A Whisper in the Darkness
A Whisper in the Darkness
Chapter 19 min read

O Despertar


VINICIUS

Vinicius abriu os olhos. Estava em seu quarto, suspirou aliviado após perceber. Foi apenas um pesadelo, afinal. Aquela paisagem distópica distorcida que parecia brincar com a sua mente, aquelas criaturas atormentadoras e aquela enorme torre no meio de tudo, que parecia vigiá-lo a todo instante.

Ele tirou o cobertor de cima do corpo e pôs os pés no chão, fazendo um calafrio percorrer a espinha. Era a primeira noite fria de junho, o corpo ainda não estava acostumado com o frio do inverno. Estava acostumado com calor, visto que em Nova Independência, São Paulo, as temperaturas eram quentes boa parte do ano. Olhou para o canto do quarto, onde a luz da lua cheia iluminava. Ringo, seu vira-latas de estimação, dormia em sua caixa de papelão, encolhido para espantar o frio.

Ele olhou pela janela. A plantação de milho de seu pai estava mirrada, após a péssima colheita daquele ano a família passaria dificuldades para viver. Com um suspiro chateado, o garoto saiu do quarto e foi para o banheiro em passos arrastados. Lá, urinou quase errando o alvo algumas vezes, baixou a tampa do vaso e deu descarga para não acordar ninguém. Se olhou no espelho. O garoto branco, de cabelos louros, lisos na altura do pescoço tinha olheiras profundas sob os olhos azuis . Ultimamente a vida estava sendo muito estudo, muito trabalho, muitos problemas e pouco descanço. As vezes parecia demais pra um garoto de 14 anos. Vini lavou as mãos e voltou pro quarto, no escuro. Esse escuro não era apenas do corredor, mas também de sua mente.

Enquanto passava pelo corredor, tinha a estranha impressão de que todo e qualquer som cessou. Não ouvia o vento soprar lá fora, nem os cupins devorando o assoalho. Passou ao lado do quarto de seus pais e não ouvio nem ao ronco alto de seu pai, o que era um tanto estranho. A porta de seu quarto estava bem a frente, quando tocou a maçaneta, ouviu um baque seco do outro lado. "Mas que merda é essa?" pensou enquanto abria devagar a porta. A medida que a fresta aumentava ele podia ver do outro lado. O lugar que antes estava seu quarto dava lugar para um corredor mal iluminado. Assustado, Vinicius olhou pra trás, e lá estava outro corredor idêntico, sem fim, sem portas e apenas com um fundo escuro. O medo tomou conta do garoto que, apesar disso, sentia alguma coisa atraindo-o para o fim daquele corredor. Ele andou.

O caminho era cheio de curvas, subidas, descidas e em certos pontos, o corredor parecia se retorcer ao redor de si mesmo e ainda assim, aos olhos de Vinicius, o corredor parecia perfeitamente reto, visto que tudo o que ele fazia era andar na mesma direção. Ali, ele ia aos poucos perdendo a sua noção de espaço e de tempo até que uma luz surgiu no fim do corredor. A cada passo, a luz se aproximava mais, seu coração batia mais forte, seu medo ia se intensificando, até que ele a alcançou.
Estava tudo se repetindo. Uma paisagem que se retorcia ante seus olhos, um céu vermelho e terras chamuscadas, ao fundo, ruínas, criaturas disformes, grotescas que atormentavam outras criaturas menores com ferro e fogo. E a torre. No centro de tudo estendia-se aquela torre que parecia um amalgamo de bronze, ferro e mármore negro, que era erguida em uma forma errática e que, no mundo real, seria impossível de se sustentar. Parecia a única coisa constante.

A torre estava chamando-o, um infinito de vozes parecia gritar e sussurrar ao mesmo tempo dentro de sua cabeça, súplica por ajuda, por redenção, ordens conflitantes e muitas informações desconexas que a cada segundo pareciam se unir e fazer algum sentido.

Naquele momento, Vinicius só queria acordar.

O caminho até a torre as vezes existia e as vezes não, ainda as vezes existia e não ao mesmo tempo.

— Ela clama teu nome desde muito tempo antes de sequer existir. Vá até a torre.

Vinicius procurava a fonte daquela voz estrondosa, os olhos já cheio de lágrimas.

— Quem é você? -a voz de Vinicius saiu mais baixo que o esperado- Onde você tá? -seu medo era mostrado em sua voz- Pelo amor de Deus, responda o que é esse lugar e por que eu tô aqui! -agora lágrimas estavam caindo pelo seu rosto.

O garoto finalmente distinguiu algo. A "coisa" que falava com ele não tinha uma forma física definida. Na realidade, era um vórtice no próprio espaço, cuja a voz parecia ecoar diretamente dentro de sua cabeça.

— Eu sou Alastor, e o espaço não me limita como limita a ti. Estou em todos os lugares e em lugar algum. Aqui é o lugar conhecido pelo seu povo como o Pandemônio, o reino dos pesadelos, morada dos demônios. Um dos cinco Reinos Supernos. O Reino regido pelos arcanos do espaço e da mente . Você é um herdeiro da torre do Guante de Ferro. A torre o invocou porque sua alma atingiu o limiar e é hora de trilhar a senda da flagelação e despertar, deixar para trás a mentira e abrir os olhos para o mundo que o cerca. Você conseguirá fazer a realidade se dobrar ante sua vontade. Você será um Mago. — a voz de Alastor ecoava por todo o espaço.

— Do que você está falando? E-eu não entendo nada disso que está falando. -lágrimas enchiam os olhos de Vinicius e seu desespero acelerava seu coração- Eu só quero ir pra casa!

— É você quem decide -respondeu Alastor- Se desistir do seu potencial é só me dar as costas e ir embora. Sua alma adormece outra vez e você nem mesmo lembrará que um dia pisou no Mundo Superno.

— Eu vou.

O garoto deu as costas para a manifestação de Alastor e fez menção de ir embora, mas olhou novamente para a torre do Guante de Ferro, hesitante.

— O que houve? Ainda não se decidiu?

— Eu -houve uma pausa- Não sei. A torre continua me chamando.

A voz de Alastor foi afastando-se.

— Se for sua vontade, responda ao chamado. Faça como os que vieram antes e como os que virão depois.

A manifestação incorporeal sumiu, deixando o garoto com o próprio pensamento. Vinicius pensou em todas suas possibilidades, em consequências e, até mesmo, se tudo aquilo era parte de seu sonho. Então, ele tomou coragem e seguiu adiante pelos Ermos paradoxais do Pandemônio.
A cada passo que trilhava naquela senda, Vinicius sentia o flagelo de cada criatura maldita dali. A pele queimava, faltava-lhe ar, os ossos pareciam querer ceder, mas o chamado soava cada vez mais alto, mais forte no coração dele. O que dava forças para ele era pensar que tudo aquilo era sonho e ele estava no controle da situação. O ermo pelo qual percorria logo se transformava num desfiladeiro imenso que levava a uma escadaria ao pé da torre. O garoto olhou pra cima e viu a torre que sumia aos céus. Ele então tomou fôlego e subiu aquelas escadas.

O caminho era interminável. Conforme avançava, tudo ao seu redor escurecia e das sombras surgiam os tormentadores demoníacos, que tentavam agarrá-lo. O mínimo toque dessas criaturas causava dor insuportável. Vinicius apertou o passo e logo começou a correr, se esquivando, como instinto, enquanto subia as escadas. Alguma das criaturas agarrou seu pulso. A dor era tão insuportável que percebeu que aquilo realmente estava acontecendo. Ele parou e gritou de dor, sentia como se o contato de sua pele com a do demônio fizesse queimar. Ele viu o demônio o segurando o seu pulso, uma criatura alta, de pele vermelha, enrugada e sem pelo algum. Vinicius gritou novamente, a dor estava se intensificando, a cada segundo que se passava ele ficava sem ar e mais fraco. Sua mente estava tão atordoada que a única coisa que ele queria agora era acordar e ver seus pais. Imaginou a cena longe dessa criatura, sua dor havia se transformado em esperança, e foi o que ocorreu. Foi como se o garoto tivesse criado uma barreira intransponível entre eles e o demônio a partir de sua própria vontade. No pulso, onde o demônio o segurou, uma marca foi gravada em sua pele com fogo Ele não parou para admirar sua proeza nem pra examinar a marca. Ele voltou a correr escadas a cima e a voz de Alastor, outra vez, se projetou na cabeça de Vinicius.

— Sua alma está quase despertando garoto. Isso que acabou de fazer é ínfimo se comparado com o verdadeiro despertar. Falta pouco.

— Eu... -agora não era mais medo que invadia sua voz- Vou conseguir -disse, com esperança.
O garoto corria, estava cansado e com dores, mas não iria desistir. Não podia desistir.

As infindáveis escadas finalmente terminaram no planalto sobre o qual fora construída a torre. Lá estava a estrutura que se estendia aos céus. Não havia sequer sinais de portas ou entradas.

—Você conseguiu. Tua alma é digna do poder dos despertos.

Suando em bicas e ofegante, Vinicius olhou para as paredes de mármore negro e viu centenas e mais centenas de entalhes indecifráveis.

—E... Agora? Por onde entro?

— Não deve entrar. Não ainda. Escreva nesses muros o seu nome, assim como os outros fizeram. Você será um Mastigos, como chamavam os atlantes, um bruxo herdeiro da torre do Guante de Ferro, capaz de controlar o espaço, como fez há pouco, e a mente. Distâncias para você serão meros detalhes e a mente e todas as suas nuances serão aos seus olhos um livro aberto pronto para ser lido e modificado a seu bel prazer.

Enquanto Alastor falava, o garoto andava instintivame nte na direção da torre. Entre os muitos entalhes, havia um espaço em vazio. Ele tocou na pedra com a ponta do dedo, e a superfície se desfazia ao seu toque. Ele escreveu então seu nome. No mesmo momento, uma torrente de informações invadia a sua mente. A paisagem do Pandemônio aos poucos se desfazia diante dos seus olhos.
Ouviu pela última vez a voz de Alastor.

—Vá, Mastigos. Dobre o Mundo Decaído sob sua vontade...

E de repente, tudo acabou.

Comments & Reactions

Share your thoughts, attach collectible stamps, and react with the author and community.

Story Index