Estava brincando com as minhas amigas no recreio, quando de repente, um aluno novato, um menino de cabelos ondulados castanhos, pálido, sentado numa cadeira de rodas, me olhava fixamente. Fui ter com ele. Esse novo aluno estava paralítico na cadeira de rodas, nada ali fazia. Foi aí, que eu nem pensei duas vezes e fui me abrir com ele.

– Oi, tudo bem? — aproximei o meu rosto para o dele, fazendo com que ele me enxergasse. — O meu nome é Geórgia. E o seu?

Nada. Ele nem respondeu, tampouco acenava. Por outro lado, seus olhos azuis se mexiam. Tentei ao máximo advinhar o nome dele.

– Deixa eu advinhar. É George?

Ele nem mexeu a cabeça, imagina os olhos.

– Robert?

– Charlie?

– Jonathan?

Nenhum movimento foi detectado. Com base na tentativa e erro, me deu ao luxo de continuar tentando, até que...

– Richard?

Ele nem sorriu, mas franziu a bochecha, o que significa que Richard era o nome desse menino! Continuei com o diálogo.

– Oi, Richard. De onde veio?

Nem mesmo falar, ele sabia. Por isso, tive que cortar as perguntas e mudar o rumo da conversa. Tipo, socializar com os colegas de classe.

– Bem, não tem problema! Seja bem-vindo ao primeiro dia de aula! — e com isso, apertei a mão pálida dele, com o maior carinho.

Ouvi minhas amigas gritarem:

– Vamos, Geórgia! É sua vez de segurar a corda!

– Eu já estou indo! — gritei de volta. E voltei meus olhos para o Richard. — Observe isso.

E fui segurar a corda, balançando para cima e para baixo. Richard observava, com os seus olhos azuis acompanhando o movimento circular da corda. Fiquei com uma pontinha de pena dele e pedi emprestada a outra extremidade da corda à uma das minhas amigas que segurava. O que eu fiz foi amarrar a extremidade da corda em um lampião e a outra eu segurei. E pus o Richard na brincadeira.

Balancei a corda para o ar e esta foi parar em frente à roda dianteira da cadeira de rodas. Eu empurrei a cadeira com o Richard para a frente, passando por cima da corda, com todo o cuidado.

– Isso! Você conseguiu, Richard! — gritei.

As minhas amigas estranharam o meu comportamento. Uma diz que eu pirei na batatinha, a outra fala que estou enlouquecendo. Mas eu ignorei. Continuei a brincar com ele, do tipo, jogar futebol, brincar de pirata, de salvar a mocinha dos piratas bandidos... Tudo isso amarrando os pedaços da corda que eu mesma cortei com a tesoura lá da sala, nos pulsos e nos tornozelos do Richard, dando impressão de que ele se movesse, na verdade. Aí, sim, que as meninas disseram que eu enlouqueci completamente. Me concentrei nele. Mas, a partir do momento em que eu brinquei com ele, eu senti que ele, apesar de não poder falar, nem se mexer e nem sorrir, estava feliz por dentro. Me conectei a ele! Richard era o que precisava de divertimento naquele momento.

+++

Conforme os dias se passavam, Richard foi se tornando cada vez mais apegado a mim, assim como eu apegada a ele. Um dia, quando entrei na sala de aula, a minha professora falou que Richard não vai poder sair para brincar, pois estava muito cansado. Logo pude perceber que ele estava completamente pálido, com seus olhos azuis arregalados. Nem pensei duas vezes e logo me ofereci para fazer companhia a ele. A professora aceitou e nos deixou a sós. Richard e eu. Grandes amigos.

– Nós temos nos divertido muito, sabia?

Encarei o Richard com uma felicidade tão grande, mas tão grande, que eu imaginava a gente viajando pelo mundo afora. Para tanto, abracei ele, dando vários encorajamentos de conquista, de futuro esplendoroso e espetacular.

– Você quer dançar? — perguntei, embora sabendo que ele não se locomovia.

Então, o retirei cuidadosamente da cadeira e em seguida, agarrado a mim, nós dançamos valsa em uma sinfonia imaginária. Era o momento perfeito para esquecer tudo e todos, só eu e o Richard. Imaginei também ele andando, dançando comigo, dando aqueles passos. Uma salão de baile, um céu estrelado, até a Aurora Boreal, tudo era o nosso perfeito lar, a nossa descoberta, enfim, a nossa amizade e o... Amor. Amor de amigo.

+++

No dia seguinte, eu cantarolava pelo corredor, animada para ver Richard, mesmo andando ou não. Era um grande amigo. Logo que eu me aproximei do corredor ao lado, encontrei a cadeira de rodas de Richard, desocupada. Imaginei. Ele conseguia andar! Fui correndo em direção a ela e, no assento, havia um pedaço daquela corda que eu usei para amarrar as mãos e os pés dele para brincar.

– Eu sabia! Eu sabia! Ele conseguiu! — comemorei e corri saltitante até a minha sala para procurá-lo e acabei me deparando com uma notícia nada boa. Ouvi a minha professora e uma voz masculina, que parecia ser o pai de Richard.

– Não foi dormindo que ele sofreu... — falou o homem.

– Olha, sr. Holmes, eu sei que é muito difícil para o senhor e sua família, como para nós, mas.. ele parecia muito feliz por dentro. Ele se divertiu o máximo que pôde. Era um menino tão carinhoso.

– E como. A mãe dele não pára de sofrer com a dor, mas, que Deus o tenha e tenho certeza absoluta que ele vai ser muito feliz lá.

– E o pior vai ser em avisar à Geórgia. É uma menina muito talentosa. As outras colegas a achavam esquisita, mas ela só queria o melhor para o seu filho.

– Geórgia. Deve ser uma menina abençoada!

Meus olhos se encheram de lágrimas ao ouvir o que aconteceu com Richard. Sentei no chão, encostada na parede do corredor, olhando fixamente para a cadeira de rodas de Richard. Imaginei ele lá, ainda lá. Ah, Richard. Olhei para o pedaço da corda na palma da minha mão. Apertei com força até ficar marcas de unha na palma. É por isso que eu sempre guardei no coração. Richard foi e sempre será o meu melhor amigo!

Nunca me esqueci dele ainda hoje, vinte anos atrás. Hoje eu sou professora elementar da mesma escola em que eu estudei, quando conheci Richard. Até hoje guardo o pedaço da corda em meu pulso esquerdo. Onde quer que eu esteja, sinto que Richard ainda está ao meu lado.

Comentarios & Reacciones

Comparte tus opiniones, pega estampas coleccionables e interactúa con el autor y la comunidad.

Has llegado al capítulo más recienteVolver a la historia
Índice de la Historia