Eu estava mais uma vez gravando uma música para ajudar nas despesas da casa. O que música tem a ver com despesas? Deixe-me explicar. Eu canto para algumas pessoas e elas me pagam para usar as músicas que eu componho. Elas compram os meus direitos sobre as músicas. Algumas delas até se tornaram famosas, mas essa não é a questão. Eles me dão, em média, mil reais por música. E eu escrevo uma música por semana. Não que eu precise, exatamente...
Eu sou Selena Baptista, famosa compositora, com apenas treze anos incompletos. Minha mãe, Sacha Baptista, é do ramo de música, também. Ela é coreógrafa. Nós trabalhamos atrás das câmeras, eu sem direitos, então era normal que ninguém nos reconhecesse. Eu prefiro assim. Eu tenho olhos castanhos totalmente normais e, em minha opinião, extremamente sem-graça.
Meu cabelo preto como a meia-noite, escorrido e sem corte (eu parei de cortar o cabelo faz dois anos, só aparo as pontas) não valorizam-os, mas me fazem passar despercebida pela maioria dos lugares ao qual eu vou. E minhas roupas ajudam. Eu estou sempre de preto à noite e com roupas sem-graça de dia. Os garotos não reparam muito em mim, mas as garotas também não, o que é um alívio. Eu fiquei traumatizada depois da quinta série.
— Mas e então, você já acabou? – perguntou minha mãe depois de criar a coreografia dela.
— Estou apenas lendo, já acabei de estudar todos os assuntos da escola. – eu disse.
É, eu estudo em casa. Mas não estudo em casa “integralmente”, do jeito normal. Eu faço a tradução dos meus livros para o grego, que é a única língua imune à minha dislexia. E então, eu estudo em casa e só vou à escola nos dias de prova. As professoras sempre diziam que eu ia perder por falta, mas eu sempre passava entre as dez melhores da escola em que estudo. Elas não entendem, mas quem entende?
Eu tinha acabado de ler o conteúdo da escola três horas atrás e agora estava lendo mitologia. Grega. A romana é... Sei lá, no me gusta. Eu contei que eu sou uma máquina de absorver conhecimento? Pois é, aprendi a falar grego fluentemente com três anos e cursei espanhol e inglês também. Sei falar quatro línguas e me orgulho muito disso. Mas eu sinceramente não ligo muito, minha mãe adora quando eu mostro meu boletim de notas boas para ela. E a minha mãe é a minha família inteira, então eu gosto de vê-la feliz.
Ah, eu esqueci de contar. Meu pai morreu vai fazer dez anos. No meu aniversário. Ele foi lutar numa guerra e nunca mais voltou. Eu tenho fotos, mas minha mãe não fica muito feliz quando eu as estou olhando e ela chega, ela é a favor de que tudo que ocorreu no passado fique no passado, então eu também acabei por deixar as fotos de lado. Exceto uma, de meu pai, minha mãe e eu, com dois anos, que eu guardava na minha carteira. Quando eu a abria, olhava todos ali, imaginando como seria ter a minha família de volta.
Minha linha de raciocínio não é muito boa, não? É por que eu tenho déficit de atenção. Enfim, eu acho que vou comprar varas de alcaçuz agora. Fechei meu livro e coloquei-o em cima da minha mesa de estudos, junto com meus outros livros recentemente lidos e com meu notebook. Eu peguei minha chave e o meu iPod. Peguei meu fone “nada escandaloso” e coloquei-o. Ativei minhas músicas prediletas. Vesti meu casaco preto por cima da blusa cinza e saí pela rua. Coloquei o iPod num dos bolsos e as chaves em outro.
Pus a mão do bolso de trás da minha calça e pude sentir um papel. Puxei e olhei a nota de cinco. Ok, isso dá para uma caixinha. Eu caminhei silenciosamente perto da parede, rezando para que ninguém me notasse. Logo tinha chegado ao pequeno armazém. O sino tocou quando eu abri a porta e Mateus, um garoto de olhos castanhos e cabelos pretos como os meus (porém ele sempre sorria e seus olhos eram muito expressivos) veio me atender.
Ele era o único garoto que falava comigo. Bem, não exatamente falava, eu não era muito de falar. Ele começa a tagarelar e eu aceno com a cabeça enquanto ele explica fatos engraçados ou perigosos. E depois de um tempo, ele quase lia a minha mente por aqueles simples acenos de cabeça. Ele é legal, um bom amigo. É isso que eu o considero, pelo menos. Depois de quatro anos, isso seria mais que justo. Nossos pais já eram amigos muito antes de nascermos.
— Oi, Selena! – disse Mateus atraindo vários olhares para mim.
Acenei com a cabeça.
— Olha só o que eu pus! – ele disse me mostrando algo na orelha – É um alargador de dois mm.
“Será que dói?” pensei.
— Não dói depois que você passa algumas horas. – ele disse.
“Provavelmente eu não aguentaria isso aí, além do que acho que eu não ficaria muito bem.” Pensei.
— Não, acho que você deveria colocar. Afinal, você nem tem paciência com brincos, isso facilitaria sua vida. Eu posso alargar sua orelha, que tal? – ele perguntou.
“Não, obrigada, sou muito covarde para isso.” Pensei.
— Ora, vamos! – ele disse – Eu tenho todo o material e já comprei um alargador para você. De aço. – os olhos dele brilharam de entusiasmo.
“Está bem.” Pensei “Mas se ficar doendo por muito tempo, eu te mato.”.
— OBA! – ele disse.
“Cala a boca!” pensei enquanto pegava uma caixa de varas de alcaçuz.
— Ora, não seja estraga-prazeres. – ele disse – Amanhã eu vou lhe ver, ok?
“Se você insiste...” pensei dando para ele as varas e a nota de cinco “Fique com o troco.”.
— Ok. – ele disse e me deu a caixa numa sacola – Te vejo amanhã! – ele disse enquanto eu saía.
Acenei e fiquei mais próxima da parede enquanto andava, escutando “Make It Shine”, de Victoria Justice. Eu andava no ritmo da música quando ouvi um barulho alto demais atrás de mim. Virei-me, meu cabelo voando para cima dos meus olhos. Eu não sei exatamente o que vi, mas era enorme. E tinha chifres. Alguém fantasiado? Não sei, mas ele impulsionou o punho para frente e acertou meu estômago. Eu caí e ele me jogou contra uma parede do outro lado da rua. Eu logo me virei e comecei a correr.
Eu sempre fora boa em escapadas. Ninguém podia me pegar em baleado antes que eu parasse de frequentar a escola. Logo, quem quer que fosse ficou para trás. Eu entrei num beco, derrapando no processo. Ofegante, observei a coisa passar por mim. Era um minotauro. Como, eu não sei, mas era um minotauro. Ele tinha as pernas humanas, mas da cintura para cima era um enorme touro de bronze. Observei-o passar por mim correndo, mas ele não era muito bom em corrida.
Depois de alguns minutos, arrisquei colocar a cabeça para fora do pequeno beco escuro. Ele tinha sumido. Saí do beco e comecei a andar o mais rápido que podia sem correr. Há essa hora, havia mais do que minotauros na rua e eu não quero ser apanhada por nenhum. Logo cheguei a casa, ofegante. Minha mãe estava dançando, mas parou ao ver meu rosto.
Minha mãe era uma mulher de 35 anos, cabelos pretos como os meus num corte jovial não muito longo. Na verdade, os cabelos lisos mal passavam dos ombros. Ela tinha franja, o que a fazia parecer uma garota de 28, no máximo. Seu corpo ainda estava em boa forma de tanto dançar. Ela correu para mim e me abraçou. Só então percebi que eu estava tremendo.
— O que houve? – ela perguntou.
— Eu enlouqueci. – eu disse – Mãe, eu enlouqueci.
— O quê? – ela ficou confusa – Me conte exatamente o que houve.
— Eu vi um minotauro. Um minotauro, mãe. Eu enlouqueci. – eu dizia entre soluços.
— Chegou à hora. – ela disse com um suspiro.
— Añh? – perguntei confusa.
— Filha, faça suas malas. – ela disse.
— Mas... – eu estava muito confusa agora.
— Filha, apenas faça. – ela disse me dando um beijo no topo da cabeça e indo escrever algo.
Eu fiquei ali por dez segundos contados e então fui ao me quarto, colocar tudo numa mala grande: notebook, modem, livros em grego que eu não havia lido ainda, roupas sem graça, um vestido para o caso de sair. Coloquei meus artigos de higiene numa nécessaire e joguei-a dentro da mala. Voltei para a sala. Minha mãe não estava com mala alguma.
— Aonde vamos? – perguntei.
— Você vai. – ela disse, pegando a mala e disparando para a garagem.
— Mãe? – chamei-a.
— Filha, lembra das aulas de direção que eu lhe dei? – ela perguntou – Você lembra de todos os detalhes?
É claro que eu lembrava. Minha mãe me ensina a dirigir desde os onze anos. Ela é meio maluca, ou era o que eu pensava.
— Sim, mas por quê? – perguntei.
— Olhe, você vai até aquela colina que nós visitamos no verão, lembra? – ela perguntou alisando meus cabelos.
— Lembro. Foi a primeira vez que dirigi sozinha. – eu disse.
— Exatamente. – ela disse – Você vai dirigir sozinha até ela novamente.
— Mas... – eu falei – Mãe, a senhora não vai? Como fica a escola?
— Não importa, você já está passada, eu passo semana que vem para pegar seu boletim e matriculá-la novamente. Agora entre, filha. E dirija. Não deixe que ninguém a pare. Quando chegar, vá até o topo da colina. Lá vai ter alguém chamado Quíron. Dê-lhe isto. – ela me entregou um envelope preto que tinha letras em prata “Querido Quíron”.
— Mãe, quem é Quíron? – perguntei.
— Ele é bom. – disse ela – Só confie em Quíron. Por favor, filha, só confie nele.
— Tudo bem. – eu disse.
— Me prometa que jamais vai esquecer de mim. – ela pediu, os olhos marejados.
— Sempre vou amar você, mãe. – eu disse quase chorando – Always, do you remember?
— Always. – ela repetiu e colocou a mala no banco do carona e a carta no meu bolso – Agora vá. E tome cuidado.
E foi assim, dirigindo um carro com os vidros escuros levantados, que eu cheguei à colina. Um lugar que ia mudar a minha vida para sempre. Ou só revelá-la?
O-O-O-O
Eu estava quase chegando quando algo atraiu minha atenção para o retrovisor. Um touro? Não. O minotauro. Gritei, acelerando o carro. O minotauro não era bom em corridas, seu forte era a força, mas se ele me alcançasse... Acelerei mais, chegando a 180/H. o minotauro conseguiu lançar algo na janela de trás e algo bateu atrás da minha cabeça.
— P***a! – gritei quando bati em algo.
Uma árvore. Mas não uma árvore qualquer. Uma árvore com um dragão. Ele olhou para mim e cuspiu algo. Não fiquei para ver. Desesperada, peguei minha mala e comecei a correr. Vi uma entrada e me joguei. Eu estava na colina que nós visitamos tempos atrás. Tinha uma fogueira ao longe. Ruído de vozes.
Pessoas. A verdade me assustou, mas me fez muito feliz. Corri até lá. Quando cheguei, tinha alguns garotos tocando, meninas cantando e um homem olhava-os. Era uma espécie de acampamento, notei, ao ver as camisas laranja, quase todas iguais.
— SOCORRO! – gritei, trêmula, ao chegar perto o bastante para que eles me vissem.
— Mas... – alguém praguejou em grego.
Em grego?
— MEU CARRO! – eu disse – UM MINOTAURO! AH, MEU DEUS, EU ESTOU ENLOUQUECENDO! – eu chorava agora, olhando o minotauro e o dragão na colina.
— O minotauro? – perguntou alguém chegando perto de mim.
— Você acredita em mim? – perguntei ao homem.
— Mas é claro que sim. – ele disse – Campistas! Vamos! Temos um monstro para eliminar.
Ouvi gritos entusiasmados, gemidos e até alguns suspiros. Pessoas passaram por mim. Eu não aguentava mais. Exausta, caí na grama de joelhos, perdendo a consciência antes de a minha cabeça atingir o chão.
O-O-O-O
Acordei com barulho de vozes desconhecidas. Muitas vozes.
— Hei, garota! – falou alguém impaciente.
— Cara, ela enfrentou o minotauro ontem, descobriu tudo de vez, deixe-a descansar. – repreendeu outra voz.
— Ela já recuperou a consciência. – disse uma voz nova a senti uma mão na minha testa – Ela vai acordar logo. Não me surpreenderia ela já estar nos escutando.
— Nossa, que legal. – ecoou uma voz sarcástica.
Minhas pálpebras tremeram e todos ficaram quietos. Sentei-me gemendo. Minha cabeça girava, minhas costelas doíam.
— Cuidado aí. – repreendeu alguém e a mão na minha testa passou para a minha cintura, me ajudando a sentar.
Ergui os olhos para um garoto de olhos gentis.
— Er... – tentei falar, mas minha voz saiu rouca.
Pigarreei.
— Obrigada. – eu disse.
— Não tem de quê. – ele disse se levantando – Até mais.
Ele saiu e eu encarei os pares de olhos de garotos com orelhas pontudas e sorrisos estranhos. Pareciam elfos, mas eram inteiramente humanos. Eu sentia isso pelo cheiro. É, eu sou mesmo esquisita.
— Como você está, Selena? – perguntou um deles.
Ergui meus olhos assustados.
— Você fala enquanto dorme. – ele disse meio rindo.
— Ah. – eu sabia disso – Me sinto meio tonta.
— Bem, então já pode ver Quíron. – ele disse.
Quíron. O nome me trouxe tudo de volta. A noite passada, a minha mãe chorando, a loucura do minotauro... Ofeguei.
— Onde eu estou? – perguntei com medo.
— Acampamento meio-sangue. – ele disse – Quíron lhe dará os detalhes.
Levantei-me cambaleante. Ele andou ao meu lado enquanto eu cambaleava o seguindo. Ele parou à frente de uma casa que parecia colonial e me empurrou de leve para dentro. Coloquei a mão no bolso, sentindo ali o envelope de minha mãe. Tirei-o do casaco e andei até um homem sentado numa cadeira de rodas jogando algo com um outro homem sentado numa cadeira vestindo estampas que eu jamais pensaria em usar.
— Senhor Quíron? – perguntei e o homem da cadeira de rodas olhou para mim.
— Sim? – ele perguntou.
Eu entreguei a carta. Ele observou o envelope por um instante, depois o abriu e pôs-se a ler. Na metade da carta, eu supus, seus olhos se arregalaram e ficaram passando da carta para mim, sem parar. Então ele voltou a ler. Depois de algum tempo, ele acabou de ler e me entregou outro envelope menor. Eu li a letra de minha mãe.
Querida,
Eu sei que parece confuso, mas Quíron vai explicá-la tudo o que precisa entender.
Confie nele. Como eu disse, ele é bom.
E com o passar do tempo, as coisas não vão ser tão mais confusas.
Por favor, não me odeie.
Mamãe.
Olhei o bilhete, sem entender. Depois meus olhos passaram a Quíron, que estava de lábios franzidos.
— Ora, mais um deles. – suspirou o outro homem.
— Ah, sim. – disse Quíron – Selena, esse é o Senhor D..
— D? – perguntei.
— Os nomes são poderosos. – disse ele.
— D... – eu vasculhei nomes incomuns – Não gosta do nome que o deram?
— Não exatamente. – ele disse mal-humorado.
— Olhe pelo lado bom. – eu disse – Eu tinha um colega que se chamava Iriselne, a mãe dele queria uma garota e colocou esse nome nele por vingança.
Quíron riu e Sr. D. quase deu um sorriso. Eu me senti melhor vendo-os de bom humor.
— Bem, acho que vou atender o desejo de sua mãe e lhe mostrar o acampamento. – Quíron disse se levantando.
Espera, levantando? Ele estava numa cadeira de rodas porque achava bonito? De repente, suas pernas não eram mais pernas. Da cintura para baixo, ele era um cavalo branco. Eu arquejei.
— Um centauro! – eu disse, apontando para ele, totalmente confusa.
— Sim, garota. – disse Sr. D. totalmente entediado.
— D... – eu disse – Você é Dionísio, o deus grego do vinho! – eu quase gritei de choque.
— É, garota. – ele disse – Você tem o raciocínio rápido.
— Venha, Selena, eu vou lhe explicar. – Quíron disse.
Andei ao lado de Quíron por algum tempo e ele ia me explicando os lugares. Existiam forjas, campos, lagos, florestas e até um muro que escorria lava. Fiquei mais afastada deste último enquanto ele explicava. Depois de algum tempo, eu estava entediada.
— E o que sobre a mitologia grega? – perguntei e ele suspirou.
— Primeiramente: não mitologia grega, crenças gregas. – ele me encarou – Crenças que existem.
— Impossível. – sussurrei.
— Eu sou a prova que não. – ele disse, pateando o chão nervosamente.
— Mas... Se você é real, isso quer dizer que eles são reais... – eu disse devagar – Tipo Zeus, Poseidon, Hades, Atena e etc.
— E eles são. – disse Quíron.
— Não. – eu disse – Eles. Não. Existem.
Trovejou do lado de fora.
— Sim, existem. – ele disse – Venha comigo, vamos arrumar uma arma para você e eu vou explicar o resto...
E eu fui com o estranho conhecido de minha mãe para o primeiro passo que causaria uma grande confusão.
