Affection
Affection
Chapter 113 min read

Afeição

Quando a gente conversa


Contando casos,
besteiras


Tanta coisa em comum


Deixando escapar
segredos


Então é
isso. Encaro meu diploma do colegial, ajeitando meus óculos.


- Kyouya?


- Sim,
Haruhi?


- Estamos te
esperando, é o ultimo dia do Host Club no Ouran...


- Do nosso Host Club, você diz.


- Acha mesmo
que isso vai continuar? -ela questiona, erguendo uma sobrancelha.


- Deu certo
com o Tamaki, não deu?


- Mas o
Tamaki...


Eu não sei em que hora
dizer, me dá um medo


É que eu preciso dizer
que te amo


Te ganhar ou perder sem
enganos


- É uma
pessoa especial. Eu sei. -observo a face dela corar. É realmente muito bonita.


- Ah...
-posso perceber que os corredores nunca lhe foram tão compridos- Você... Gostou
da formatura? Até o Mori e o Honey vieram...


- Foi uma
cerimônia bonita.


- E cara...
Não sei quanto tempo terei que trabalhar para pagar tudo isso. -suspira,
abrindo a porta da terceira sala de música, que está lotada.


- Eu pago
para você.


- Ah, não,
obrigada. -sorri, balançando as mãos em frente ao rosto- Não quero contrair mais
dívidas com o Host Club.


- Me escute!
-perco um pouco a paciência e a seguro pelo braço- Não disse que o Host Club
emprestaria, eu disse que eu pagaria.


- Kyouya...


- Considere
um presente de formatura. -sorrio para ela, e me retiro, ao ver Tamaki se
aproximar com seu inabalável sorriso.


Agora já não importa mais. Por sorte nem ela
nem ninguém percebeu minhas reais intenções quanto a sua dívida. Se não fosse a
interferência, e, por que não dizer, chantagens da Srita.Eclair, Haruhi teria
uma dívida eterna com o Host Club.


Nunca me senti tão aliviado quanto quando ela
manifestou a intenção de continuar conosco. Com excessão, é claro, de quando
conseguimos recuperar Tamaki.


E enquanto Haruhi estivesse conosco, ele
estaria feliz. Demorei para perceber que a felicidade de Tamaki é a unica coisa
que me deixa satisfeito.


Sempre fui calmo e atencioso com todos, por
ter a certeza de que nunca atravessariam a parede de frieza e calculismo que
havia entre mim e o mundo.


Mas Tamaki... Ele destruiu meu mundo e minha
ilusão ao ler minha alma como quem lê um livro. Minha primeira reação foi lutar
contra isso, mas ele destruiu todas as minhas armas com seu riso...


Até o tempo passa
arrastado


Só pra eu ficar do seu
lado


Acreditei
realmente que o que me fazia me sentir assim era o laço de amizade e confiança
que nos unia por termos construído juntos os alicerces do Host Club.


Espontâneo e inocente como uma criança, Tamaki
fez crescer em meu peito uma inexplicável afeição que supera meu senso de
limites.


Por isso cedo a seus desejos mais descabidos.
Até Takashi é mais rígido com Mitsukuni do que eu com Tamaki.


Haruhi é o exemplo vivo. Tamaki está
apaixonado por ela, apesar de ainda não ter percebido. Apesar dele resistir em
aceitar os próprios sentimentos, ela ser a mulher mais lenta que eu já
conhecia, quanto a sentimentos, e os irmãos Hitachiin estarem os “ajudando”,
eles formarão um belo casal.


Enquanto eu puder, darei a eles oportunidade
de ficarem a sós, na esperança de que Tamaki se declare.


Estou o superprotegendo, eu sei. A vida nunca
lhe será difícil, porém, na escola, onde o convívio com tantas pessoas, bem ou
mal intencionadas, pode lhe ser uma ameaça, eu estarei ao seu lado para
isentá-lo de qualquer dor ou responsabilidade.


- Oi!
Kyouya! –abro os olhos e encaro os gêmeos, que falam em uníssono- A festa já
terminou.


- O que
vocês vão fazer agora, Kyou-chan?


Olho de
relance para Tamaki, que permanece estático, olhando para Haruhi. Ela boceja e
murmura:


- Que tal
irmos para casa? Amanhã conversamos pelo telefone.


- É uma boa
idéia, está tarde, não é? Takashi? –boceja Honey, se inclinando sobre a cabeça
de Mori.


- Sim.


-
Ótima ideia filhinha! –ri Tamaki.


-
Hum... Se o Senhor está de acordo, podemos então levar Haruhi para casa! –falam
os gêmeos, pegando Haruhi pelo braço e pela cintura.


-
Já chega. Vamos para casa. –acabo com a confusão e Tamaki sorri para mim.


-
Kyouya, eu poderia dormir na sua casa hoje?


-
Claro, Tamaki. Vamos, venha Haruhi, te deixamos na sua casa no caminho.


-
Vamos Hikaru... –Kaoru choraminga, puxando o irmão de leve. Hikaru lança um
olhar fugaz à Haruhi e cede a pressão do gêmeo.


Mori e Honey sorriem para Haruhi e Tamaki e
também se vão.


Saio na frente até o estacionamento e quando o
motorista abre a porta de trás, puxo eu mesmo a porta do passageiro. Levanto o
vidro da limosine, deixando o casal atrás à vontade.


O
motorista não diz nada, afinal, seria uma indiscrição. Depois de um tempo,
Haruhi desce do carro e Tamaki abaixa o vidro.


-
Kyouya... Tá bravo comigo?


-
Você é muito idiota mesmo... –Não olho para ele, tiro meus óculos e massageio
minhas têmporas- Pelo menos conseguiu dizer a ela?


Você me chora dores de outro amor


Se abre, e acaba comigo


Nessa novela eu não quero ser seu amigo


É que eu preciso dizer
que te amo


Te ganhar ou perder sem enganos


Quase
posso ver o rosto dele atingir um tom avermelhado, bem atrás de mim, e se
desviar da minha direção.


-
Por que vocês falam essas coisas?


Suspiro,
pedindo aos céus para ter paciência com ele.


-
Me diga, Tamaki, por que você veio para minha casa, essa noite?


-
Nós precisamos conversar. –sua voz está séria como raramente fica. Olho para
trás e encaro os olhos azul-anil tentando ler através deles. E eles me dizem
apenasuma palavra: Resolução.


Meneio minha cabeça afirmativamente, e uma inquietude
devora minha alma.


Em algumas horas ele está devidamente
instalado em um quarto de hóspedes
próximo ao meu. Sentado em minha cama, abro alguns arquivos de e-mail e
ele vem até meu quarto, secando os fios loiros recém lavados.


-
Me diga o que há, Tamaki. –fecho o notebook e ponho meus óculos para focalizar
melhor seu rosto, no qual a ausência de um sorriso é preocupante.


-
Kyouya, agora que terminamos o segundo grau percebi que era a hora de nós, de
mim, me tornar mais responsável. –apenas concordo e o deixo prosseguir- Ah,
eu... Estou apaixonado pela Haruhi.


Eu já sei! Já sei disso há três anos! Por que
ouvir isso dele ainda é tão desconfortável???


-
Fico feliz que tenha percebido. –sorrio- O que pretende fazer com relação a
isso?


-
Acha que é muito cedo... Para pedi-la em casamento?


-
Ela pretende ser advogada, como a mãe dela. Acho que casar agora a atrapalharia
um pouco, mas vocês podem namorar antes de noivar, nenhum dos dois vai fazer
nada fora do comum, mesmo.


-
Kyouya, eu vou voltar para a França.


Meu estômago dá uma guinada e sinto o ácido
clorídrico o preencher por completo.


-
Como assim? –ajeito meus óculos e o encaro. Ele se senta ao meu lado.


- Eu
sou um homem agora, Kyouya, e devo agir como um daqui pra frente. Estou
confiando isso a você, porque sei que é o único que me apóia de verdade e...


-
O que... O que você vai fazer?


-
Vou atrás da minha mãe, Kyouya. Vou encontrá-la e apresentar Haruhi a ela.


-
Então voltará em breve.


-
Voltarei para buscar Haruhi. A França é meu lugar, apesar de tudo.


-
Você... VOCÊ TEM NOÇÃO DO QUE ESTÁ DIZENDO?- meus gritos ecoam pela casa- TEM
NOÇÃO DE COMO SOFREMOS SÓ DE PENSAR EM TE PERDER? TEM NOÇÃO DE COMO... De como
eu...


-
Ky...Ouya...


-
Tamaki, não vá para longe! Somos uma família, todos nós. O que uma familia faz
sem seu patriarca?


-
Eu sinto muito.


-
Você sempre sente muito! –está difícil recuperar meu autocontrole. Em um acesso
de raiva jogo meus óculos longe e afundo o rosto nas mãos ao som de vidro
quebrando- O que vai ser de mim sem você, Tamaki Suoh?


Eu já não sei se eu tô misturando


Eu perco o sono lembrando cada gesto teu


Qualquer bobeira


As palavras escapam de meus lábios antes que
eu possa as implodir. Meu estômago retorce, inundado pelo ácido.


- O que você disse? –seus olhos estão levemente
arregalados e sua face, avermelhada.


- Eu não tenho propósito... Em ficar no Japão... Sem
você, Tamaki.


- Mon ami...


Por que ele insiste em segurar meu rosto cansado em
suas mãos? Por que você tem que ser tão inocente a ponto de me fazer sofrer,
Tamaki?


- Esqueça. –o empurro levemente- Estive sendo
ridículo. Vá para a França, encontre sua mãe, case-se com Haruhi e seja feliz,
Tamaki. Nos vemos por aí.


Me levanto, o
deixando em meu quarto, e vou até o banheiro tomar um antiácido. Depois de ler
a bula e ter certeza de que não há contra-indicações, engulo também um remédio
para dormir.


Me arrasto até um quarto de hóspede e tenho uma noite
de sono pesado e sem sonhos.


Para minha surpresa, quando me levanto meio dia, a
casa está vazia. Tamaki, é claro, deve ter ido embora, mas os empregados ainda
deviam estar por aí...


Por sorte a
gastrite do ontem amenizou minha fome hoje, senão eu ficaria realmente irritado.


Uma nota musical, seguida de outra poucos minutos
depois, chama a minha atenção. Sigo o som, curioso, chegando a sala de estar.
Tamaki me olha como se pedisse perdão, me fazendo estremecer, e se volta para o
piano, tocando a musica mais linda que eu já o ouvi tocar.


Novamente a
represa que existe dentro de mim racha na extremidade, e meus olhos já embaçados
pela ausência dos óculos se enchem de água.


Tenho que me
conformar em perdê-lo, eu sabia desde o início que esse dia chegaria. A música
para e o sinto me abraçar, suas lágrimas molhando minha camisa.


- Nunca vou esquecer vocês. Você estará sempre comigo,
mon ami, aonde eu for. Em meu coração.


- Você... Sempre será parte de mim, Tamaki.


- Aprendemos muito um com o outro.


- Sim, -sorrio para ele, de forma sincera desta vez-
Tamaki...


-Hã? –ele atende meu chamado, desfazendo o abraço.


- Você já disse isso tudo a Haruhi?


Vejo as pupilas dele retraírem e me contenho para não
rir.


- Eu...


- Vamos, eu te levo lá.


- Sua irmã dispensou os empregados hoje...


- Eu já tirei carteira de motorista, sabia? –vou até
uma escrivaninha e retiro de uma caixa de lentes de contato.


- Mas eu não sei como ir daqui à casa da Haruhi, e...
–ponho minhas lentes enquanto ele fala.


- Entre no carro e deixe comigo.


Vamos em silêncio até a garagem e de lá, até o
apartamento de Haruhi. Vagas para estacionar são mais raras hoje em dia, então
começamos a andar até lá.


- Kyouya, eu estou tão nervoso...


- Tamaki, você é o Rei do Host Club, nunca foi tímido
nem nada do genêro, por que isso agora?


- Tenho medo. Medo de me precipitar, medo de não ser
quem ela gostaria que eu fosse...


Fechando e abrindo a geladeira a noite inteira


É que eu preciso dizer
que te amo


Te ganhar ou perder sem enganos


- Tamaki, todos gostamos de você do jeito que você é. –ele sorri para
mim.


Por um descuido grande de nossa parte, o sinal abre.
Puxo Tamaki pela cintura, para a calçada, segundos antes de um carro passar a
toda. Meu coração dispara.


- Você está bem?


- Foi só o susto. –ele apóia a cabeça em meu ombro,
enquanto esperamos o sinal fechar novamente.


- Prete atenção, idiota! –ralho. Acabo atravessando a
rua com ele e tocando a campainha do apartamento de Haruhi.


- Pois não? Kyouya? Tamaki? –percebo a face de Tamaki
ficar cada vez mais ruborizada- O que fazem aqui a esta hora?


- Ah, é mesmo, a hora! –emendo- Estou atrasado.
Haruhi?


- Sim?


- Cuide desse rapaz para mim, não deixe que sua
imaginação incoerente e suas distrações o machuquem, está bem? –ela concordou,
sorrindo, e eu empurro Tamaki em sua direção- Ele está em suas mãos agora.


Ela cora, eu ponho as mãos nos bolsos e me vou.


Meus
sentimentos são confusos demais e eu não sou egoísta a ponto de estragar a
felicidade de Tamaki. Vou guardar essa afeição só para mim, junto as boas
lembranças que tenho em meu peito, e quando eu tiver certeza, quem sabe,
arriscarei.


Afinal, eu
sempre arrisquei tudo por ele.


Eu preciso dizer que te amo...


Tanto.

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