Disaster Christmas
Disaster Christmas
Chapter 111 min read

Capítulo único

New York, 24 de dezembro 19h37min

Desligando o computador. Meu chefe é um saco. Acabei de descobrir isso. Primeiramente, por nos fazer trabalhar num feriado, e segundamente, por nos deixar aqui até as sete e meia da noite. Eu estou completamente atrasada. Tenho que sair daqui e pegar dois ônibus e um metrô pra chegar ao Queens – bairro onde eu moro.

Eu ainda tinha que passar no supermercado pelo caminho, chegar em casa, me arrumar, e encontrar meu namorado pra irmos até a casa da minha avó, onde seria a ceia desse ano. Putz! Esqueci. Ainda tenho que pegar os presentes. Tudo isso, antes das 22h00min, o que seria possível, se não estivesse nevando horrores e o trânsito estivesse um caos. Saí correndo do prédio da empresa e fui pro ponto de ônibus, só que correr na neve não é nada legal. Caí de cara no chão gelado.

- Ouch! –eu disse.

- Calma. Eu te ajudo. Você se machucou? – perguntou-me um belo estranho vindo do nada.

- Uh, ah, creio eu que não.

- Quer ajuda? Pra onde você tá indo? –ele me perguntou, enquanto me ajudava a levantei. Estava toda encharcada de neve, e morrendo de frio.

- Pro ponto de ônibus.

- Vem, eu te levo.

Ele me encostou em seu ombro e me ajudou a atravessar a rua, onde ficava o ponto de ônibus.

- Deus! Você vai ter uma hipotermia. Tá tremendo muito. –disse-me, me olhando com seus olhos azuis penetrantes.

- T-t-t-t-t-t-ô me-me-me-smo?

- Sim. Toma meu casaco. –disse-me ele estendendo um casaco preto de pele.

- É muita gentileza sua.

- Nada. Apenas não gosto de ver damas, com uma beleza inegável como a sua, com problemas.

Dei um sorrisinho e depois fui pro ônibus, que já estava chegando.

- Hei. –ele me chamou à distância.

- Oi?

- Qual seu nome?

- Gisele.

- Eu sou P...

Droga. Não deu pra ouvir nada, pois o ônibus começou a se mover, quase me jogando pra trás. Entrei correndo. Putz. Quase perdi o ônibus. Felizmente, tudo deu certo. E um cara lindo me ajudou logo ali. Não conseguia tirar seus olhos de minha mente e...

- Moça, moça! – uma senhora me gritava. – O ônibus parou. Chegamos à linha 12.

- Uh, oi. Linha 12? Oh, Droga. Eu devia ter parado na linha 10.

Desci correndo do ônibus. Bem feito pra mim. Tenho namorado e fico desejando outros homens. Isso foi um belo dum castigo. Mas foi injusto, quando é natal e eu perdi meu ônibus.

20h35min

Depois de meia hora esperando um ônibus que me levasse de volta pra linha 10, peguei outro ônibus que me levasse até a estação de metrô. Mas adivinha só o que aconteceu? A ponte Queensboro estava interditada, e tivemos que dar a meia-volta e pegar a Estrada 495, que tem um caminho mais longo. Tentei, sem sucesso, ligar pra meu namorado e dizer que estava presa na estrada. Meu celular não tinha sinal. Acho que se estivesse andando, já estaria mais adiante do que estou agora.

21h20min

Eu já estou extremamente atrasada, então não ligo mais com o tempo. Estou no metrô, e estamos praticamente na metade do percurso, e eu ainda não consegui contato com ninguém da minha família. Nem consigo esquecer o loiro dos olhos azuis de algumas horas atrás. Estou profundamente cansada e não vejo à hora de chegar em casa, ou na casa da minha avó, tanto faz. To morrendo de fome também. Droga.

21h52min

Abri a porta do meu apartamento. Ah, como é bom estar em casa. Corri pro banheiro e tomei um banho bem relaxante. Fui me arrumar. Coloquei um vestido preto de veludo, um pouco acima do joelho, meia calça preta e uma bota de cano longo. Meu cabelo tava horrível, então fiz um rabo de cavalo meio elaborado, deixando que as longas ondas ruivas, que hoje estavam terríveis, presas. Peguei meu sobretudo bem quentinho, e saí, tentando contato com meu namorado. Finalmente consegui.

- Fred, já estou pronta. Pode vir.

- Alô? –disse uma voz feminina bem irritante.

- É o celular do Fred?

- É sim, quem deseja falar?

- Diga que é Gisele.

- Amooooor, uma tal de Gisele quer falar com você. –disse a garota.

- Droga. –disse a voz de Fred ao fundo.

- Gi? –disse ele.

- Você tem 30 segundos pra me dizer quem é ela, Fredrik.

- Droga. Não era pra ser assim... É que...

- Quem é, Fred? 15 segundos.

- Camila. Uma ex- namorada minha. Ela apareceu grávida, e o filho é meu. Eu reatei com ela, mas não era pra você descobrir assim, eu...

- Acabou. –disse e desliguei o telefone.

Lágrimas quentes ameaçavam cair, mas eu segurei firme. Peguei minha sacola de presentes, e fui pra fora, pegar um táxi. Sorte a minha que a casa de vovó não era tão longe. Só uns 20 km.

22h30min

Cinco táxis já passaram. Todos cheios. Já estava quase desistindo, indo pra estação de metrô, mas com minha falta de sorte iminente, quase fui atropelada por um carro. Desequilibrei-me e caí no chão gelado. Pela segunda vez na noite. Bati minha cabeça com força na neve. Senti meus olhos se fechando.

23h00min

- Ai, senhor! Será que foi grave? –disse uma voz. Parecia que eu conhecia.

- Não. Ela só bateu com a cabeça, mas não teve nenhum dano. Deve acordar em alguns minutos. –disse uma mulher.

Abri meus olhos lentamente, encarando o lugar. Eu o reconhecia. Era o hospital Darvins Health, que ficava a duas quadras do meu apartamento.

- Olha só quem acordou? –disse a mulher. – Está se sentindo bem?

- Sim. Mas minha cabeça dói um pouco.

- Isso é normal.

Olhei ao redor. Encarei estupefata, o loiro que me ajudara hoje mais cedo. Não é possível.

- Você me atropelou? –eu perguntei surpresa.

- É você, Gisele?

- Sim.

- Putz! Jamais imaginaria que nos encontraríamos novamente. Muito menos nessas circunstâncias.

- Nem eu.

- Quantas horas?

- Onze.

- Nossa. –disse me levantando. Preciso ir. Preciso de um taxi, urgentemente.

- Calma. –disse-me ele. – Eu te dou carona.

- Tem certeza?

- Você não vai achar nenhum taxi agora.

- Tá, já que você insiste... Hei, onde está minha sacola?

- Aqui. –disse ele me entregando.

- Ok, então vamos.

Entrei no carro dele e me sentei no banco do passageiro.

- Onde estamos indo?

- Percival Leighton Street.

- Sei onde é. Acho que demoraremos cerca de meia-hora pra chegar lá.

- Você mora aqui no Queens?

- Moro. Na Lótus Brounks.

- Nossa. Mora a três quadras do meu apartamento.

- Que legal.

- É sim. Agora me diz, qual seu nome?

- Peter.

- Hum. Olha, se eu estiver atrapalhando seus planos de natal, pode me dizer. Odeio atrapalhar as pessoas.

- Na verdade não. Estava indo ao supermercado.

- Vai passar o natal onde?

- Em casa. Sozinho.

- Por quê?

- Minha família mora no Texas. Não tive tempo de ir.

- Junte-se a nós, então. Meio que minha forma de agradecer pelo casaco.

- Não, não precisa.

- Sério.

- Ok, então. Aquele casaco realmente vai me fazer falta. –disse ele sorrindo. – Foi extrema coincidência hoje, né? Em NY, uma cidade com mais de três milhões de habitantes, nós, justamente, nos encontramos duas vezes hoje. Que sorte!

- É, a única sorte no meu dia hoje.

- Por quê?

- Primeiramente, o trabalho foi um saco. O meu chefe nos deu hora extra; eu sai atrasada; caí, como você mesmo viu; passei da linha que eu deveria descer no ônibus 1, tive que descer pegar outro ônibus pra linha que eu iria descer, e lá, pegar outro ônibus pra chegar ao metrô. Cheguei atrasada no meu apartamento, não consegui falar com a minha família, descobri que meu namorado está me traindo com uma ex que apareceu grávida, sai de casa, não consegui nenhum táxi, quase fui atropelada, fui parar no hospital e te vi de novo. To hiper cansada e morta de fome.

- Uau. Realmente foi um dia cheio. Mas respire fundo. A magia do natal só termina meia-noite.

- Só se for a magia negra. E já é quase meia noite.

Ficamos em silêncio um pouco.

- Chegamos. –ele me disse abrindo um sorriso.

Ele abriu a porta pra mim e eu escorreguei, quase caindo novamente, mas ele me segurou.


- Cuidado, Srta. Atrapalhada. Não queremos mais um acidente, não é? –ele disse muito próximo de mim.

- Acho que não. –eu disse.

Nós estávamos realmente muito perto, nossos lábios quase se encontrando e...

- Oh, querida! Estávamos preocupados com você. –disse tia Leila.

- Hei tia. Então, eu tive alguns problemas.

- Está tudo ok?

- Sim, sim.

- Entre logo. Vai congelar ai.

- Estamos indo.

Ela desapareceu da janela. Eu peguei minha sacola dentro do carro e Peter me puxou pelo braço livre. Tomou-me em seus braços e me beijou.

- É só que eu gosto de terminar o que começo. –ele me disse, enquanto eu retomava minha sanidade. Será que a flecha do cupido me acertou? OMG.

Entramos.

- Feliz Natal, pessoal. –disse pra todo mundo.

- Feliz natal, querida. –disse minha vó, se adiantando pra me dar um abraço. – Onde está o Fred? E quem é esse bonito moço que está te acompanhando?

- Eu e o Fred terminamos. Depois conto os detalhes. E esse é Peter. Ele meio que salvou minha vida hoje e não tinha onde passar o natal. Então o convidei.

- Fez bem. Vamos cear.

25 de dezembro, 01h30min.

- Estou indo, vovó.

- Tudo bem, filha. Adorei o presente.

- Fico feliz. Vamos, Peter?

- Claro. Adeus, Senhora Flowers. Foi um prazer conhecê-la.

- O mesmo pra você, querido.

Vovó veio me dar um abraço e sussurrou no meu ouvido.

- Não deixa esse homem escapar.

- Pode deixar vovó. –eu disse rindo.

Eu e Peter saímos. Já no caminho de volta, ele me perguntou:

- Posso saber o que sua vó te disse de tão engraçado?

Eu corei.

- Ela, na verdade me disse: “Não deixa esse homem escapar.”

- E você vai deixar?

- Não se você não quiser.

- Não vou querer, pode ter certeza.

Ele parou o carro e começou a me beijar. A neve caia do lado de fora e eu me sentia em um daqueles momentos de filme, em que o mundo ao seu redor para.

Ele não tinha razão quando disse que a magia do natal termina a meia noite. A minha está só começando.

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