Herdeiros da Lua: O Círculo Eterno
Herdeiros da Lua: O Círculo Eterno
Capítulo 130 min de lectura

Capítulo 1

A casa de Kenji e Taishou em Silver Moon é um refúgio acolhedor, situado em um bairro tranquilo da cidade congelada. Embora não seja uma mansão luxuosa, reflete a união de seus habitantes, combinando tradições antigas com as inovações tecnológicas do ano 2195. A fachada da casa é simples, mas elegante, construída com um material translúcido que reflete as cores suaves das auroras boreais que iluminam a cidade à noite. Portas de madeira escura com detalhes metálicos futuristas dão acesso ao interior, onde um ambiente convidativo e intimista os aguarda. O interior da casa é acolhedor e bem planejado, com espaços que transmitem conforto e funcionalidade. A sala de estar é o coração da casa, onde Kenji e Taishou passam grande parte do tempo juntos. Móveis de linhas simples e modernas, em tons de cinza e azul, estão dispostos ao redor de uma lareira flutuante que emite calor suave e luzes holográficas. As paredes, decoradas com arte interativa, mudam de acordo com o humor do casal, exibindo desde paisagens naturais até composições abstratas.

A cozinha, apesar de compacta, é equipada com o que há de mais moderno em tecnologia culinária. Armários de madeira clara contrastam com bancadas metálicas, onde pequenos dispositivos ajudam nas tarefas do dia a dia, como preparar refeições ou organizar ingredientes. O ambiente é iluminado por janelas amplas que deixam entrar a luz natural, aquecendo o espaço durante o dia. O escritório de Taishou é um ambiente distintivo, projetado para ser uma base tecnológica de administração e planejamento. O espaço é dominado por várias superfícies de trabalho, todas equipadas com monitores de última geração e interfaces holográficas que exibem mapas e gráficos detalhados. Mesas modulares com equipamentos de análise e comunicação são organizadas de forma eficiente, refletindo a natureza meticulosa e detalhista de Taishou. As paredes são cobertas com painéis de controle e telas interativas que mostram informações em tempo real sobre a administração de Silver Moon. No centro, uma grande mesa de conferências é cercada por cadeiras ergonômicas, onde Kenji e Taishou se reúnem para discutir a administração da cidade e os desafios do clã.

O quarto do casal é um espaço que reflete a combinação única de suas personalidades. À primeira vista, o ambiente parece harmonioso, mas ao observar mais de perto, nota-se a coexistência de dois mundos distintos. O lado de Kenji do quarto é um verdadeiro paraíso geek. Equipamentos de tecnologia avançada, como consoles de jogos holográficos e dispositivos de realidade aumentada, estão espalhados sobre uma mesa de trabalho cheia de gadgets e brinquedos eletrônicos. As paredes são adornadas com pôsteres de jogos e personagens de ficção científica, criando um ambiente vibrante e energizante. Em um canto, há uma estante cheia de colecionáveis e livros sobre tecnologia e jogos, complementando a atmosfera geek. O caos aparente é um reflexo da paixão de Kenji por tudo o que é tecnológico e inovador. Do lado de Taishou, o ambiente é mais reservado e conectado ao passado. As paredes são decoradas com quadros históricos e livros antigos, que contrastam com a tecnologia futurística de Kenji. Uma estante de madeira escura abriga uma coleção de livros de papel, cuidadosamente organizados e bem conservados, que Taishou aprecia ler antes de dormir. Seu canto é um espaço de tranquilidade, com uma poltrona confortável ao lado de uma luminária suave que ilumina as páginas dos livros. A decoração é minimalista, com cores neutras e móveis de linhas elegantes que refletem seu apreço pelo mundo antigo e histórico. Apesar das diferenças, a cama de casal é um ponto de encontro entre os dois mundos. As roupas de cama são de alta qualidade e em tons neutros, oferecendo um equilíbrio entre os gostos distintos dos dois. A janela grande permite que a luz das estrelas e das auroras boreais ilumine suavemente o quarto à noite, criando uma atmosfera calma e serena.

Nos fundos da casa, um pequeno jardim foi cuidadosamente cultivado por Kenji. Plantas raras e flores exóticas crescem sob luzes artificiais, criando um ambiente de serenidade e conexão com a natureza, mesmo no meio da cidade tecnológica. O jardim é o lugar onde Kenji vai para meditar e se reconectar, enquanto Taishou aprecia a calma que o espaço oferece. Embora a casa seja modesta em comparação com outras residências de Silver Moon, ela é rica em detalhes que refletem a vida compartilhada por Kenji e Taishou. É um lar onde tradição e inovação se encontram, proporcionando um espaço de paz e amor em meio à agitação da cidade congelada.

No ano de 2195, um século havia se passado desde a morte de Akane Hiromi, e Taishou Seiji estava em seu escritório, mergulhado em mapas holográficos.

Taishou Seiji é um homem de presença imponente, com longos cabelos lisos de um preto profundo que caem até a cintura, sempre perfeitamente alinhados, realçando sua figura elegante. Seus olhos negros são igualmente intensos, irradiando um olhar frio e sério, como se carregassem o peso de incontáveis batalhas e segredos antigos. O corpo de Taishou é adornado por várias tatuagens, cada uma contando uma parte de sua história, serpenteando pelos braços e torso, emolduradas por suas roupas futuristas. Seu estilo é uma fusão de tradição e modernidade, com trajes predominantemente em azul e preto. As vestimentas são detalhadas com linhas nítidas e metálicas, refletindo um brilho suave sob a luz, contrastando com o mistério e a gravidade que ele carrega consigo.

Ele examinava cada detalhe com uma intensidade quase obsessiva, tentando encontrar respostas que pareciam sempre escapar de seu alcance. O ambiente estava silencioso, com a luz dos hologramas refletindo em seu rosto, até que Kenji Takahashi entrou no cômodo sem fazer barulho, como uma sombra que ele quase não notou. Ao perceber a presença de seu marido, Taishou rapidamente desativou as telas, tentando disfarçar seu envolvimento com os mapas.

Kenji Takahashi possui uma energia distinta, marcada por um estilo mais despojado e moderno. Seu cabelo curto e loiro é liso, com uma franja bagunçada que cai despreocupadamente sobre sua testa, conferindo-lhe um ar jovem e rebelde. Seus olhos verdes brilham com uma curiosidade aguçada e uma vivacidade que contrasta com o ar mais sério de Taishou. As roupas de Kenji seguem uma paleta de verde e preto, em um estilo futurista que combina conforto e funcionalidade com elegância. Ele sempre carrega consigo um par de óculos 3D, repousando de forma casual sobre sua cabeça, pronto para serem utilizados em suas incursões tecnológicas, refletindo seu papel de estrategista e seu amor pela tecnologia.

Kenji estava irritado, já passava das três da manhã, e lá estava Taishou de novo. Com uma voz grossa ele perguntou. “Que porra você está fazendo?”. Com uma expressão que mal disfarçava o nervosismo, Taishou tentou se justificar: “Não é nada... eu não estava fazendo nada, meu beta.” Kenji, no entanto, conhecia Taishou bem demais para acreditar naquelas palavras. Ele franziu a testa, sua desconfiança evidente, e se aproximou lentamente, seus olhos penetrantes fixos nos de Taishou. ”Não minta pra mim. Estamos juntos há tempo suficiente pra eu saber quando você está escondendo algo.” O suspiro que escapou dos lábios de Taishou foi de derrota. Ele abaixou a cabeça, reconhecendo que não poderia mais manter a farsa. “Eu não queria te preocupar…”

Kenji cruzou os braços, a frustração clara em seu semblante. Ele havia notado as mudanças no comportamento de Taishou nos últimos meses, as noites em que ele saía da cama em silêncio para se perder em seus mapas. O tom de sua voz carregava uma irritação crescente: “Que droga você anda fazendo aqui?” Taishou hesitou, mas sabia que não podia mais esconder a verdade de Kenji. Respirou fundo antes de falar: “Tudo bem, eu vou te contar. Mas você precisa prometer que não vai ficar chateado.” Kenji lutou contra a crescente irritação, finalmente assentindo, apesar da tensão em seu rosto. “Está bem, eu prometo.”

Com um gesto hesitante, Taishou reativou os mapas holográficos, revelando uma complexa árvore genealógica que ele vinha estudando. Era uma busca pela reencarnação de Akane, sua esposa que havia morrido cem anos antes. Ao perceber do que se tratava, Kenji sentiu um aperto no peito, uma dor antiga voltando à superfície. “Taishou... o que você pensa que está fazendo?” Taishou manteve os olhos fixos nos mapas, como se neles pudesse encontrar as respostas que tanto desejava. Sua voz era um murmúrio de dor: “Eu só quero saber... quando a Akane vai-” “Não, para!” Kenji o interrompeu, sua voz carregada de raiva e dor. “Que porra, Taishou? Por que você não consegue deixar isso pra trás?”

A tensão entre eles era palpável. Taishou estava preso ao passado, incapaz de seguir em frente, enquanto Kenji lutava para manter o equilíbrio em meio à dor que compartilhavam. “Por que você quer saber onde a próxima "Akane" vai reencarnar? Ela não vai ter as memórias dela, não vai saber quem somos. Será apenas... uma nova pessoa.” O silêncio que se seguiu era quase insuportável. Taishou sabia que Kenji tinha razão, que aquela nova reencarnação não seria a Akane que eles haviam amado, mas a dor da perda ainda queimava em seu coração. “Eu sei, Kenji. Eu sei que ela não será a mesma. Mas... eu não consigo parar de sentir falta dela…” Kenji sentiu o peso das palavras de Taishou. Ele também sentia falta de Akane, uma dor que nunca desapareceu completamente, mas sabia que viver no passado não traria Akane de volta. “Você acha que eu não sinto falta dela também? Ela foi minha amiga de infância, esteve comigo desde meus cinco anos. Nós a amamos, mas precisamos aceitar que ela se foi.”

Taishou fechou os olhos, lutando contra a dor quase insuportável em seu peito. “Eu sei que você está certo, mas... e se, de alguma forma, ela pudesse lembrar? E se a alma dela ainda nos reconhecesse?” Kenji hesitou, procurando as palavras certas para acalmar o marido. “Amar não é algo que podemos simplesmente desligar, Taishou. E talvez nem devemos tentar. Mas precisamos aprender a amar a memória dela, sem deixar que isso nos destrua.” Kenji então se aproximou, tocando suavemente o ombro de Taishou, enquanto revelava um detalhe que ele parecia ter esquecido em meio à dor. “A alma de Akane está em Damon... Ela faz parte dele agora. Ela salvou a vida de Damon, e enquanto ele viver, ela não vai reencarnar.” As palavras de Kenji atingiram Taishou profundamente, como um golpe. Ele sabia que Kenji estava certo, mas o desejo de ter Akane de volta era quase insuportável. “Eu... eu sei que você tem razão. Mas... eu não consigo simplesmente parar de amá-la.”

Taishou ficou em silêncio por um longo momento, absorvendo as palavras de Kenji. Ele sabia que o marido estava certo, Akane, ou pelo menos uma parte dela, já vivia em Damon. A alma dela havia se fundido com a do jovem lobo, salvando-o de uma morte certa e se tornando parte integrante de quem ele era agora. Era um pensamento reconfortante e, ao mesmo tempo, doloroso, pois isso significava que a possibilidade de reencontrar Akane como ela era antes, em outra vida, era ainda mais remota.

"Eu sei que ela está em Damon," Taishou disse finalmente, sua voz baixa e pesada. "E eu sou grato por isso, grato que uma parte dela ainda esteja entre nós, que ela continue a viver de alguma forma. Mas não é o suficiente, Kenji. Eu... sinto falta dela. Da presença dela, da forma como ela iluminava cada lugar em que estava. Mesmo que uma nova Akane fosse apenas uma sombra do que ela foi, eu... eu queria ter essa chance. Eu queria acreditar que, de alguma forma, ela poderia me reconhecer, lembrar de nós." Kenji apertou a mão de Taishou, sentindo a frustração e o desespero que emanavam de cada palavra. Ele entendia, mais do que ninguém, a profundidade do amor de Taishou por Akane. Mas também sabia que esse desejo, por mais compreensível que fosse, estava colocando uma sombra sobre o presente, sobre o que eles tinham agora. "Eu entendo, Taishou. E talvez, se acreditarmos o suficiente, a alma de Akane possa encontrar o caminho de volta para nós, de alguma forma. Mas precisamos estar preparados para a possibilidade de que isso nunca aconteça. E enquanto esperamos, não podemos deixar que isso consuma a vida que ainda temos juntos. Nós estamos aqui, agora. Eu estou aqui, com você."

Taishou olhou para Kenji, vendo o amor e a preocupação nos olhos verdes do marido. Por um instante, ele permitiu que essa verdade penetrasse as camadas de dor e anseio que haviam se acumulado ao longo dos séculos. Ele sabia que Kenji estava certo, que eles precisavam encontrar uma maneira de viver o presente, sem ficar presos ao passado ou a esperanças incertas. Com um suspiro profundo, Taishou desligou o computador, fazendo os mapas holográficos desaparecerem no ar. "Você está certo, Kenji. Eu... Eu vou tentar. Mas não será fácil." Kenji sorriu levemente, puxando Taishou para mais perto. "Eu sei que não será fácil, mas você não está sozinho nisso. Nós enfrentaremos isso juntos, como sempre fizemos." Taishou envolveu Kenji em seus braços, sentindo o calor e a segurança que o marido sempre lhe proporcionava. E por um momento, ele permitiu-se esquecer a dor, esquecendo-se do desejo insaciável de reencontrar Akane, focando apenas na presença de Kenji ao seu lado. O amor deles também era real, construído ao longo dos séculos, e mesmo que diferente do que ele sentira por Akane, era igualmente profundo e importante.

O silêncio voltou a pairar entre eles, pesado e carregado de emoções não ditas. Finalmente, Kenji quebrou o silêncio, sua voz baixa, mas firme: “Taishou, nós já passamos por isso. A Akane se foi. Nós a amamos, nós a perdemos, e isso é parte do que nos tornou quem somos agora. Mas reviver o passado não vai trazê-la de volta. Precisamos seguir em frente, por nós, por Silver Moon, por tudo o que construímos.” Taishou levantou o olhar, seus olhos brilhando com um misto de tristeza e esperança. “Mas e se... e se houver uma chance de ela lembrar? De alguma forma? E se... eu puder protegê-la dessa vez?” Kenji apertou o ombro de Taishou com mais firmeza, oferecendo um consolo silencioso. “Não podemos viver de 'e se', Taishou. Não podemos mudar o passado, e não podemos forçar o futuro a ser o que desejamos. Akane... a nossa Akane... se foi. E precisamos seguir em frente.” Taishou finalmente soltou um longo suspiro, reconhecendo a verdade nas palavras de Kenji. Por mais difícil que fosse, ele sabia que Kenji estava certo. “Juntos” ele murmurou, sua voz suave, mas cheia de determinação. Kenji sorriu levemente, um alívio sutil aparecendo em sua expressão. “Sempre.”

Outra noite se passou. Taishou esperou pacientemente até que Kenji adormecesse, antes de mergulhar novamente nos mapas holográficos à sua frente. Ele estava perto, muito perto de encontrar onde sua amada Akane iria reencarnar. Com o olhar fixo na tela, sua mente corria, tentando juntar as últimas peças do quebra-cabeça. Kenji, que estava dormindo, acordou e estendeu a mão, apenas para encontrar o espaço vazio ao seu lado na cama. Ele soltou um suspiro irritado. "Merda... outra vez..." Resmungando, ele se levantou e foi até o escritório. Quando abriu a porta, viu Taishou com uma expressão cansada, os olhos fixos em seu computador, perdido em suas pesquisas. Kenji respirou fundo, tentando manter a calma. "Porra, Taishou, larga isso... já conversamos sobre isso..." Taishou parou por um momento, lutando contra o impulso de gritar em resposta. "Akane foi a mulher da minha vida, Kenji. Eu esperei séculos por ela, e esperaria mais mil anos se precisasse. Isso não significa que eu não te amo, mas o que eu sinto por ela... é diferente."

"Mas a que custo?" Kenji rebateu, a voz tremendo com a emoção. Seus olhos se encheram de lágrimas. "Você está destruindo o que temos! Está traindo a memória dela, está traindo a nós dois. Eu pensei que nós três tínhamos algo especial, algo que ia além da vida e da morte. Mas agora, parece que nada disso importa pra você." Taishou hesitou, a raiva diminuindo ao ouvir a dor na voz de Kenji. Ele sabia que suas ações estavam machucando o marido, mas o desejo de encontrar Akane novamente era uma compulsão que ele não conseguia controlar. "Não se trata de você, Kenji," ele disse, a voz suave, tentando acalmar o marido. "Eu só... eu só quero vê-la de novo. Sentir o cheiro dela, ouvir a voz dela. Eu preciso disso." Kenji sentiu uma onda de desespero. "Porra, Taishou, por que você está fazendo isso?" ele gritou, a voz se quebrando. "Eu não sou suficiente pra você?" As palavras saíram cheias de dor e insegurança, revelando o que estava corroendo Kenji por dentro.

Taishou, surpreso pela intensidade da reação de Kenji, olhou para ele com uma mistura de choque e frustração. "Você não manda em mim, Kenji!" ele retrucou, a voz baixa, mas cheia de uma fúria contida. Anos de tensão reprimida estavam prestes a explodir. Kenji não aguentou mais. "Eu não acredito que você continua com isso!" ele gritou, a voz reverberando pelas paredes do escritório. Em um movimento impulsivo, ele derrubou os aparelhos holográficos que Taishou usava para suas pesquisas, fazendo-os cair no chão com um estrondo. Era um gesto desesperado, uma tentativa de fazer Taishou enxergar a dor que estava causando. As discussões entre eles, que antes eram esporádicas, tornaram-se cada vez mais frequentes e intensas. Kenji, que sempre fora paciente e compreensivo, agora estava consumido por uma raiva que não conseguia controlar. "Eu entendo que Akane é importante para você, mas e quanto a mim? E quanto ao que eu sinto? Eu não quero competir com a memória dela, Taishou. Eu quero ser amado por mim mesmo."

A irritação de Taishou cresceu. "Você não entende... meu amor por ela era diferente..." "Diferente?" Kenji repetiu, incrédulo. "Isso não faz sentido! Nós éramos um trisal, Taishou! E agora você está agindo como se eu fosse apenas um substituto temporário até que você a encontre de novo." As palavras de Kenji eram como lâminas, cortando fundo no coração de Taishou. "Não, Kenji, não é isso!" Taishou tentou argumentar, mas sabia que as palavras soavam vazias. Ele entendia a dor de Kenji, mas a dele próprio também era real e avassaladora. "Eu só... eu só quero tê-la de volta. Isso não significa que você não é suficiente." Kenji riu amargamente, enxugando as lágrimas com a manga da camisa. "Você diz isso, mas as suas ações dizem outra coisa, Taishou. Cada vez que você se afunda nessas pesquisas, cada vez que você se recusa a deixar o passado ir, você me empurra pra longe. E honestamente, eu não sei por quanto tempo mais eu posso aguentar isso."

As palavras de Kenji atingiram Taishou como um golpe direto. Pela primeira vez, ele percebeu o quanto estava se arriscando ao seguir essa obsessão. Mas, ao mesmo tempo, sentia-se incapaz de desistir. "Kenji, por favor..." ele começou, mas a voz falhou. Ele não sabia como consertar o que estava quebrado entre eles.

Kenji o encarou por um longo momento, antes de finalmente virar as costas e sair do escritório. "Eu preciso de um tempo, Taishou. Eu preciso pensar sobre tudo isso," disse, a voz fria e distante. Com isso, Kenji deixou Taishou sozinho, rodeado pelos destroços de suas pesquisas e pelo peso de suas escolhas. Taishou permaneceu sentado em silêncio, o escritório mergulhado em uma quietude dolorosa. Suas mãos estavam agarradas à mesa com tanta força que suas articulações estavam brancas. As palavras de Kenji ecoavam em sua mente, e ele sentia o coração pesado com a dor que causou. Mas, mesmo assim, a necessidade de buscar Akane persistia, como uma obsessão que ele não conseguia abandonar.

O dia seguinte amanheceu com um céu acinzentado, típico das manhãs no inverno escocês, mas dentro da estufa, o clima era sempre agradável. A estrutura da estufa, feita de materiais leves e translúcidos, parecia flutuar sobre a terra. A tecnologia avançada permitia que a luz solar fosse captada e distribuída uniformemente, criando um ambiente ideal para o crescimento das plantas, independentemente das condições externas. No ano 2195, a agricultura, a botânica, e a fitoterapia haviam evoluído drasticamente, fundindo ciência e magia para criar um equilíbrio perfeito entre o artificial e o natural. No centro da estufa, uma árvore enorme de folhas prateadas se destacava, seus galhos entrelaçados formando uma espécie de cúpula natural. Essa árvore, conhecida como Arvore da Lua, era um dos maiores avanços da fitoterapia moderna. Suas folhas, ricas em compostos curativos, podiam ser utilizadas para tratar desde doenças simples até males complexos, incluindo algumas formas de envenenamento que antes não tinham cura. Ao redor da árvore, canteiros de plantas de todas as cores e tamanhos formavam um mosaico vibrante. Algumas plantas flutuavam suavemente sobre plataformas de energia, enquanto outras, como a Flor da Alma, uma planta azulada com pétalas translúcidas, eram cultivadas em vasos de vidro com água cristalina, rica em minerais. As raízes dessas plantas brilhavam com uma luz suave, refletindo seu estado de saúde e as propriedades mágicas que possuíam.

Em um dos cantos da estufa, Nathaniel estava ajoelhado ao lado de um canteiro de ervas, cuidando de uma planta de folhas verdes escuras e brilhantes. Ele tinha uma expressão de concentração tranquila no rosto, os dedos movendo-se habilmente enquanto podava as folhas secas. Nathaniel tem cabelos longos de cor vermelho escuro, que ele costuma prender em um rabo de cavalo, ruivo, com uma aparência que inclui sardas pintando todo o seu rosto, seus olhos são verdes como a floresta ao redor. Ele vestia um jaleco branco de tecido biotecnológico, que se ajustava ao corpo como uma segunda pele, e cujos detalhes luminescentes indicavam o nível de nutrição e saúde das plantas ao seu redor. Nathaniel era mais do que apenas um botânico; ele era um cuidador de vida, alguém que entendia as necessidades das plantas como se fossem suas próprias. Seu toque era suave, mas firme, e suas palavras, quando murmurava para as plantas, pareciam ser absorvidas pelo ambiente como se a estufa estivesse ouvindo cada sílaba. Ele conhecia cada planta pelo nome, sabia suas histórias, suas propriedades, e suas peculiaridades. Ao lado de Nathaniel, uma interface holográfica flutuava no ar, exibindo dados em tempo real sobre a umidade, temperatura, e composição do solo. Ele ajustou a temperatura de uma seção específica da estufa com um movimento sutil da mão, sem sequer precisar desviar o olhar das plantas que estava cuidando.

As paredes internas da estufa eram revestidas com uma película bioluminescente que se adaptava às necessidades das plantas, emitindo luzes nas cores exatas para promover o crescimento saudável. Além disso, pequenos drones, quase invisíveis, circulavam o ambiente, polinizando flores e verificando o estado de cada planta, garantindo que tudo estivesse em perfeito equilíbrio. Nas últimas décadas, a ciência botânica havia alcançado um nível de precisão e harmonia que permitia a criação de remédios potentes e personalizados, feitos sob medida para as necessidades de cada indivíduo. Nathaniel levantou-se, segurando um ramo da planta que acabara de podar. Ele observou as folhas por um momento, satisfeito com o resultado, e depois as depositou cuidadosamente em uma bandeja de cristal próxima. A planta, chamada Artemisia Eternis, era conhecida por suas propriedades regenerativas e era uma das principais ervas usadas nas poções curativas do clã. O aroma suave que emanava da planta misturava-se com os outros cheiros da estufa, criando uma atmosfera quase mágica, onde a ciência, a natureza, e a magia coexistiam em perfeita harmonia.

Com um sorriso sereno, Nathaniel se dirigiu à árvore central, passando a mão carinhosamente pelo tronco da Arvore da Lua. Ele fechou os olhos por um momento, sentindo a energia vital que pulsava através da árvore, e sussurrou uma prece silenciosa, agradecendo por mais um dia em que ele podia cuidar das vidas que cresciam ali. Para Nathaniel, cada planta era um ser vivo com uma alma própria, e ele se dedicava a protegê-las como se fossem parte de sua própria família. Kenji atravessou o corredor da casa com passos firmes, seus pensamentos uma tempestade silenciosa. O conflito com Taishou da noite anterior ainda o corroía por dentro, e ele precisava de alguém para desabafar, alguém que pudesse compreender sua dor sem julgá-lo. Nathaniel, com sua presença calma e reconfortante, parecia a pessoa certa.

Ele chegou à estufa, a porta de vidro deslizando silenciosamente para o lado ao reconhecer sua presença. Assim que entrou, o aroma fresco das plantas o envolveu, aliviando um pouco da tensão que apertava seu peito. A luz suave que emanava das paredes e dos drones flutuantes banhava o ambiente em um brilho tranquilizante. Ao longe, Kenji avistou Nathaniel, de pé ao lado da Arvore da Lua, as mãos trabalhando delicadamente nas folhas prateadas. "Nate," Kenji chamou, sua voz carregando uma mistura de cansaço e frustração. Nathaniel levantou o olhar, notando de imediato o semblante perturbado do amigo. Ele largou o que estava fazendo e se aproximou, preocupado. "Kenji, o que aconteceu? Você parece exausto." Kenji suspirou profundamente, passando a mão pelos cabelos loiros bagunçados. Seus olhos, geralmente cheios de uma curiosidade vibrante, estavam agora opacos, perdidos em pensamentos sombrios. "Eu... Não sei mais o que fazer," ele começou, sua voz carregada de desespero. "Taishou está se afundando cada vez mais nessa obsessão de encontrar Akane. E eu... sinto que estou sendo empurrado para longe, como se eu não fosse suficiente." Nathaniel fez um gesto para que Kenji se sentasse em um banco próximo, enquanto ele mesmo puxava uma cadeira de fibra leve, posicionando-a ao lado do amigo. "Senta aqui, Ken. Fale comigo, do jeito que precisar."

Kenji obedeceu, deixando-se cair pesadamente no banco. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, o olhar fixo em uma planta de folhas azuladas ao seu lado, antes de finalmente explodir. "Eu entendo que Akane era importante para ele, mas será que ele não percebe o que está fazendo comigo? Cada vez que ele se perde nesses mapas, procurando por sinais de onde ela pode reencarnar, eu sinto como se ele estivesse me deixando para trás, me abandonando para perseguir uma sombra." Nathaniel observava Kenji atentamente, absorvendo cada palavra. Ele sabia o quanto Kenji amava Taishou, e o quanto esse relacionamento era importante para ele. "Ken, sei que é difícil, mas Taishou está lutando contra algo muito profundo. Ele perdeu Akane, alguém que ele amava tanto quanto ama você. Talvez ele ache que encontrá-la novamente traria um tipo de paz que ele não consegue encontrar de outra forma." "Mas e quanto a mim?" Kenji perguntou, a voz embargada. "Eu estou aqui, vivo, ao lado dele. Eu sempre estive. E cada vez que ele se distancia para perseguir essa ideia de trazê-la de volta, sinto que ele está se afastando de mim, de nós. Eu não quero competir com a memória dela, mas é assim que me sinto." Nathaniel estendeu a mão e segurou a de Kenji, transmitindo uma sensação de conforto e apoio. "Eu não posso imaginar como deve ser estar nessa posição, mas você tem o direito de sentir o que sente. Não é errado querer ser visto e amado por quem você é, agora, no presente."

Kenji apertou a mão de Nathaniel com força, como se se ancorasse àquelas palavras. "Eu tentei falar com ele, tentei fazê-lo entender, mas parece que ele não escuta. Ele diz que me ama, mas também diz que o amor que sente por Akane é diferente. E isso... dói, Nathaniel. Dói tanto." Nathaniel assentiu, os olhos verdes cheios de empatia. "As coisas com Taishou e Akane são complicadas, mas você não precisa carregar essa dor sozinho, Kenji. Se precisar de alguém para conversar, ou até mesmo para te ajudar a pensar em como lidar com isso, eu estou aqui. Você não está sozinho." Kenji olhou para Nathaniel, sentindo um peso se levantar de seus ombros, ainda que levemente. Ele sabia que a situação com Taishou não seria resolvida facilmente, mas ter alguém para compartilhar a carga tornava tudo um pouco mais suportável. "Obrigado, Nathaniel. Eu realmente precisava disso," ele disse, sua voz mais calma, mas ainda carregada de emoção. Nathaniel sorriu suavemente. "Você sempre terá um espaço aqui comigo, Kenji. E lembra, o amor é complexo e, às vezes, confuso. Mas não deixe que essa situação te faça duvidar do seu valor. Você é importante, e seu amor é importante." Kenji respirou fundo, sentindo a verdade nas palavras de Nathaniel. Talvez as coisas com Taishou ainda estivessem longe de uma solução, mas ele sabia que não estava sozinho nessa jornada. E isso, por agora, era o suficiente para mantê-lo firme.

No extremo leste do território de Silver Moon, um santuário vasto e silencioso se estendia, reservado exclusivamente para a preservação dos raros e majestosos lobos brancos. A área era uma combinação harmoniosa de tecnologia e natureza, projetada para simular o ambiente selvagem dos lobos enquanto mantinha um monitoramento constante de sua saúde e desenvolvimento. Campos cobertos de neve falsa, árvores altas e congeladas, e um céu artificial que recriava a luz da lua em todas as suas fases, compunham o cenário desse espaço sagrado. Ao longe, Caspian Taylor se movia com a graça e a precisão de um predador experiente. Seu corpo atlético, envolto em um traje futurista cinza e prata que parecia refletir a luz ao seu redor, se destacava entre os lobos brancos que corriam e saltavam pelo campo. Seus cabelos prateados balançavam ao vento enquanto ele comandava os lobos com gestos precisos e palavras firmes, sua voz autoritária cortando o ar gelado como uma lâmina afiada.

Caspian era o coração desse lugar. Como marechal do clã Silver Moon e conselheiro da alcateia, ele dedicava boa parte de seu tempo à preservação dos lobos brancos, cuja existência esteve em perigo várias vezes ao longo dos séculos. Ele tinha uma ligação profunda com esses animais, uma conexão que ia além da responsabilidade e entrava no campo da devoção. Cada movimento, cada comando era executado com perfeição, refletindo seu desejo de manter a linhagem pura e forte. Enquanto ele orientava um jovem lobo a aperfeiçoar seu salto, Caspian sentiu uma presença familiar se aproximando. Ele se virou, seu olhar cinzento encontrando o de Taishou. O alfa da alcateia caminhava em sua direção com passos firmes, sua silhueta elegante e imponente destacando-se contra o fundo branco e frio do santuário. "Taishou," Caspian cumprimentou, erguendo a mão em um gesto de respeito. "Não esperava vê-lo aqui hoje. Alguma preocupação específica?"

Taishou parou ao lado de Caspian, seu olhar frio e distante fixo nos lobos brancos que brincavam a alguns metros de distância. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se estivesse escolhendo as palavras certas. Finalmente, ele falou, sua voz baixa e carregada de uma gravidade que Caspian reconheceu de imediato. "Caspian, eu preciso da sua sabedoria." Caspian franziu ligeiramente a testa, intrigado pela seriedade na voz de Taishou. Ele sabia que, apesar de não ser mais o alfa, Taishou ainda carregava o peso de muitas decisões difíceis e uma carga emocional que ele raramente compartilhava com os outros. "Diga, Taishou. O que o aflige?"

Taishou respirou fundo, seus olhos se estreitando levemente. "Akane... e Kenji. Sinto que estou perdendo ambos. Minha obsessão por encontrar Akane novamente está me afastando de Kenji. E, ao mesmo tempo, sinto que se eu desistir de Akane, estarei traindo algo fundamental em mim mesmo." Caspian observou o alfa atentamente, percebendo a tensão nos ombros dele. Ele sabia que Taishou era um homem de poucas palavras e muitas responsabilidades, e ver o peso que carregava era algo que Caspian não tomava levianamente. "Você está preso entre duas forças opostas," Caspian comentou, sua voz calma. "Entre o passado e o presente, entre a memória de Akane e a realidade de Kenji."

Taishou assentiu, mas não disse nada, deixando que o silêncio se prolongasse por mais alguns instantes. Caspian, sempre comunicativo e direto, decidiu prosseguir. "Você já considerou que, talvez, essa busca incessante por Akane esteja mais ligada ao que você perdeu de si mesmo do que a ela em si? Kenji está aqui, agora, com você. Ele compartilha sua vida, suas dores e alegrias. Talvez seja hora de reavaliar onde realmente está o seu coração." As palavras de Caspian atingiram Taishou com força, como se uma verdade inescapável tivesse finalmente sido pronunciada. Ele não respondeu imediatamente, mas o conflito em seus olhos ficou evidente. "Eu não quero perder Kenji," ele finalmente admitiu, sua voz tingida de vulnerabilidade, algo raro em Taishou. Caspian colocou a mão no ombro de Taishou, oferecendo o apoio que ele sabia que o alfa precisava. "Então lute por ele. Akane pode ter sido parte de sua jornada, mas Kenji é o seu presente e, talvez, seu futuro. Lute pelo que está diante de você, Taishou. E lembre-se, você não precisa fazer isso sozinho. Estamos todos aqui para apoiá-lo."

Taishou assentiu, o peso da verdade caindo sobre seus ombros. "Eu sei que isso está machucando Kenji, mas... Eu preciso ver Akane novamente, sentir a presença dela... Mesmo que seja apenas uma sombra do que ela foi." Caspian respirou fundo, fixando seu olhar firme em Taishou. "Alfa... isso está destruindo seu relacionamento com Kenji. Você precisa deixá-la ir... precisa deixar Akane ir..." Taishou fechou os olhos por um momento, como se as palavras de Caspian fossem um golpe doloroso. "Eu tentei, Caspian. Juro que tentei. Mas como posso simplesmente deixar ir alguém que significou tanto para mim? Alguém que... que eu esperei por séculos?" Caspian, com sua voz calma e firme, respondeu: "Eu entendo a profundidade do seu amor, Taishou. Mas o que você está fazendo não é saudável, nem para você, nem para Kenji. Segurar-se ao passado está abrindo feridas que nunca vão cicatrizar se você continuar assim."

Taishou abriu os olhos, fitando Caspian com um olhar que misturava desespero e teimosia. "Eu não sei como parar, Caspian. Eu não sei como desistir dela. Deixar Akane ir seria como abrir mão de uma parte de mim mesmo." Caspian se aproximou, colocando uma mão reconfortante no ombro de Taishou. "Você já perdeu parte de si, Taishou, e agora está perdendo ainda mais. Kenji é o que você tem agora, aqui, neste momento. Ele é real, e ele te ama profundamente. Se você não tomar cuidado, vai acabar perdendo-o também, e então... O que restará?" Taishou abaixou a cabeça, sentindo o peso das palavras de Caspian. Ele sabia que o conselheiro estava certo, mas o medo de deixar Akane ir, de finalmente dizer adeus, era paralisante. "Eu não quero perder Kenji," ele murmurou, quase para si mesmo. Caspian apertou seu ombro gentilmente. "Então, você precisa fazer uma escolha, Taishou. O passado ou o presente. Akane foi parte da sua vida, mas Kenji é sua vida agora. Você pode honrar a memória dela, mas precisa viver o agora. Caso contrário, você acabará sozinho, com nada além de lembranças."