Me sentei no sofá com o prato de yakisoba quente em mãos, decidindo entre pegar o controle ou simplesmente escutar a chuva torrencial cair lá fora. Eu estava sozinha, como sempre. Agora ele tinha uma família e estava mais seguro com eles do que jamais esteve perto de mim e eu seria um ser humano ainda pior se tentasse tê-lo de volta. Eu tinha que deixá-lo tentar...

Peguei um pedaço de cenoura com os hashis, porém a campainha me fez parar. Já eram 23:53, muito tarde para uma visita amigável... Mas que droga! Só por que o yakisoba está tão cheiroso?! Suspirei e coloquei o prato na mesinha de centro e, com cuidado, me levantei com a arma em mãos pisando leve até a porta. É nessas horas que eu me xingo mentalmente por nunca me lembrar de colocar um olho-mágico.

Destranquei a porta sem fazer nenhum barulho e a abri rápido, apontando a pistola para o meu visitante. Ele estava ensopado. Seu cabelo loiro escuro pingava grossas gotas, as quais caiam em seu rosto e em meu tapete de entrada velho. A jaqueta preta estava colada em seu corpo, deixando proeminente os músculos dos braços, os quais apoiavam-se no batente da minha porta, molhando-o também. Ele levantou o rosto e vi seus olhos claros faiscando em raiva, decepção e tristeza.

— Clint? O que está fazendo aqui a essa hora? E nessa chuva? — ele não respondeu e eu abaixei a arma, dando-o passagem para entrar, o que não o fez.

— O que eu estou fazendo? — um riso de escárnio escapou pelos seus lábios e seus olhos se tornaram mortais. — Você sabia! Você sabia de tudo e não me contou!!! ME DEIXOU VIVER NUMA MENTIRA!!

— Clint! Não grite aqui no corredor! Entra, por favor! — puxei gentilmente o seu braço, mas ele se soltou de forma rude e entrou pisando duro, como se segurasse para não socar as paredes. Para não me socar. Fechei a porta, com receio de alguém ter escutado e fui até a cozinha pegar um copo de água para ele, só para depois me virar e encará-lo. Me arrependi de não ter ficado com a ilha entre nós e acabei deixando o copo na bancada. — Agora acalme-se e me conte o que está acontecendo!?

— O que está acontecendo? Eu que pergunto Romanoff! EU QUE PERGUNTO!!!! — as suas mãos tremeram de leve e ele deu um passo cambaleante em minha direção. Seus olhos furiosos me fuzilavam e senti um arrepio de medo correr pelas minhas veias, pela primeira vez em anos. Sua voz ressoou alto pelo pequeno espaço, o que fez retomar um pouco da razão por meros segundos. — Eu que te pergunto...!!

— Eu não sei do que você está falando! Será que não percebeu isso?

— Eu estou falando de acordar hoje na cama e me lembrar de toda a minha vida, como se passasse como um borrão em meus olhos, e não ver nenhuma família em todo o meu passado!!! — Meu coração falhou uma batida. Ele não pode estar falando sério... — Me explica isso Romanoff!! Me explica como eu tenho uma família que surgiu de repente após o ataque de Loki?!?! E como eu não me lembro de nada dela a não ser de imagens que parecem de um sonho?!?! E que tudo sobre o meu passado parece um sonho?!?! ME EXPLICA?!?!?!?!

Meus lábios se abriram, porém nenhum som saiu. Não havia o que falar... Isso não era para acontecer... Não era para ele se lembrar!!! Consegui adaptar toda a minha vida após aquilo, para agora ele lembrar???

— Romanoff!! Você não tem nada a me dizer?? Você sabia disso!! Todos vocês sabiam!! Você, o Fury, a Hill... Todos!

— Clint...

— Por que??? Me diz!! Você sabe como eu ficava me culpando todos os dias por não sentir amor real por eles?? Nada vinha além de um grande carinho...! E eu me martirizei cada minuto... PARA NADA!!!

— Clint, por favor...

— EU QUE DIGO POR FAVOR!!!!! Por que você fez isso COMIGO??? — Ele deu mais um passo em minha direção e eu dei um para trás, batendo a base da minha coluna na ilha. O ar estava pesado em meu pulmão. Eu conhecia a postura que ele ostentava... Os braços tensos fazendo as veias saltarem; as mãos fechadas em punho; a boca fechada numa linha; os olhos brilhando em fúria. Era assim que ele ficava quando estava com ódio do alvo, pronto para matar... Ele ia me matar...

— Clint — Minha mão deslizou para a arma que eu deixei sem querer na bancada, sem ficar de costas para ele — Não foi por mal... Você não estava bem depois do que aconteceu com o Loki! Pedia ajuda! Queria esquecer! Você deve se lembrar disso também...

— Lembro sim. Mas não me lembro de pedir por uma vida FALSA!! — ele continuou a caminhar em minha direção e vi seus olhos encontrarem minha mão, já com a arma firme. — E agora você pega uma arma? Para que? Está com medo Romanoff...? — Sentiu a acidez de suas palavras como se rasgassem a minha pele. Ele voltou a me olhar nos olhos e vi nitidamente o ódio.

— Clint, por favor, se acalme! Desse jeito você...

— Eu? Eu o que? Posso fazer uma besteira? Você não sabe como estou louco para fazer uma besteira...!!!! VOCÊ ME ENGANOU!! — seu hálito já batia em meu rosto e vi um pequeno temor nos olhos dele, apenas o reflexo do que estava nos meus... Eu o conhecia bem demais nessa postura para não temer nada... — VOCÊ ERA A PESSOA EM QUE EU MAIS CONFIAVA!!! E FEZ ISSO COMIGO!!!!

Sua mão se colocou em cima da minha e retirou a arma, muito mais facilmente do que eu gostaria de admitir. Cada braço seu se apoiou na bancada, me prendendo; era palpável a raiva emanando dele. A raiva e a decepção.

— Clint, eu não queria, mas não havia nada que eu pudesse ter feito! Eu...

— Você era a minha parceira...!!! E agora não é mais nada. — Ele saiu rapidamente de perto e o frio me envolveu. Seus pés o levaram de um lado para o outro da sala, com a arma em mãos. Minha respiração ainda estava pesada e a bancada estava gelada nas minhas costas, intensificando o frio.

— Clint...

— PARA!! Para de ficar falando o meu nome como se fosse consertar algo!!

— Você não me deixa falar! — Reuni toda a coragem que tinha e me coloquei firme de pé. Até porque eu sou a Viúva Negra e não seria o meu parceiro embebido por ódio que iria me fazer fraquejar. Mesmo havendo tantas emoções envolvidas. — Eu estou tentando te falar o que aconteceu! O porquê! Entretanto, parece que a explicação não é mais importante do que ficar gritando na minha cara...!!

Ele finalmente parou de andar de um lado para o outro e se virou para mim, com a arma a meio caminho de apontar direto para o meu peito. Seus olhos suavizaram um milésimo de segundo antes de voltar a me encararem com ódio.

— Eles fizeram isso sem me consultarem. Você estava desesperado, porque a todo momento sua visão ficava turva, seus olhos ficavam azuis neon e suas mãos pegavam em armas e apontavam à pessoas diferentes. Você chegou a me jogar da cama e tentar me enforcar durante quase um minuto, até recobrar a consciência.

A arma caiu no chão e vi seu rosto desmoronar. Toda a raiva parecia haver desaparecido, deixando apenas o desespero, igual às outras vezes... Ele deu um passo na minha direção, mas de novo fui para trás e me apoiei na bancada, o fazendo parar.

— Eu... Eu não lembro disso... — Engoli seco e tentei continuar passiva, sem muito sucesso.

— Não largue uma arma assim no meu chão! Ela poderia disparar!

— Não iria.

— Poderia estar destravada!

— Não estava! — Sua voz saiu grave entre seus dentes cerrados — Eu sabia que não estava! Posso estar confuso sobre muitas coisas, mas ainda sou o Gavião Arqueiro! Ainda sou um dos melhores espiões da Shield! Sei quando uma arma está travada ou não!! — O vi respirar fundo, tentando se acalmar de verdade — Agora, será que pode me contar? Esses dias... Eu não...

— Acho que eles conseguiram apagar bem esses dias. Eles usaram algo relacionado com um programa chamado TAHITI. Apagaram essas memórias e implantaram a da família. Pensaram em tirar a parte do Loki também, mas você ia desconfiar de não se lembrar de nada relacionado ao ataque. E foi isso.... Apagaram tudo.

— Quando foi?

— Uns dois meses antes da queda da Shield. E logo depois te deram uma folga gigante para as memórias "se fixarem". Por isso você não ficou sabendo da queda na época. Eles te cortaram da lista de agentes por um tempo, e...

— Apagaram sobre nós também... Não é? — Sua expressão era de total angústia. — Eu tenho algumas lembranças que aparecem, como de um sonho. Elas são reais? — Engoli seco. Eram ordens do Fury... Mas... Apertei de leve minhas costas contra a bancada fria, não querendo responder. Eu falaria tudo para ele, como sempre fiz, mas não sobre isso. Não agora que eu estava começando a seguir em frente. — Me diz. Natasha...

Ele andou de novo até mim, quase me prendendo mais uma vez. Seus olhos faiscavam em minha direção, me forçando a dizer algo. Seu hálito batia em meu nariz, fazendo meu rosto pinicar. Senti uma vontade de encostar nele, uma vontade que percorreu meu corpo inteiro; contudo, me mantive parada, tentando me controlar e planejar algo para o tirar da minha frente e do meu apartamento. Não podíamos continuar...

— Não apagaram nada Clint. Não havia nada para apagar. — Seus olhos escureceram e se tornaram ainda mais confusos.

— Não... Eu sei que tem algo! Que nós tivemos algo! Tasha... Me conta! Me fala o que é verdadeiro ou falso!! Por favor...

Meu coração se apertou em meu peito. Suas mãos envolveram ternamente as minhas, esperando uma resposta diferente. Uma que eu não podia dar. Contar à ele era estragar a felicidade que eu o via ter perto daquelas crianças, de um futuro que aquela família poderia dar para ele... Nem isso eu poderia dá-lo! Uma família... Algo sólido, algo para ter motivos para voltar vivo para casa. Além de tudo, Fury me mataria e o mataria se voltássemos com tudo.

— Clint,

— Não minta para mim. Você sabe que eu sou o único que percebe quando está mentindo ou não. Me fale a verdade Tasha! — Ele tirou a mão esquerda de cima da minha para acariciar meu rosto. Exatamente como ele sabe que eu gosto! Filho da mãe!! Ele se lembra exatamente de como me desarmar...!!

— Você já sabe a verdade. — Sua não parou no meio de minha bochecha, enquanto a outra se fechou levemente em torno da minha mão.

— Então é tudo verdade mesmo? Nós....

— Sim. Mas no passado. Agora você tem uma família e...

— Uma família? NATASHA!! Eles não são a minha família! Nem sei como estão convivendo comigo por todo esse tempo, fingindo!!

— A Laura foi contratada pelo Fury, é uma agente da Shield.

— O que?? — Sua mão apertou a minha, chegando a quase machucar.

— Ficava apenas na área de computação, essas coisas, e estava prestes a sair para cuidar dos filhos. As crianças, eu acho, pensam que você é mesmo o pai delas... Ou pelo menos algum parente muito próximo que assumiu a responsabilidade. O pai verdadeiro sumiu quando eles eram muito pequenos. Ela tinha acabado de descobrir que estava grávida do terceiro filho quando ele se foi.

— Por isso ela é tão boa atriz? E está fazendo isso com os próprios filhos? Como ela tem coragem de...

— São os filhos dela! Ela faria tudo por eles, até arranjar um pai e marido falso, só por eles... É instinto de mãe Clint...

— Você faria algo assim? — Seus olhos claros me fitaram intensamente, como se lessem minha alma.

— Não tem como eu saber. Eu não sou mãe, e nunca poderei ser. Você sabe!

— E é por isso que acha que eu devo ficar com eles? Você sabe que eu não me importo com isso!

— Se importa sim!! — De repente, às minhas armaduras começaram a ruir, como era antigamente com ele. — Eu sei que você sempre quis uma família! Sempre quis ter filhos e eu não posso te dar isso!

— Mas eu não quero filhos que não sejam seus.

Isso me calou na hora. Suas mãos já estavam em minha cintura, me segurando firmemente e seus olhos me examinavam. Eu sabia que ele podia escutar o meu coração bater forte, mesmo que eu tentasse o controlar. Respirei fundo e o empurrei de leve.

— Mas eu não disse que queria filhos. Acho melhor você ir embora. Antes que a Laura fique preocupada. Antes que o Fury descubra que você está aqui e...

— O Fury? Qual o problema dele descobrir? Aliás por que a nossa relação foi apagada da minha memória?? Ainda tenho muitas perguntas! E você tem a obrigação de me responder!!

— Obrigação? — O empurrei para longe e andei até o sofá. O meu yakisoba já estava frio, mas não me importei em começar a comer, dando a deixa para ele simplesmente ir embora. — Não tenho obrigação nenhuma! Você deve ir embora. Já sabe onde fica a porta. E não precisa trancar.

Mastiguei a comida fria e senti o sofá se afundar do meu lado esquerdo. Eu sabia que ele não ia desistir fácil, mas eu também não sou disso.

— Eu não vou. Se você quiser comer primeiro esse treco...

— Yakisoba!

— ...frio por mim tudo bem. Eu espero.

Ele pegou o controle em cima da mesinha e ligou a televisão num canal de uma reprise de futebol americano. Eu sabia que ele estava sorrindo, o que fazia meu sangue ferver. Tentei ignorá-lo da melhor forma possível enquanto terminava aquele fiasco de jantar e pegava o biscoito da sorte. Contudo, uma comemoração alta dele me fez derrubar a sobremesa no chão.

— CALA A BOCA CLINT!!! Olha só o que você fez!! — Recolhi o biscoito e o coloquei na mesinha, respirando fundo para não perder a calma.

— Eu fiz? Quem derrubou foi você!

— Você gritou!! Já são quase 01:00 da manhã!! Não é hora para fazer esse tipo de barulho no meu apartamento!!

— Por que? Tem medo de incomodar os vizinhos? Até onde eu saiba, a grande Viúva Negra não se importa com reles vizinhos...

Minha visão se escureceu um pouco e comecei a estapeá-lo, mas tudo o que o débil mental fazia era rir ainda mais de mim.

— Caralho Clint! O que eu tenho que fazer para você ir embora?!?! — ele parou de rir na hora para me olhar com raiva. Acho que toda essa história está o fazendo mudar o humor rápido de mais para o meu gosto... Só constatando.

— Me contar. É só o que eu estou pedindo!

— Eu já contei tudo!

— Não! Eu sei que não! Por que o Fury não pode saber que estou aqui??

— Porque foi ele quem ordenou que você se esquecesse da gente!!! — Ai droga!! Falei de mais!!!

— Como é que é??

— Olha Clint, é melhor você ir embora!!!

— Não!! Por que? Qual o problema de você me falar se ele não vai saber?

— Porque eu te conheço! Eu sei que você vai tirar satisfação com os envolvidos nisso!

— Tasha... — ele se aproximou de mim, ainda apoiado no sofá com o braço e passando o outro carinhosamente na minha coxa. Um arrepio passou pelas minhas costas e vi que ele percebeu.

— O diretor pensava que não era seguro. Para nenhum dos dois. Estávamos quebrando os protocolos da Shield e sabíamos disso. Ele e o Conselho decidiram nos afastar assim, pois éramos muito eficiente juntos em campo para sermos separados. Eu só fiquei sabendo de tudo depois que acabou. Você, de repente, estava falando sobre uma família que te esperava em casa e que eu estava convidada para o jantar...

— Eu sinto muito...

— Eu descobri que eles haviam encontrado uma forma de te ajudar e fui correndo até onde você estava. Quando cheguei você estava sorrindo e me abraçou forte e eu pensei que tudo havia passado. Contudo, você começou a falar da sua mulher e seus filhos, que eles deviam estar com saudades, depois da sua ultima missão que havia levado dias. Não tinha missão nenhuma... Nem família! Eu ia falar algo, mas o Fury me interrompeu e me levou para a sala dele.

— Eu me lembro disso. É uma das memórias mais nítidas que tenho de agora.

— Ele explicou sobre os riscos de estarmos juntos, da sua necessidade de estabilidade para melhorar... Por isso precisava de uma família sólida e segura. Tudo parecia fazer sentido... E não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso... E eu até poderia perder a sua amizade, a única coisa que eu teria a partir daquele momento. Você sabe que eu não costumo confiar em ninguém, mas com você sempre foi diferente. E agora eu estou conseguindo não depender mais de você! Por que você veio? Não era para ter se lembrado! Eu estava voltando a ser forte e...

— E você não é forte comigo? Tasha, nós somos fortes juntos! — sua mão apertou levemente a minha coxa, mas ignorei o ato.

— Não! Não somos! O Fury tem razão! Com você eu me sinto uma criança! Fraca, dependente e comprometida! — Me levantei, já não aguentando mais a proximidade. — Eu sou a Viúva Negra, mas nada do meu treinamento me fez estar preparada para isso!!

— Para emoções?

— Isso!! E eu tentei! Eu me aproximei do Steve primeiro e depois o Bruce, achando que talvez eles pudessem ocupar o seu lugar. — levei o prato sujo até a pia e me apoiei na bancada molhada. — Contudo, vocês eram parecidos demais...

— Eu não tenho nada a ver com o Sr Perfeição ou com o Grandalhão! — Seu tom ultrajado se aproximou de onde eu estava e logo o senti atrás de mim.

— Fisicamente... Você e o Steve são fortes, tem olhos claros... Já o Bruce é muito mais doce e gentil... — A comparação era inevitável...

— Então por que não está com ele agora?

— Eu não vou responder a isso. — seu hálito pinicou meu pescoço e suas mãos me circundaram. Meu estômago se apertou e minhas mãos ficaram mais frias, reagindo à ele.

— Eu acho que você não precisa responder. Eu já sei a resposta.

Seus lábios tocaram meu pescoço e me segurei para não me desmanchar em seus braços. Meu corpo ficou quente instantaneamente e percebi que ele estava do mesmo jeito... Mesmo após tanto tempo separados, ainda sentíamos as mesmas coisas com apenas um toque...

— Clint... — Minha voz saiu falhada, como num sussurro e acho que ele viu isso mais como um pedido para que continuasse do que para que parasse, minha real intenção (pelo menos parte de mim...). Então seus braços me viraram de frente para ele e seus lábios encontraram a minha clavícula, me fazendo suspirar alto. Cada toque de suas mãos me faziam queimar e tudo que eu queria, neste momento, era que ele se aproximasse mais.

Como se escutasse a minha mente, ele deu um pequeno passo para a frente, colando nossos corpos e o deixando numa posição desconfortável, algo que ele rapidamente consertou ao me colocar sentada na bancada molhada ao lado da pia. Coloquei minhas mãos em seu cabelo e o puxei para mais perto, inconscientemente.

Ele subiu e rosto e juntou nossas testas, me forçando a olhar em seus olhos. Eu sabia o quanto ele conseguia me ler pelo menos antes de tudo. Contudo, olhando-o agora, eu sabia que ele ainda me lia. Não a Viúva Negra; ele lia a Natasha Romanoff. A sua mão esquerda subiu pela lateral do meu tronco, roçando em meu seio e ficando lá parada, fazendo uma corrente elétrica nos percorrer.

— Clint... É melhor você...

— Não! Eu não vou embora Tasha! Não depois de ter lembrado, de ter revivido, de ter sentido tudo de novo, mas com mais intensidade... Não me venha dizer que a Shield não vai aprovar, porque tudo o que eu quero é que ela é todos os agentes se explodam! Eu não me importo com eles! E se isso for um empecilho para trabalharmos juntos, eu saio da Shield!

— Clint!!

— Eu saio! Você é muito mais importante para mim do que esse emprego! Sempre foi! Mesmo sem memória! E agora que tudo voltou, não vou deixar ninguém nos afastar de novo!

— Falando assim você parece um príncipe encantado... Mas eu não sou uma princesa! Você não tem que fazer isso só para manter esse relacionamento e...

— Você não sente o mesmo? Não faria o mesmo por mim??

— Claro que eu faria! E esse é o problema!! — Tirei delicadamente suas mãos de mim — Eu sou a Viúva Negra! Tem varias pessoas na minha cola querendo se vingar de mim e você é um alvo! O Fury tem razão quando disse que nos mantermos afastados é nos mantermos em segurança!

— Você só pode estar de brincadeira! Natasha!! Eu sou o Gavião Arqueiro! Posso lidar muito bem com todos eles!

— Mas você se colocaria na minha frente para me proteger!! — Ele ia retrucar, mas sua voz não veio. Ele sabia que eu estava certa... Até porque ele já havia feito isso sem necessidade alguma! — Embora eu me sinto lisonjeada por você fazer isso, não posso mais permitir você se arriscar por mim!

— Mas você não faria o mesmo?

— O que eu faria ou não, não está na discussão!

— Claro que está!! — Ele se afastou de novo e o frio me envolveu mais uma vez. Clint andou de costas até encostar na ilha e apoiou suas mãos na bancada, sem quebrar o nosso contato visual. — Se você pode fazer isso, por que eu não posso? E não me venha com a história que você não é digna, ou que tem uma dívida comigo! Sabe que isso já não cola a muito tempo! Na verdade nunca colou realmente!!

— Como assim!?!? Você me deu uma segunda chance ao invés de me matar!! Como eu não tenho uma dívida com você???

— Natasha! Não vamos entrar nessa discussão de novo!! Embora minha mente ainda esteja enevoada, eu consigo me lembrar de nossas brigas por causa disso!! Vamos nos concentrar apenas no agora!! Vamos ficar juntos!! Eu vou me separar da Laura e...

— E as crianças? — Seu rosto se dividiu entre alegria, por eu aparentar ter aceitado, e tristeza, por pensar em como elas ficariam. Eu sabia que ele havia se apegado à elas, mesmo sem ele mesmo saber disso.

— Elas... Elas vão entender... No final vão entender. O Cooper já é crescido o suficiente... A Lila vai entender com o tempo e o Nate... Ele é muito pequeno para entender o que está acontecendo...

— Eles vão sofrer! E você sabe disso!! Mesmo tendo passado menos de dois anos com eles, eles vão sentir!! E você se importa muito com isso, mesmo tentando mentir para si mesmo que não!!

— E porque eu você quer que eu faça? Não foi nossa culpa que nos separaram!

— Não havia um relacionamento sólido para separar!!

— NÃO REPITA ISSO ROMANOFF!!

Abaixei o rosto tentando não olhar mais para ele. Ficamos em silêncio por alguns minutos, me permitindo escutar a chuva que ainda caia lá fora e o jogo com o locutor irritante. Por que tinha que ser tão complicado? Agora ele tem filhos! Podem não serem de sangue, mas não podíamos fazer isso com as crianças!

— Eu sei que eu tenho responsabilidades a cumprir com as crianças! Mesmo não tendo escolhido nada disso, eu não vou abandoná-las! Mas não posso ficar naquela casa sabendo que tudo é uma mentira!! Não fará bem a ninguém! Nem a mim, ou a Laura ou às crianças!! Nem a você! — Ele se aproximou de mim de novo e eu tentei reprimir os arrepios que sentia de vê-lo seguir em minha direção. — Você realmente quer que eu volte para aquela casa e deixe tudo como está agora?

Suas mãos alcançaram a minha cintura e eu senti calor de novo. Ele levou seus lábios à minha orelha e ficou roçando-os por toda a extensão dela, provocando arrepios e taquicardia em mim. Isso não era para acontecer... Nada disso! Tudo começou com sexo casual... Não era para levar à isso!! Comigo derretendo nos braços dele e ele sabendo disso!!

— Você quer que eu vá embora Tasha...?

Entre suspiros eu disse "Não", e finalmente seus lábios encontraram os meus.

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