queria que humanos e mutantes pudessem conviver juntos em paz, que minha vida não se resumisse em fuga para minha sobrevivência, que não precisasse perder pessoas por causa da intolerância, que o mundo realmente fosse aquele lugar maravilhoso que eu idealizava quando criança.
— Caso você saiba da presença de alguma aberração perto de sua casa, ligue para o telefone que estará passando agora em sua tela. Eles são perigosos e colocarão sua vida e a de sua família em risco. — o âncora do jornal anunciava enquanto eu brincava com meus brinquedos, era comum mensagens como essa passarem na TV.
Mamãe olhava o nada, preocupada. Não entendia porque ela tinha a mesma reação sempre que anunciavam isso.
Eu era muito jovem para ver a verdade.
Diziam que nossa existência trazia perigo para os normais, mas nunca pensavam que com tal atitude, minha família e a de muitas outras crianças especiais também estariam.
Lembro que aos meus 8 anos tinha o costume de trepar na velha árvore que existia no quintal de casa, adorava subir ao topo e sentir a brisa gélida de início de manhã bater levemente no meu rosto bagunçando meus cabelos loiros. Isso me fazia sentir viva, como se meu corpo pudesse flutuar, como se pudesse escapar por meros segundos de minha realidade que consistia em brigas em casa e bullying na escola.
Minha mãe sempre me chamava gentilmente, assim que despertava — eu era sempre quem acordava primeiro —, para descer e ir tomar banho para a escola, mas naquele dia foi diferente.
— Cameron! Desça daí, meu amor, você tem que… — sua fala foi cortada de forma seca. Eu estava de olhos fechados, aproveitando o momento. — Cameron! — desespero se fez presente em sua voz. Abri os olhos e arregalei-os. Não estava flutuando apenas no sentido figurado, estava LITERALMENTE voando, estando aproximadamente um metro acima da árvore.
Mamãe surtou e gritou pelo papai. Fiquei exasperada e me desequilibrei. Meu pai apareceu na porta, perguntou o porquê de tanta gritaria e gritou meu nome ao me ver despencar. Mamãe deixou a emoção clamar mais alto que a razão e veio me socorrer, voando em minha direção, pegando-me no colo e trazendo-me ao chão em segurança.
Naquele dia descobri que não só era uma mutante, como minha mãe também era e ela escondia esse segredo por anos. Papai não pareceu surpreso, ele havia descoberto há algum tempo, mas fingia ignorar, tinha desenvolvido vergonha de ter uma aberração como mulher.
No fim do dia, antes de dormir, escutei meus pais brigando.
— Leon, não acredito que Cammy esteja segura aqui.
— Não sei do que você está falando.
— Pare de agir como se não soubesse sobre o episódio de hoje cedo. Nem eu e nem Cameron estamos seguras aqui e o que mais me preocupa é o fato de você trabalhar na linha de frente do exército contra os mutantes.
Ouvi meu pai estalar a língua.
— Deandra, meu bem, você conseguiu esconder essa maldição de você há tantos anos, ensine Cammy a escondê-la também.
— Então essa é a sua melhor sugestão?
— Sim.
— Só que não é assim que funciona, Leon! Faz mal esconder o que nós realmente somos. Cammy não pode negar seus poderes pra sempre, eu não posso negar meus poderes pra sempre por causa de uma sociedade preconceituosa que não aceita as diferenças.
— Deandra, entenda de uma vez por todas, não tem espaços para aberrações aqui em Nova Iorque.
— Você também acha que eu e Cammy não podemos ter uma vida normal sendo quem nós realmente somos? — ela apresentou uma voz chorosa. — Você concorda com esses anúncios da TV, não concorda? Os que dizem que somos perigosos e que não devemos ter os mesmos direitos de seres humanos comuns.
— É complicado Deandra. — disse apenas.
Ouvi passos em direção ao andar de cima, onde ficava seu quarto.
Mamãe ficou na sala, chorando baixinho. Na minha cama também deixei lágrimas escorrerem enquanto apertava minha face contra o travesseiro, abafando meus soluços.
— Eu só queria que tudo isso acabasse… — sussurrei baixinho.
Na próxima semana mamãe me acordou no meio da madrugada, com duas pequenas malas em cada mão, me levantou e levou até a garagem com cuidado, eu não sabia o que estava acontecendo.
— Não podemos mais ficar aqui, não somos bem-vindas. — explicou-me enquanto ligava o carro.
Pendurada no vidro do banco de trás, vi minha casa, junto a tudo que conhecia e amava ficando pra trás, sem poder me opor.
Nunca pensei que algo tão trágico poderia acontecer a mim e a minha pequena família, entretanto mamãe tinha razão, não éramos bem-vindas aqui.
Os anos se passaram, eu cresci e aprendi a controlar meus poderes, agora não só podia voar como também possuía telecinese. Não tínhamos moradia fixa, sempre fugindo, passando por vários hotéis e cidades, mudando constantemente de escola — o que atrapalhava muito meus estudos — para tentar manter a aparência de boa vida enquanto “ignorávamos” a intolerância e a carnificina que nos obrigava a atuar nesse teatro.
Após 7 anos em fuga, minha mãe resolveu que voltaríamos a Nova Iorque para passarmos o aniversário de 70 anos de minha avó na casa dela, às escondidas. Meus avós adotaram mamãe quando ela ainda era muito pequena.
Eles, diferente do meu pai, não tinham preconceitos e em nenhum momento nos chamavam de aberrações, ao contrário, eles nos tratavam que nem tratavam os humanos que se denominavam normais, porque nós também éramos.
Não sei bem ao certo o que aconteceu, se algum parente nos denunciou ou algum vizinho, mas papai e seus homens apareceram durante a festa e dizimaram todos, ou quase todos, mamãe me escondeu dentro de um armário de metal quando começaram a bombardear o quarto em que estávamos escondidas.
Os X-Men apareceram, me tiraram do armário e me pouparam de ver o corpo ensanguentado de minha mãe. Acolheram-me quando não tinha mais ninguém e realizaram um enterro digno para minha família… — Dói lembrar que eles só queriam comemorar o septuagésimo aniversário de nossa matriarca, não tinham nada haver com aquela guerra.
No instituto me senti acolhida num lar, protegida e com meus iguais, sem precisar me esconder ou ter medo de ser quem sou… Poderia ser eu mesma. Sentir-me numa família.
— Eu prometo sempre amar seu jardim, mesmo que ele não tenha mais flores, mãe. — com uma lágrima, depositei o buquê em seu túmulo. Hoje, fazem 2 anos.
Sou a única que sobrou do passado vergonhoso de papai. — como dói dizer isso...
Meu nome é Cameron Schwartz, filha de uma mutante com um anti-mutante, eu perdi minha mãe e toda minha família materna aos 15 anos durante um ataque numa festa em família, fui resgatada pelos X-Men e agora luto pela paz.
E se o mundo continuar a me rejeitar, eu rejeitarei o mundo.

